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O que teria acontecido com o recruta Pyle, de Nascido para Matar, se ele tivesse ido ao Vietnã?

O que dados dos fuzileiros e da Guerra do Vietnã revelam sobre o destino provável de Pyle, de Nascido para Matar, no conflito.

Junior Candido
O que teria acontecido com o recruta Pyle, de Nascido para Matar, se ele tivesse ido ao Vietnã?

A resposta mais provável a esta pergunta é que Leonard Lawrence, o “Pyle” de Nascido para Matar (1987), provavelmente ele nem chegaria ao Vietnã. No treinamento real dos fuzileiros, um recruta como Leonard Lawrence, o “Pyle” de Nascido para Matar (1987), tinha boa chance de ser reciclado ou dispensado antes do embarque. Se chegasse, em 1968 estaria entre os mais expostos de uma guerra em que 37,7% das baixas entre os Marines vinham de minas e armadilhas, segundo o manual do próprio Corpo.

Obviamente, não dá pra cravar com dados concretos o que aconteceria com um recruta que só existe na ficção. Mas documentações e dados dos tempos do conflito no Vietnã nos fazem tentar especular como seria o desempenho do infeliz recruta, caso não tivesse feito o que fez no longa e embarcasse rumo a uma das guerras mais problemáticas da história dos EUA.

Quem era “Pyle” e como ele foi parar ali

O nome real do personagem é Leonard Lawrence, recebendo o apelido “Gomer Pyle” pelo Sargento Hartman, uma comparação direta a um personagem humilde, caipira e que não tem noção de onde está e nem o que está fazendo. No romance The Short-Timers (1979), de Gustav Hasford, que inspirou o filme, o recruta se chama Leonard Pratt.

O filme não diz se ele foi voluntário ou convocado. Mas o Projeto 100.000, de Robert McNamara, ajuda a entender o contexto de Pyle e o que um sujeito totalmente despreparado para ser um fuzileiro estava fazendo ali. O historiador do Corpo de Fuzileiros David Dawson registrou que o programa obrigava cada força a aceitar cotas de homens com notas muito baixas nos testes de entrada, e levou cerca de 38 mil desses “New Standards Men” para os Marines. A corporação reclamou, mas a partir de novembro de 1965 voltou a convocar recrutas pelo alistamento obrigatório, pela primeira vez desde 1952, e no fim de 1968 precisava de convocados para fechar as fileiras. Um relatório do Departamento de Defesa da época informa que cerca de metade dos New Standards Men eram voluntários.

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O que teria acontecido com o recruta Pyle, de Nascido para Matar, se ele tivesse ido ao Vietnã? (imagem 2)
Robert McNamara, à direita, na então Alemanha Ocidental – Stars and Stripes

McNamara anunciou o programa em 23 de agosto de 1966, prometendo “salvar” homens antes rejeitados. A ideia nasceu como projeto social em 1964, mas virou fonte de soldados quando o efetivo para o Vietnã apertou. Não era novidade: na Segunda Guerra e na Coreia as Forças já tinham baixado padrões, e os Marines aceitaram mais homens de baixa pontuação nessas guerras do que no Projeto 100.000, segundo Dawson.

Há um detalhe pouco lembrado: o programa também aceitava candidatos com defeitos físicos leves. Segundo Dawson, esses “remediais médicos” eram menos de 9% do total, todos voluntários, e 65% deles eram homens acima do peso. Assim, Lawrence, obeso e lento, cabe nos dois grupos, e claramente estava muito longe do que se espera para um fuzileiro naval.

O primeiro obstáculo seria a própria Parris Island

Nos fuzileiros reais, um recruta como ele raramente seguiria no mesmo pelotão até a formatura. Depois do caso Ribbon Creek (quando um Sargento Instrutor com vodka na cabeça fez uma marcha noturna não autorizada em um pântano em 1956, resultando em um desastre que tirou a vida de seis recrutas), Parris Island criou o Special Training Branch, com pelotões de condicionamento físico, de motivação e de reforço de instrução, e em 1965 mais de 15% dos recrutas passaram por ele. Dawson também aponta que os New Standards Marines (como eram conhecidos estes recrutas com média abaixo do esperado) tinham muito mais chance de precisar de treino extra ou de serem reprovados no básico, e um levantamento reproduzido pelo BlackPast indica que 7,2% dos “project men” foram dispensados pelos fuzileiros.

Assim, apesar de o filme mostrar Pyle se tornando um “soldado perfeito”, mas sem alma, o desfecho mais provável para o Lawrence real seria, provavelmente logo após o episódio da rosquinha roubada, a reciclagem em outra unidade, ou a dispensa antes de qualquer embarque. A decisão de Hartman de manter o recruta no pelotão serve para mostrar como que um ser humano completamente despreparado para a vida militar foi quebrado por simplesmente não se afinar ao padrão exigido. O que rendeu uma “máquina” pronta para atirar sem perguntar e que foi aprovado no final das contas, mas sem mais uma alma dentro de si, ocasionando o seu triste fim.

