Análise Arkade: Legacy of Kain: Defiance Remastered resgata uma história que há muito tempo merece continuar

Legacy of Kain precisa continuar. Pronto, comecei esta análise evidenciando um fato. A série foi deixada num imenso cliffhanger lá em 2003, deixando a história em aberto até hoje. Quase 23 anos depois, Legacy of Kain: Defiance, o último game lançado da série (excluindo Ascendance, que foi lançado recentemente), enfim recebeu uma remasterização e chegou para relembrar quem viveu aquela época que a série ainda continua sem um final digno! E aproveitando o ensejo sobre “tempo”, venha conferir nossa análise do game!
A inesperada união entre Kain e Raziel, paradoxo após paradoxo

AVISO DE SPOILERS!!!
Legacy of Kain: Defiance é ambientado momentos após o final de Legacy of Kain: Soul Reaver 2, então fica aqui o aviso que não há como falar desse game sem spoilar a série. Tentarei manter o nível de spoilers o mínimo possível, mas não há como evitar 100%. Então, siga adiante por sua conta e risco!
Soul Reaver 2 terminou num paradoxo temporal, criado por Kain e Raziel (este sendo manipulado a isso), o que permitiu que eles alterassem o curso a história, após viajarem por diferentes épocas da história de Nosgoth, com Raziel buscando vingança contra Kain por conta dos eventos que deram início ao primeiro Soul Reaver, quando Kain ordenou que Raziel fosse jogado no Lago dos Mortos, sofrendo por uma eternidade e transformando-se num espectro com o corpo completamente mutilado, perdendo a sede de sangue dos vampiros e adquirindo uma nova sede: Almas.

Porém, esse novo paradoxo revelou um segredo oculto de todos, um segredo que, agora, tornou-se uma ameaça: O retorno dos Hylden, uma antiga raça esquecida pela história, sendo os grandes inimigos dos vampiros da antiguidade.
Com isso, a história segue em dois pontos de vista, com o game permitindo que controlemos tanto Kain quanto Raziel! Kain está preso no passado, buscando uma forma de reencontrar Raziel e impedir o que está por vir. Já Raziel foi enviado para outra época, ficando preso no Mundo Espectral pelo Deus Ancião, a misteriosa entidade que manipulou Raziel desde que ele despertou de sua morte no Lago dos Mortos.

A história então segue entre ambos de forma alternada, mostrando Kain no passado tentando encontrar uma forma de achar Raziel e impedir o retorno dos Hylden, ao mesmo tempo em que tenta reescrever o seu destino. E Raziel está preso na mesma época dos eventos do primeiro game da série, Blood Omen: Legacy of Kain, tentando achar uma forma de reviver o vampiro ancião Janos Audron e conseguir respostas sobre o seu destino, um destino que ele desconhece mas que fez com que todos o manipulassem a cumpri-lo.
Dois personagens distintos e um gameplay adaptado para cada um

Kain e Raziel são dois personagens fundamentalmente bem diferentes. Enquanto Kain é um vampiro “vivo”, Raziel é um espectro. O primeiro consome sangue para manter-se, e o segundo consome almas. Porém, em termos de movimentação e combate, ambos possuem os mesmos controles e os mesmos comandos para executar combos, assim, quando o jogo alterna entre personagens nada muda, não precisamos ficar relembrando como jogar com um ou outro.
Mas, obviamente, cada personagem tem seus poderes exclusivos. Kain pode transformar-se em névoa e atravessar grades com extrema facilidade. Seus poderes telecinéticos permitem que ele segure inimigos no ar e os arremesse para qualquer direção, podendo trazê-los para perto ou jogá-los para longe. Além disso, ele possui duas habilidades exclusivas de exploração: Ele pode pular bem longe em locais marcados e pode transformar-se numa colônia de morcegos e voar para longe, esse recurso sendo utilizado apenas ao final de uma área, nos levando até a próxima.

