Como a Terceira Guerra Mundial começa nos games? Vamos relembrar os gatilhos que iniciaram o conflito nos jogos.

27 de junho de 2025

Toda guerra é iniciada através de um gatilho. Um evento que, provocado ou não, desencadeia uma reação em cadeia em que coloca nações envolvidas (e ás vezes até nações que não estavam querendo conflito) mergulhadas no caos de um conflito armado.

A Primeira Guerra Mundial, de forma bem simplista, começou com o assassinato de Franz Ferdinand, o herdeiro do trono da antiga Áustria-Hungria. O que era um ato de separatistas sérvios que não aceitavam o domínio deste império, desencadeou uma reação em cadeia entre alianças entre diversos países, todos armados até os dentes, o que resultou no que era, até então, o maior conflito de todos os tempos.

Anos depois, em 1939, Hitler usou de um ataque falso, conhecido como Incidente de Gleiwitz, para justificar uma invasão na Polônia, para “proteger os alemães que lá viviam”. E, como bem sabemos, foi o estopim para que Reino Unido e França declarassem guerra à Alemanha, iniciando um conflito que matou cerca de 60 milhões de pessoas.

E, atualmente, vivemos tensões semelhantes, e até situações parecidas, com muitos argumentando que o mundo está perto de uma Terceira Guerra Mundial. Se isso é verdade ou apenas sensacionalismo de uma era de redes sociais inflamadas, não é o ponto deste artigo. Mas o assunto “Terceira Guerra”, que inclui uma devastação jamais testemunhada pela humanidade, caso aconteça, é explorada por várias mídias, que trazem suas próprias versões desse conflito, em caráter fantasioso.

E com os games não é diferente. Os jogos que abordam a Terceira Guerra Mundial geralmente criam gatilhos fictícios para os conflitos, muitas vezes inspirados em tensões geopolíticas reais, mas adaptados para suas próprias narrativas, geralmente focado no drama e na ação.

Abaixo, vamos conferir juntos os principais gatilhos para a “Terceira Guerra Mundial” em alguns jogos que bebem da fonte desta situação, que retratam cenários de um possível conflito global entre potências militares.

Veja também:

1. Call of Duty: Modern Warfare 2 (2009) e Modern Warfare 3 (2011)

  • Gatilho do Conflito: Em Modern Warfare 2, o conflito global é desencadeado por um ataque terrorista em um aeroporto russo (a polêmica missão “No Russian”), orquestrado pelo antagonista Vladimir Makarov, feito para acusar de forma falsa os Estados Unidos. O ataque de bandeira falsa causa comoção mundial e causa uma resposta severa da Rússia: invadir os EUA em retaliação. Em Modern Warfare 3, o conflito escala para uma guerra mundial quando Makarov, ainda querendo mais, intensifica ataques contra a OTAN, incluindo ocupações em cidades como Paris e Londres.
  • Contexto: Apesar de ter sido lançado anos após o fim da União Soviética, o game explora as tensões dos dias de Guerra Fria, com potências desconfiadas uma com as outras. Mas, ao invés de jogar nas costas de um líder político o gatilho para a ação, coloca como vilão um ultranacionalista que age de forma independente, disposto a manipular a geopolítica global. Com isso, os “russos continuam sendo os vilões”, mas de uma forma mais suavizada, não atacando o governo russo de forma direta.

2. Call of Duty: Black Ops II (2012)

  • Gatilho do Conflito: O game tem sua história em 2025, e segue a proposta de explorar a Guerra Fria, como no primeiro game. Mas, desta vez as tensões estão divididas entre EUA e China, que brigam ferozmente por recursos importantes para as suas tecnologias. Mas, no meio de tudo isso, tempos Raul Menendez, um líder terrorista que, assim como em Modern Warfare, manipula a geopolítica ao hackear sistemas de drones, o que rendeu ataques em cidades importantes e faz a situação escalar para um conflito global.
  • Contexto: Assim como em Modern Warfare, quem incita o conflito é um terrorista, que manipula as nações com ataque de bandeira falsa. O jogo cria a sua “terceira guerra” colocando a cibersegurança e a dependência tecnológica como um ponto a ser explorado por quem desejava mergulhar o mundo no caos. Lembrando também de outro contexto atual: a busca por recursos, para as mais avançadas tecnologias.