Se ele embarcasse: o Vietnã de 1968

O que teria acontecido com o recruta Pyle, de Nascido para Matar, se ele tivesse ido ao Vietnã? (imagem 4)

Os fuzileiros cumpriam 13 meses de serviço no Vietnã, um a mais que o Exército. E, segundo a tabela do Congresso americano, 13.095 fuzileiros morreram por ação hostil, entre 391 mil que serviram no Vietnã do Sul, o que dá pouco mais de 3 mortes a cada 100 homens. Sobre isso, em 1968 ano em que se passa a história do filme, um manual do Corpo de Fuzileiros com dados de 1968 sobre minas e armadilhas informava que 37,7% de todas as baixas eram causadas por detonação acidental desses artefatos, e que o melhor detector para eles era um fuzileiro atento e observador

Só aqui já dá para ver onde está o problema para um recruta lento, já que até soldados melhor preparados caíram em armadilhas simples, por pura falta de atenção, como Crazy Earl. O veterano Hamilton Gregory, autor de McNamara’s Folly, afirma que mais de 1.500 dos 5.478 homens do Projeto 100.000 mortos morreram em minas e armadilhas, muitos por demorar a perceber o perigo ou por serem escalados para abrir caminho à frente da tropa. Esse total de 5.478 e a taxa de mortalidade três vezes maior que a dos demais soldados vêm do livro dele e valem sobretudo para o Exército. Para os fuzileiros, a conclusão de Dawson é um pouco mais branda: alguns New Standards Marines se saíram mal, outros bem, e em alguns casos as falhas provavelmente custaram vidas, mas eles não obrigaram os comandantes a mudar de tática nem reduziram o poder de combate das unidades.

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O que teria acontecido com o recruta Pyle, de Nascido para Matar, se ele tivesse ido ao Vietnã? (imagem 3)
Fuzileiros no Vietnã em 1969 – USMC

O filme leva Joker e Cowboy a Hué, e os números reais desta batalha ajudam a dimensionar o cenário: em 26 dias, os fuzileiros tiveram 147 mortos e 857 feridos. O próprio esquadrão de Joker sofreu horrores contra uma garota sniper, o que mostrava que aquele conflito não era, de forma nenhuma, convencional como outras guerras que os EUA já haviam lutado e ainda iriam lutar. Que não perdoava nem soldados treinados, e era cruel especialmente com pessoas que nem deveriam estar ali, militarmente falando.

E o risco de levar tiro dos próprios colegas?

O que teria acontecido com o recruta Pyle, de Nascido para Matar, se ele tivesse ido ao Vietnã? (imagem 5)

O Vietnã também trouxe um outro problema para os EUA: o “fragging”, nome dado ao ataque de soldados contra os próprios superiores ou colegas, por estresse, revolta com determinadas ordens ou falta de paciência com soldados despreparados.

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E por causa disso, este tema também aparece em muitas análises sobre o personagem, que poderia sim ter sido alvejado por seus próprios colegas, caso estivesse atrapalhando o esquadrão. Mas o calendário e o próprio filme pesa contra esse argumento.

O filme mostra que, apesar de tudo, Pyle aprendeu todo o necessário para se formar, e poderíamos até supor que ele fosse um soldado completamente “mecânico”, ou seja, apenas um cumpridor de ordens que não questionaria nada, e nem se distrairia com questões que envolviam os soldados por lá, como a prostituição.

Mas, como as estatísticas deste fato só começam em 1969, e entre os fuzileiros os casos com explosivos somaram mais de 30 em 1969, mais de 50 em 1970 e mais de 30 em 1971, a situação entre os Marines era mais branda. A maior parte destes casos, envolvendo ataques com granada ou outro explosivo, geralmente contra oficiais e sargentos, ocorreram em unidades de retaguarda, e geralmente era ligada a drogas, além de que, os casos em combate costumavam ter como alvo líderes tidos como incompetentes (Cowboy escapou disso, por exemplo… mas só disso). Assim, um Lawrence que embarcasse em 1968 teria como principal ameaça o inimigo, não o próprio pelotão.

E se sobrevivesse?

O que teria acontecido com o recruta Pyle, de Nascido para Matar, se ele tivesse ido ao Vietnã? (imagem 6)

O colapso emocional que o filme mostra já mostra a sua fragilidade antes de qualquer combate. O National Vietnam Veterans Readjustment Study (1986–88) estimou que 30,9% dos homens que serviram no teatro de guerra tiveram TEPT em algum momento da vida, e 15,2% ainda tinham na época. Entre os de alta exposição ao combate, 35,8% estavam com o quadro naquele momento. Os números são contestados: o estudo do CDC encontrou 14,7% ao longo da vida e 2,2% no momento. Caso você não sabia ou não se lembra, Rambo: Progamado para Matar aborda exatamente isso. Um estudo encomendado pelo Departamento de Defesa, por sua vez, mostrou que veteranos do Projeto 100.000 ganhavam entre 5 e 7 mil dólares a menos que seus pares sem serviço militar, além de terem mais divórcios.

