Inverno do nabo e suco de nabo de Os Simpsons: o que a fome alemã na Primeira Guerra tem em comum com Shelbyville?
Artigo compara a piada do suco de nabo em Os Simpsons com o Steckrübenwinter, período de fome na Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial.
Tem um episódio de Os Simpsons que mostra os habitantes de Shelbyville, cidade rival de Springfield, tendo de se contentar com suco de nabo, após tentarem roubar o limoeiro da cidade vizinha e fracassarem. É uma piada, claro, mas que tem um precedente histórico: o Steckrübenwinter, o ‘inverno do nabo’ alemão de 1916/17, durante a Primeira Guerra Mundial, quando o país, esgotado pelo conflito, viu a população depender quase só de rutabagas (nabos-da-suécia) para não passar fome.
Mas será que Os Simpsons revisitou o passado para criar a sua versão de drama após um momento difícil para uma população?
A resposta direta é não. Nenhum roteirista, rumor ou qualquer fonte ligada à animação diz que a piada do suco de nabo em “O Limoeiro de Tróia” (Os Simpsons, 1995) é uma referência ao Steckrübenwinter alemão. O roteirista Brent Forrester contou em uma sessão de perguntas e respostas no Reddit que o episódio nasceu de pesquisa em mitologia grega, com foco no Cavalo de Troia, daí o nome do episódio. Mesmo assim, olhando as duas situações lados lado a lado, os paralelos são parecidos e merecem sim um olhar mais profundo e uma comparação entre eles.
Um limoeiro que causou uma “guerra civil” em duas cidades

O episódio foi ao ar em 14 de maio de 1995, é o 24º da sexta temporada, tem roteiro de Brent Forrester e direção de Jim Reardon, sendo exibido no Brasil nos tempos em que o SBT tinha os direitos de transmissão. A história tem um teor “nacionalista”, após Bart receber um sermão e entender que sua cidade deve ser valorizada.
No meio de tudo isso, há um confronto com os garotos da cidade vizinha, com um limoeiro na divisa. Os meninos de Shelbyville roubam a árvore, mas os garotos de Springfield vão até a cidade vizinha recuperar a árvore de limão da cidade, roubada pelos rivais. Vivendo uma espécie de “mini-guerra civil” entre os dois municípios, que sempre nutriram grande rivalidade no universo da animação.
No fim, após terem a árvore recuperada, cada cidade conta a história do seu jeito. Em Springfield, o Vovô exalta os “heróis” e Bart e Milhouse tomam limonada, em um limoeiro “levemente” danificado, por culpa do Homer. Mas em Shelbyville, um outro senhor “explica” que a árvore foi expulsa porque era assombrada, e convida todos a comemorar com “um copo gelado de suco de nabo”, como se fosse a bebida característica da cidade. E, obviamente crianças tomam com nenhuma alegria.
O Steckrübenwinter: quando uma Alemanha em guerra só tinha nabo pra comer

O Steckrübenwinter (também chamado de Kohlrübenwinter) é como ficou conhecido o inverno de 1916/17, marcado como o pior momento da crise de alimentação alemã durante a Primeira Guerra. A Biblioteca Nacional Alemã (DNB) aponta que a nutrição alimentar diária média ficou abaixo de 1.000 calorias nesse período e que as primeiras greves em massa contra a fome e a guerra vieram na primavera de 1917, embora motins por comida, como os Butterkrawalle de Berlim, já ocorressem desde 1915.
A crise empurrou o governo do então Império Alemão a medidas duras, como a Lei do Serviço Auxiliar Patriótico (Hilfsdienstgesetz), de dezembro de 1916, que convocava para o trabalho os homens que não estavam no front, sobretudo na indústria de guerra. Lênin entra por outro caminho: exilado na Suíça, ele voltou à Rússia em abril de 1917 no chamado trem selado, com autorização das autoridades alemãs, que apostavam que a agitação revolucionária ajudaria a tirar os russos do conflito. A Revolução de Fevereiro já havia derrubado o czar, e a de Outubro, com os bolcheviques no poder, levou ao tratado de Brest-Litovsk, em março de 1918, deixando a Alemanha mais livre para se concentrar na frente ocidental. Entretanto, foi uma jogada militar e diplomática, não uma resposta direta à fome.
A crise teve várias causas combinadas:
- Clima e colheita: o verão de 1916 foi chuvoso e a colheita de batata saiu pequena e apodrecida, segundo a revista alemã Damals.
- Falta de trabalhadores: com muita parte da mão de obra da agricultura no front de guerra, também faltou trabalhadores para lidar com as questões de alimentação no país.
- Bloqueio naval britânico: a economista Mary Elisabeth Cox, da London School of Economics, lembra que a Alemanha dependia de importações para uma fatia relevante da comida (algo entre um quarto e um terço, conforme a fonte e o que entra na conta, como ração animal e fertilizante). E embargados pelos britânicos, os “senhores dos mares” da época, isso também ficou de fora do prato de comida alemão.
- Erros de distribuição: a DNB também cita falhas de gestão da produção e da distribuição, que renderam a falta de alimentos internos no país, sufocando a nutrição do país pelo o que o solo poderia produzir, além do bloqueio do que vinha de fora.
Dois pontos costumam ficar de fora desse quadro. O primeiro é o Schweinemord, o abate em massa de porcos em 1915, decidido para poupar grãos e batatas que alimentavam os animais, e que acabou agravando a falta de carne e gordura. O segundo é o debate entre historiadores sobre o peso de cada fator: a propaganda alemã culpava quase só o bloqueio britânico, enquanto trabalhos como o de Cox destacam o controle de preços e a distribuição desigual, que fizeram a fome pesar mais sobre quem vivia nas cidades.
O Kriegsernährungsamt (Escritório de Alimentação de Guerra) foi criado em 22 de maio de 1916 e, em 4 de dezembro de 1916, confiscou os estoques de Steckrüben para redistribuí-los, conforme a Damals. A Steckrübe é o que em português chamamos de rutabaga (ou nabo-da-suécia), um parente do nabo comum que na Alemanha servia de ração para o gado. teve de servir de comida para todo um povo, que lidava ao mesmo tempo com a fome e com a guerra (mais a Gripe Espanhola, que chegaria à Alemanha em 1918).
O escritor Ernst Jünger, então soldado, registrou o cenário nas trincheiras em In Stahlgewittern: a sopa de rutabaga aparecia nas linhas no lugar da batata, e a tropa enjoou dela rapidamente. Os soldados, porém, em geral ainda comiam melhor que a população civil. A passagem está transcrita no acervo do site WWI Today.
Quanto ao saldo humano, a DNB fala em cerca de 800 mil mortes por desnutrição no “segundo Reich” ao longo da guerra, principalmente atacando as mulheres, crianças e idosos. As estimativas variam bastante, e Cox cita uma faixa de 424 mil a 763 mil. O número mais alto vem do cálculo do Departamento de Saúde do Reich, feito em dezembro de 1918, e historiadores o contestam há décadas.
Mas quais são os paralelos?

