Better Than Dead aposta no desconforto do bodycam shooter hiper-realista

Nos últimos anos, os chamados “bodycam shooters” se tornaram uma curiosidade dentro do gênero FPS. Em vez de buscar a clareza visual e a precisão quase cirúrgica dos grandes jogos competitivos, eles tentam reproduzir a sensação de estar carregando uma câmera presa ao corpo. Better Than Dead segue exatamente esse caminho, mas leva a proposta para um território ainda mais perturbador.
O jogo coloca o jogador na pele de uma personagem que escapa de um laboratório clandestino ligado à produção de conteúdo adulto extremamente violento, e parte em uma jornada de vingança contra uma rede de tráfico humano em Hong Kong. Desde os primeiros minutos fica claro que a intenção não é criar uma experiência confortável. Os ambientes são opressivos, a atmosfera é sufocante e a narrativa explora temas pesados. Tudo é construído para provocar desconforto, e não apenas através da história.
Grande parte dessa sensação vem da própria câmera. Diferente dos FPS tradicionais, em que a visão do jogador funciona quase como uma janela para o mundo, Better Than Dead utiliza uma abordagem inspirada em câmeras corporais. A lente fish-eye distorce as extremidades da imagem, o enquadramento balança constantemente e os movimentos parecem menos controlados do que estamos acostumados a ver no gênero. Em alguns momentos, a impressão é de assistir a uma gravação encontrada em vez de jogar um videogame.
Essa escolha estética afeta diretamente a jogabilidade. Mirar não é tão simples quanto em um Call of Duty, Counter-Strike ou Battlefield. Sem crosshair, o jogador precisa lidar com a movimentação da câmera, a distorção da lente e uma percepção espacial diferente da oferecida pelos FPS convencionais. Os combates acabam parecendo mais caóticos e imprevisíveis, o que contribui para a tensão constante. Não é raro errar disparos que seriam triviais em outros jogos simplesmente porque a leitura visual da cena exige um período de adaptação.
Curiosamente, o que poderia ser visto como um defeito acaba funcionando como parte da proposta. A dificuldade para enxergar claramente o ambiente ou alinhar a mira reforça a vulnerabilidade da protagonista. Em vez de transmitir a sensação de poder comum aos shooters, Better Than Dead frequentemente faz o jogador se sentir perdido, acuado e desconfortável. É uma experiência que tenta reproduzir o estresse de uma situação extrema, mesmo que isso signifique sacrificar parte da acessibilidade tradicional do gênero.
O resultado é um jogo que certamente não agradará todo mundo. Alguns jogadores podem sentir enjoo por causa da movimentação intensa da câmera e da forte distorção visual. Outros podem se incomodar com a própria temática ou com a dificuldade de adaptação à mira. Ainda assim, é justamente essa combinação de elementos que torna Better Than Dead uma experiência diferente da maioria dos FPS atuais.
Em um mercado repleto de shooters que priorizam fluidez, clareza visual e resposta imediata aos comandos, Better Than Dead segue na direção oposta. Sua câmera fish-eye, sua ambientação pesada e sua jogabilidade deliberadamente desconfortável trabalham juntas para criar algo raro: um FPS que tenta perturbar o jogador tanto quanto desafiar seus reflexos. Para quem procura experiências fora do padrão, o jogo surge como um dos exemplos mais extremos da recente tendência dos bodycam shooters.