Michael Jordan: Chaos in the Windy City – O jogo que tirou a lenda do basquete das quadras para a ação de plataforma

Em novembro de 1994, enquanto Michael Jordan passava uma temporada longe das quadras da NBA para tentar a carreira no baseball, ele emprestou sua imagem e voz a um jogo que seria bem diferente daquilo que se esperava de um então tricampeão da liga.
Em vez de um simulador de basquete, Electronic Arts transformou o astro protagonista de Michael Jordan: Chaos in the Windy City, um título de plataforma e ação para o Super Nintendo no qual o jogador faria o “Be Like Mike”, mas guiando Michael Jordan no resgate de seus companheiros de time sequestrados por um cientista maluco chamado Dr. Maximus Cranium. Um nome de vilão bem anos 90, aliás.
O enredo é simples e direto: um pouco antes de um jogo de caridade organizado por Scottie Pippen, todo o time é levado para um laboratório subterrâneo em Chicago. Aí sobra para Michael Jordan atravessar labirintos usando bolas de basquete com poderes especiais (congelantes, explosivas, ricochete) para lidar com os inimigos e ainda executar enterradas para avançar.
Esqueça dribles, passes e arremessos. O negócio aqui é exploração, chaves escondidas e a busca pelos colegas capturados. Algo bem maluco se pararmos para pensar, mas que tem tudo a ver com os anos 90, e que ainda serviria de “ensaio” para projetos ainda mais ambiciosos por parte de Jordan.
Por que Michael Jordan disse não para NBA Jam e sim para este título

Mas se Jordan era um astro do basquete na época, com três anéis de campeão nas mãos e vendendo seus tênis para todo canto, que diabos ele foi fazer em um game de plataforma, ao invés de participar de jogos de basquete, já que NBA Jam era um fenômeno na época e a união dos dois tinha tudo para ser uma parceria única?
O motivo está na forma como ele gerenciava sua imagem. Michael Jordan optou por sair do acordo coletivo de licenciamento da Associação de Jogadores da NBA. Isso significava que produtores de jogos precisavam negociar diretamente com ele para usar seu nome e imagem, algo que a Midway, responsável por NBA Jam, não fez. E imagine um universo alternativo com o lendário 23 em um gabinete deste game no shopping mais perto de você.

Já a Electronic Arts, que já tinha experiência com licenças de Michael Jordan em títulos anteriores, conseguiu fechar um acordo específico para este projeto de aventura, vivida na “Windy City”, apelido da cidade que acolheu o rapaz “de North Carolina, ala, com 1.98m”. Ou 6.6, na medida de pés dos EUA.
O resultado foi um jogo que fugia do padrão de esportes. Em vez de quadras e arremessos, o jogador enfrentava monstros feitos de basquete, plataformas móveis, paredes falsas e chefes como um robô gigante com a cara de Michael Jordan. Ele gravou até frases curtas, como “Time out” ao pausar o jogo.
O momento de Michael Jordan em 1994

O que deixa tudo ainda mais interessante é que o lançamento aconteceu exatamente durante a fase em que Michael Jordan jogava baseball nas divisões inferiores, em um time afiliado ao Chicago White Sox.
Ele havia surpreendido o mundo ao se afastar da NBA em outubro de 1993, voltando às quadras apenas em março de 1995. O que resultou em um game envolvendo um astro do basquete no auge da fama vivendo seu momento no baseball, numa aventura de plataforma, como Mario, Sonic e tantos outros.
Amy Hennig, que mais tarde se tornaria conhecida por dirigir séries como Legacy of Kain e Uncharted, assumiu o cargo de designer principal depois que o criador original saiu. Foi o primeiro jogo que ela liderou no design. A equipe de Electronic Arts criou níveis complexos com quatro mundos diferentes, transições pelo trem elevado de Chicago e até um túnel subterrâneo.

Mesmo no baseball, Jordan continuava muito conectado com a cidade de Chicago. Jerry Reinsdorf, o dono dos Bulls, também era proprietário do White Sox, o que facilitou a mudança de quadra para campo, e o manteve na cidade, com as portas abertas do United Center quando ele quisesse retornar.
E foi nesta época também, mais precisamente em 1º de novembro de 1994, que foi inaugurada a famosa estátua do jogador, honrando a sua então aposentadoria do esporte. Mesmo sem fazer uma cesta sequer em 1994, Michael Jordan continuou conectado com o esporte.
Curiosidades da aventura de Jordan
- O jogo inclui propaganda de produtos reais: caixas de Wheaties e anúncios de Gatorade (que ja patrocinavam o jogador na época) servem para recuperar energia — algo que, dois anos depois, virou piada em Space Jam.
- Uma versão para Mega Drive foi anunciada, mas nunca saiu. O título ficou exclusivo do Super Nintendo. Outra questão esquisita, já que a EA daqueles dias sempre se deu bem com a SEGA.
- Michael Jordan não aparece com o famoso logo Jumpman completo por questões de licença de marca; a imagem foi adaptada para o sprite do personagem.
- A recepção na época foi dividida. Alguns elogiaram os gráficos e a variedade de fases, mas controles difíceis e labirintos repetitivos geraram críticas. Em 1997, a revista Nintendo Power o colocou na sétima posição da lista dos piores jogos de todos os tempos, citando “desperdício de licença”. Mesmo assim, análises recentes destacam o design de níveis criativo e a coragem de fugir do óbvio.
O jogo nunca ganhou relançamento digital ou remaster, até porque envolve licenciamento do jogador. Hoje, ele circula em emuladores e coleções de cartuchos raros, lembrando um período em que Michael Jordan experimentava caminhos fora das quadras, inclusive no entretenimento.
Dois anos depois, em 1996, ele continuaria sua jornada como protagonista em um projeto de entretenimento, estrelando Space Jam, misturando live-action com animação em uma história de basquete contra alienígenas.

Chaos in the Windy City não influenciou diretamente o filme, mas mostrou que Michael Jordan estava aberto a papéis diferentes do que o público esperava dele nos videogames. O título segue como uma peça rara da história dos games dos anos 90: um experimento que misturou o maior nome do basquete com mecânicas de plataforma e um enredo maluco, sem tentar ser apenas mais um jogo de esporte.
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