Em primeiro lugar, temos o substituto que ninguém queria. Em Shelbyville, o suco de nabo aparece como a alternativa amarga ao doce da rival, que levou o limoeiro de volta para Springfield. Enquanto no inverno alemão de 1916/17, a rutabaga virou o substituto da batata e virou o item principal em sopas, pão, geleias e entrou até em cartões de racionamento (um cupom que deveria ser entregue junto ao dinheiro pra comprar comida, servindo como mecanismo de controle de alimentos). O alimento de ração animal passou a ser alimento de seres humanos, e ficou tão associado à escassez que muita gente na Alemanha não quis mais comê-lo depois da guerra.
Apenas hoje em dia, com uma geração totalmente “limpa” dos traumas das guerras alemãs do passado, que o alimento voltou a fazer parte da culinária local.
Depois, temos a história que adoça o amargo. O velho de Shelbyville conta que a cidade “não sofreu uma derrota”, inventando que a árvore era assombrada e que por isso “deixaram” os moradores de Springfield tirarem ela de lá. Na Alemanha, o governo distribuiu livros de receitas com truques para tornar a rutabaga comestível, incentivando o consumo como algo positivo. Lembrando também da lenda da ‘facada nas costas’ (Dolchstoßlegende), que dizia que o exército não havia sido vencido em campo e fora traído, que surgiria em 1918/19, e que ilustra essa ideia de mudar a ótica de uma derrota por uma versão conveniente. Os dois casos mostram uma narrativa tentando fazer um alimento que não está entre os mais saborosos parecer ao menos aceitável.
E também podemos falar do cerco por trás da situação. O episódio é uma paródia da Guerra de Troia, que é a história de um cerco, onde os gregos, não conseguindo vencer os troianos, enviaram o famoso cavalo para abrir uma brecha e enfim resolverem a situação. Os cidadãos de Springfield acham uma solução semelhante, ao deixarem uma van ser guinchada de propósito na garagem onde estava a árvore. A Alemanha de 1916 vivia o seu próprio cerco real, que não tinha exércitos em volta de Berlim, mas conviviam com o bloqueio naval, que cortaram importações e piorou a situação alimentar interna.
Mas é claro que tem suas diferenças

O suco de nabo, foi apresentado como uma bebida como “solução”, mas que não era necessariamente o único alimento da cidades. Eles apenas haviam perdido um elemento que era simbólico para a cidade vizinha, e mesmo ficando sem ela, o suco de nabo entra apenas como parte desta “tradição”. Os moradores de Shelbyville poderiam, depois de tomar o “delicioso suco”, ir na lanchonete mais próxima e comer um hambúrguer. Já na Alemanha dos tempos da Primeira Guerra, nabo era sinônimo de ensopado, sopa, geleia e pão com farinha de rutabaga.
Soldados cansados e doentes enfrentavam rações monótonas, mas em geral comiam melhor que os civis, e a sopa de rutabaga era parte do cardápio, não a única coisa servida. Na Ofensiva de Primavera de 1918, o saque a suprimentos britânicos aparece nos relatos como um dos fatores que travaram o avanço, junto de problemas de logística e do esgotamento da tropa. Já os civis conviveram com uma situação difícil que levou a greves e protestos, como a de abril de 1917, e, ao fim da guerra, a mudanças políticas profundas.
Além disso, o tom do episódio é de rivalidade entre cidades vizinhas, bem distante do clima de fome em massa. Por isso, a conexão fica no campo da coincidência, já que, como entendemos, Os Simpsons se inspiraram em Tróia e não no trágico evento que os alemães viveram no início do século XX.
Fontes consultadas
- Biblioteca Nacional Alemã, coleção da Primeira Guerra: erster-weltkrieg.dnb.de (seção “Food and raw material supply”)
- Damals, “Steckrübenwinter”: damals.de/artikel/steckruebenwinter
- Mary Elisabeth Cox, “War, Blockades, and Hunger” (Nuffield College, Oxford) e “The Blockade in the First World War” (Oxford University Press, 2024)
- WWI Today, trecho de Ernst Jünger: wwitoday.com
- Wikipedia: “Lemon of Troy”, “Turnip Winter”, “Reichsernährungsamt” e “Rutabaga”, para datas, créditos e contexto
- Bubbleblabber, resumo do AMA de Brent Forrester no Reddit sobre a origem de “Lemon of Troy”
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