Raziel mantém os mesmos poderes que tinha desde o primeiro Soul Reaver: Ele pode alternar entre o mundo físico e o mundo espectral, utilizando isso para explorar os cenários, que se transformam ao transicionar entre mundos. Ele só consegue atravessar grades dentro do mundo espectral, utilizando o poder que ganhou ao derrotar Melchiah no primeiro Soul Reaver. Ele não possui poderes de arremessar inimigos com telecinese, podendo apenas disparar energia com a versão espectral da Soul Reaver. E fora isso, ele continua podendo usar suas asas destruídas para planar no ar, apesar do uso delas ter sido drasticamente reduzido se comparado com os games anteriores da série.
A principal diferença entre os dois está em suas evoluções. Kain, empunhando a Soul Reaver em sua forma física (Ou melhor dizendo, somente a Reaver, antes dela obter o poder de absorver almas), possui quatro upgrades para a espada, embuindo-a com poderes relacionados aos pilares de Nosgoth. Já Raziel possui sete upgrades diferentes, embuindo a forma espectral da Soul Reaver com elementos da natureza, totalizando assim oito formas diferentes que sua lâmina pode assumir.
Assim, cada um dos personagens é consideravelmente diferente um do outro, mas ambos funcionam sob a mesma base de gameplay, o que torna a experiência num geral bem divertida.
O game mais fluído da série, mas também o mais repetitivo
Legacy of Kain: Defiance é sem dúvida o game mais fluído da série, especialmente em sua versão remasterizada. Aqui o game progride através de “fases” alternadas entre Kain e Raziel, assim não há um hub central como no primeiro Soul Reaver, sendo um game mais linear, assim como Soul Reaver 2 e Blood Omen: Legacy of Kain 2.
Porém, mesmo não possuindo um mundo amplo, o remaster oferece recursos para ajudar o jogar, principalmente para saber onde ir. Ao segurar um botão, o personagem olhará para a direção em que o jogador deve ir. Um recurso bem útil pois muitos mapas do game são labirínticos e repetitivos, um problema que falarei mais adiante. Mas explorar os cenários e atravessar obstáculos é algo bem simples, ocasionalmente com algumas barreiras que dependem de upgrades que cada personagem conseguirá conforme progride.
Nos combates começa a repetitividade. Aqui não há botão de defesa, assim é preciso esquivar-se constantemente dos inimigos, o que infelizmente é um ponto negativo. E muitos inimigos se defendem ou esquivam dos ataques do jogador, as vezes emendando poderosos contra ataques difíceis de evitar. Aliado a isso, a maioria das batalhas possui três ou mais inimigos, o que pode deixar as coisas um tanto complicadas.
Com isso, nem sempre atacar agressivamente é a solução. As vezes, não dá nem mesmo para completar seus combos pois isso te deixa aberto a contra ataques. Assim, contra certos inimigos as vezes é melhor dar dois golpes, parar e começar de novo, o que não é tão legal. E conforme mencionado antes, é possível realizar combos, que são um pouco contraintuitivos, mas quando se entende como funciona fica fácil utilizá-los. O problema é que se você estiver enfrentando dois ou mais inimigos, sempre que iniciar um combo, outro inimigo vai interrompê-lo ao te atacar. É preciso estar sempre atento aos inimigos a seu redor e variar seus ataques, usando especialmente combos aéreos, para se livrar de ser cercado.

E então, por volta da metade do game até seu final, vemos uma sequência longa de muita repetitividade. Com Kain atravessando as forjas da cidade dos vampiros anciões, em que passamos por MUITAS salas idênticas enfrentando ondas de inimigos para seguir em frente. De novo e de novo e de novo. E aí, fazemos o mesmo com Raziel, passando pelas exatas mesmas salas. Esse trecho do game é realmente muito chato e infelizmente prejudica o andamento da aventura e da narrativa, que é incrível.
Essas salas fazem com que o game pareça ter sido artificialmente esticado para durar mais, com os mais importantes trechos de lore de toda a história de Nosgoth sendo descobertos nesse trecho da metade ao final do game. Infelizmente entre uma cutscene e outra há uma repetição quase infindável que, quando enfim acaba, estamos nos momentos finais do game, onde as grandes batalhas acontecem.
Um Remaster de qualidade com uma enorme quantidade de conteúdos bônus

Assim como aconteceu com a coletânea de remasters de Soul Reaver e Soul Reaver 2, esse remaster de Legacy of Kain: Defiance está genuinamente incrível. Os gráficos foram bem melhorados sem alterar a estética do mundo de Nosgoth, e todos os personagens receberam novos modelos com muito mais expressões e detalhes.
E, assim como na coletânea de Soul Reaver, é possível alternar entre os gráficos novos e originais com apenas um botão, podendo ver toda a evolução visual que o game passou nesse relançamento. Um grande destaque visual vai para Turel, o último “irmão” vampiro de Raziel, que nunca apareceu no primeiro Soul Reaver, enfim entrando na história nesse game. E, o game conta até mesmo com um Photo Mode!