3. World in Conflict (2007)

  • Gatilho do Conflito: O jogo reimagina a história, voltando para 1989 e uma União Soviética, que estava prestes a deixar de existir, por causa de seus problemas econômicos. Isso realmente aconteceu mas, diferente da história verdadeira, no game a URSS, tentando sobreviver, lança um ataque surpresa contra a Europa e os EUA. Os soviéticos exigem concessões econômicas dos países membros da OTAN. E após ouvir um “não”, parte para a guerra que teria como objetivo garantir a sobrevivência da nação, como ela era. Como sabemos “um ataque a um membro da OTAN significa um ataque a todos os outros”, e isso desencadeia o conflito apresentado neste RTS.
  • Contexto: A Guerra Fria foi marcada pelo medo entre um conflito direto entre o Ocidente e a União Soviética, que nunca aconteceu. Ao invés disso, EUA e URSS atuavam “nos bastidores da geopolítica”, apoiando governos que julgavam bons para seus próprósitos e derrubando quem julgavam ameaça. Ou ainda entravam em conflitos “por procuração”, para garantir sua influência. Este game explora estas questões, usando o “início do fim” da URSS, que em 1989 enfrentou diversas manifestações de nações membros de seu bloco, incluindo a queda do Muro de Berlim, além de sérios problemas econômicos. E, de acordo com o game, o desejo de sobrevivência de uma potência em declínio, foi o que escalou o conflito.

4. DEFCON (2006)

  • Gatilho do Conflito: DEFCON, ou Condição de Preparação de Defesa, é um sistema de níveis de alerta usado pelas Forças Armadas dos Estados Unidos para indicar o grau de prontidão para uma possível guerra. E, por isso, batiza este game que, embora não tenha uma narrativa detalhada como os jogos Call of Duty, simula uma guerra nuclear global com superpotências que, embora não sejam de nações reais, são inspirados nas potências da OTAN e da antiga URSS. Não há um “motivo” definido, mas o conflito desencadeado através de ataques nucleares.
  • Contexto: O jogo se baseia no conceito de “destruição mútua assegurada” (MAD), comum na Guerra Fria, onde um erro ou mal-entendido pode iniciar um conflito catastrófico. O mundo, durante a Guerra Fria, ficou muito perto de um conflito desta natureza na Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962 e um episódio em 1983, quando um Exercício Militar quase resultou em um conflito nuclear, devido a má interpretações de inteligência, que não foram levadas em consideração antes do pior acontecer.

5. Battlefield 4 (2013)

  • Gatilho do Conflito: Assim como nos jogos Call of Duty, não são os governos responsáveis pelo caos, e sim um indivíduo, motivado por questões ideológicas pessoais, que manipulam a geopolítica aos seus interesses. No caso, temos o almirante chinês Chang, que tem como objetivo desestabilizar o atual governo de seu país, mas colocar a culpa nos EUA, para escalar as tensões entre as nações. Seu plano dá certo, após a morte de um líder político chinês, que era pró-democracia, o que leva não só os EUA e a China, como também a Rússia, em vários conflitos.
  • Contexto: Lembrando o assassinato de Franz Ferdinand em Sarajevo, em 1914, este episódio de Battlefield mostra, na ficção, como um conflito regional pode se tornar uma guerra global, já que vivemos em meio a alianças e pactos militares, assim como nos tempos da Primeira Guerra.

6. Metro 2033 (2010)

  • Gatilho do Conflito: O jogo se passa após a Terceira Guerra Mundial, usando estações de metrô como plano de fundo para a narrativa, já que são nestes locais que a população se protege, desde os primeiros conflitos de grande escala, de bombardeios e outros ataques. No mundo do jogo, há uma guerra nucelar, desencadeada por tensões entre as potências do planeta, que acabou resultando em um holocausto global. Apesar de não trazer uma razão direta, dá-se a entender que as rivalidades entre potências, e seus arsenais nucleares, foram os responsáveis pelo conflito.
  • Contexto: Inspirado em medos pós-Guerra Fria sobre proliferação nuclear e o risco de aniquilação global, o jogo mostra o lado do leste dos temores da guerra, que assim como os cidadãos ocidentais, em especial dos EUA, viveram por décadas com a tensão de um possível ataque nuclear.