Ou seja, teríamos um recruta que já foi ao conflito quebrado emocionalmente, que ganharia menos que seus colegas, que talvez até participasse das missões mais cruéis justamente por ser um “soldado sem alma” e pronto para matar, retornando a um país que já não o aceitaria, não lhe traria oportunidades e lhe traria ainda mais sofrimentos. Seria, infelizmente, mais uma vida dedicada a visitas em cadeias, brigas sem sentido, alcoolismo e muito sofrimento.

Resumindo: Ainda no treinamento com os fuzileiros reais, Lawrence provavelmente seria reciclado ou dispensado no treinamento. Mas, se ele tivesse seguido o programa e chegasse ao Vietnã, o risco estaria mais nas armadilhas e em batalhas como a de Hué, ou em atuações em verdadeiros massacres, que garantiria que sobreviver no Vietnã não garantiria uma vida estável depois.

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Pyle representou, no filme, toda uma geração que o sistema aceitou por necessidade de efetivo e por uma proposta social, justamente porque, em algum momento, e mesmo sob protesto dos próprios Marines, um governo resolveu que levar jovens completamente despreparados para uma guerra sangrenta seria uma boa ideia.

Fontes consultadas

  1. Dawson, David A. The Impact of Project 100,000 on the Marine Corps. History and Museums Division, Headquarters, U.S. Marine Corps, 1995. Fonte dos 38 mil New Standards Men, do alistamento obrigatório de novembro de 1965, dos “remediais médicos”, do Special Training Branch, da conclusão sobre o desempenho em combate e do trecho do anúncio de McNamara em 23/8/1966: https://www.usmcu.edu/Portals/218/Dawson_The%20Impact%20of%20Project%20100000%20on%20the%20Marine%20Corps.pdf
  2. Project One Hundred Thousand: Characteristics and Performance of “New Standards” Men, relatório do Departamento de Defesa (ERIC ED031634), para a proporção de voluntários: https://files.eric.ed.gov/fulltext/ED031634.pdf
  3. BlackPast, Project 100,000 (1966-1971), para os 7,2% dispensados pelos Marines: https://blackpast.org/african-american-history/project-100-000-1966-1971/
  4. Congressional Research Service, American War and Military Operations Casualties (RL32492), para 13.095 mortes hostis e 391 mil Marines no Vietnã do Sul: https://www.congress.gov/crs-product/RL32492
  5. U.S. Marine Corps, Vietcong Mines & Boobytraps, manual com os 37,7% de baixas em 1968 e o “melhor detector” (cópia hospedada em site de terceiros): https://www.bulletpicker.com/pdf/USMC-VC-Mines-and-Boobytraps.pdf
  6. U.S. Air Force Historical Support Division, USAF Personnel Rotation in Southeast Asia (A Chronology) 1961-1971, para o tour de 13 meses dos Marines: https://www.dafhistory.af.mil/Portals/16/documents/Timelines/USAF%20Rotation%20Policies/AFD-130924-076.pdf?ver=2016-08-30-151413-353
  7. Task & Purpose, Inside the Pentagon’s shameful effort to draft mentally disabled men to fight in Vietnam, sobre os dados de Hamilton Gregory (mais de 1.500 mortos em minas e armadilhas, 5.478 mortos no total): https://taskandpurpose.com/history/project-100000-vietnam/
  8. HistoryNet, McNamara’s Boys, artigo do próprio Hamilton Gregory, autor de McNamara’s Folly: https://historynet.com/mcnamaras-boys/
  9. U.S. Naval Institute, Tet’s Main Event (Naval History Magazine, fev. 2018), para os 147 mortos e 857 feridos dos Marines em Hué: https://www.usni.org/magazines/naval-history-magazine/2018/february/tets-main-event
  10. Fragging (Wikipedia), para a tabela de casos por ano: https://en.wikipedia.org/wiki/Fragging
  11. History.com, Pentagon announces a rise in “fragging” among U.S. military units, para o perfil dos casos (retaguarda, drogas, líderes vistos como incompetentes): https://www.history.com/this-day-in-history/april-20/fragging-on-the-rise-in-u-s-units
  12. Kulka et al., National Vietnam Veterans Readjustment Study (1990), resumido pelo VA National Center for PTSD (30,9%, 15,2% e 35,8%): https://www.ptsd.va.gov/professional/articles/article-pdf/id12012.pdf
  13. Dohrenwend et al., Science (comparação NVVRS x CDC, 14,7% e 2,2%): https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC1584215
  14. Laurence, Janice H. et al., Effects of Military Experience on the Post-Service Lives of Low-Aptitude Recruits: Project 100,000 and the ASVAB Misnorming (1989), para a diferença de renda e os divórcios: https://eric.ed.gov/?id=ED366751

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