A trilha sonora reaproveita as músicas do primeiro Soul Reaver, o que é incrivelmente nostálgico e reforça a identidade do game. Ouvir a música tema de Soul Reaver tocando nos momentos chave da história é sempre muito legal.
E o melhor de tudo, o game conta com localização 100% em português brasileiro! Incluindo na dublagem! A dublagem do game é simplesmente excelente, trazendo toda a eloquência dos diálogos originais em inglês, mas em nosso idioma! Infelizmente nos menus o game acaba tropeçando, misturando português, inglês e espanhol.
E além de tudo isso, o game brilha nos bônus, trazendo muito conteúdo extra, desde HQs completas da série, vídeos com sessões de dublagem, arquivos de texto e artes conceituais e fases cortadas do game, que podemos visitar e jogar! Ah, e você sabia que Anna Gunn, a Skyler de Breaking Bad, é a dubladora da personagem Ariel, Guardiã do Equilíbiro desde o primeiro game da série, lançado lá em 1996?

E, o bônus mais legal de todos, além do mais triste, é que podemos jogar a demo de The Dark Prophecy, a sequência cancelada de Defiance! O game, ambientado após o encerramento de Defiance, continuaria a história e os novos plots surgidos ao final do game, dando continuidade a história, que até hoje não chegou a sua conclusão.
A demo disponível é curtinha, mantendo o mesmo gameplay de Defiance, mas ambientada na fortaleza de Malek, um importante local de Nosgoth que o jogador visita em Blood Omen: Legacy of Kain. Infelizmente, não se sabe muito sobre esse game, e a demo inclusa no remaster não entra em detalhes sobre sua história. Ainda assim, esse é um conteúdo que nos dá uma pequena amostra de algo que infelizmente nunca tivemos.
Conclusão… E quando sai a continuação de Defiance, hein?

Legacy of Kain: Defiance Remastered é mais um tesouro resgatado do passado, enfim concluindo a “trilogia Soul Reaver“, mas mais uma vez nos deixando o gosto amargo de um cliffhanger que até hoje segue sem uma conclusão, ou pelo menos sem mais desenvolvimento.
Esse game precisa ser julgado em dois principais quesitos: A obra original e as melhorias de sua remasterização. O game original possui um enredo incrível, progressivamente mais e mais confuso ao adicionar diversas linhas do tempo e paradoxos temporais, mas que ao final é coeso e não demanda muita interpretação para entender o que aconteceu. Seu gameplay é divertido, mas a repetitividade é algo que realmente o prejudica.

E em termos de remasterização, o game é incrível, tornando o gameplay bem fluído e acessível, melhorando o visual sem sacrificar seu estilo e adicionando muitos extras que valem muito a pena para quem é fã da série!
E por fim, isso deixa a pergunta: E a sequência de Defiance, quando sai? Imagino que esses remasters foram lançados não apenas para os fãs, mas certamente como uma pesquisa de interesse para ver se o público ainda se interessa pela série. E espero que o interesse tenha sido o suficiente para fazer a Crystal Dynamics ver que a história precisa continuar!

Recentemente tivemos o lançamento de Legacy of Kain: Ascendance, que eu ainda não joguei, mas vendo as reações online os fãs não curtiram muito, pois o game reescreve muitas coisas de toda a série, aparentemente sem motivo para isso, além de ser um Metroidvania pixelado, um estilo bem diferente do padrão da série. Ainda pretendo jogar esse game e tirar minhas próprias conclusões. De qualquer forma, Defiance aguarda sua continuação a mais de 20 anos, e eu quero muito ver ela acontecer!
Legacy of Kain: Defiance Remastered foi lançado no dia 3 de março com versões para PC, Playstation 4 e 5, Xbox One, Xbox Series X/S, Nintendo Switch e Switch 2.
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