7. Far Cry 5 (2018)

  • Gatilho do Conflito: Embora o foco narrativo do game não envolva um conflito global em si, o universo do jogo nos mostra um grupo religioso fanático que já está pronto para lidar com um conflito que segundo eles, irá acontecer em breve. Bunkers com comida enlatada são só uma das muitas provas de um pedaço dos EUA que já vivia pronto para receber um ataque nuclear cedo ou tarde. E, de fato é possível acompanhar tensões geopolíticas nos pormenores do game, que renderiam uma escalada para uma guerra total. Não vou falar muito a respeito pois isso seria entregar todo o final do game, mas você pode conferir uma matéria especial sobre Far Cry 5, onde explicamos todos os contextos envolvendo as profecias do Portão do Éden e o mundo do game.
  • Contexto: Inspirado nos medos dos cidadãos dos EUA em uma guerra nuclear, que envolve a cultura de comida enlatada e estoque de mantimentos, o game inclui uma seita extrema como foco da narrativa. Seita esta que prega que o “fim” é iminente e que uma guerra total, com ataques nucleares entre potências, não é mais uma questão de “se” e sim de “quando”.

Temas Comuns nos Gatilhos

É sempre um desafio de imaginação tentar explicar como um conflito da magnitude de uma Terceira Guerra Mundial poderia começar. Por isso, os roteiristas usam, em suas criações, elementos como a história real, situações geopolíticas atuais e os medos envolvendo tais conflitos para escreverem suas histórias, e aplicá-las nos jogos.

Entretanto, um elemento que apesar de sensível, quase desencadeou a Terceira Guerra logo após o final da queda de Berlim, não é tão lembrado: A Guerra da Coreia. O conflito, que envolveu, além dos coreanos, os EUA (com seus aliados), a URSS (com apoio dos países do bloco comunista) e a China, tem sua história narrada no livro Yalu: À beira da Terceira Guerra Mundial, disponível na Amazon.

  • Terrorismo e Manipulação: Uma saída comum para os roteiristas é usar atos terroristas ou líderes extremistas como Makarov e Menendez como estopim para iniciar conflitos, simplificando a narrativa e evitando culpar diretamente nações.
  • Tensões Geopolíticas: Disputas entre superpotências (como EUA, a OTAN, a Rússia, ou China) são comuns, muitas vezes amplificadas por crises econômicas, recursos estratégicos ou instabilidade política.
  • Tecnologia como meio de ampliar tensões: Jogos mais recentes, como Black Ops II, citam ciberataques e drones, refletindo preocupações modernas com a militarização da tecnologia.
  • Histórias Alternativas: Alguns jogos criam cenários alternativos, como a sobrevivência da URSS, para justificar conflitos que ecoam temores históricos. Jogos envolvendo a Guerra Fria eram muito comuns nos anos 80 e 90, e pelo visto vez ou outra estão voltando, como na série Atomic Heart.
  • Falta de Detalhamento Político: Os gatilhos são frequentemente vagos ou centrados em indivíduos para evitar controvérsias, focando mais na ação do que em análises geopolíticas complexas. Muitos jogos pós-apocalípticos, inclusive, preferem apostar em caos envolvendo zumbis e corporações, uma herança de Resident Evil, do que justificar um caos baseado em conflitos entre nações.

Nos ganes, pelo menos, a Terceira Guerra traz diversão

Os gatilhos nos jogos são projetados para criar narrativas envolventes e acessíveis, muitas vezes sacrificando realismo em favor de drama e jogabilidade. Eles refletem ansiedades culturais da época de lançamento, como o terrorismo pós-11 de setembro, a ascensão da China como superpotência, ou o medo de guerras nucleares.

Jogos envolvendo conflitos reais são facilmente encontrados. No início da ascensão dos jogos, aventuras baseadas nos conflitos do Vietnã ou em conflitos nos quais “os russos eram os vilões”, eram muito comuns nos anos 80 e 90.

Medal of Honor ou Metal Slug (mesmo de forma fantasiosa) ajudaram a amplificar o tema da Segunda Guerra Mundial para os jogos, que também contam com muitos games sobre os mais variados conflitos que a guerra que aconteceu entre 1939 e 1945 presenciou. A Guerra Fria também é abordada, com jogos envolvendo espionagem, algo também muito comum naqueles dias.

E, obviamente, os temores com uma Terceira Guerra vivem no imaginário da população contemporânea, o que rende também histórias, das mais variadas, que explicariam como o mundo escalou para um conflito desta natureza, e entregam este temor em forma de um game que apostam nestes conflitos para apresentar suas propostas de gameplay.

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Junior Candido

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