Análise Arkade: Copa City explora tudo o que o futebol tem de melhor, menos a diversão

18 de junho de 2026

O timing de Copa City não poderia ser melhor: o jogo se aproveita da mobilização em torno da Copa do Mundo 2026 em seu momento ainda inicial, com o interesse no evento em plena ascensão e com os olhos do planeta encantados com tudo o que o futebol pode oferecer quanto à magia, emoção, engajamento e paixão.

Porém, ao olhar para o lado administrativo, e não para o jogo jogado, o game traz um aspecto ainda não explorado do negócio esportivo, e depois de me sair bem na organização de alguns grandes eventos, e fracassar em alguns tantos outros, parece haver bons motivos para que este lado nunca tenha aparecido antes na história desta indústria vital.

Mais do que cartola, gestor

Os bastidores da administração de um time de futebol não é novidade no mundo dos videogames. Franquias célebres como Football Manager e o saudoso Elifoot já se apoiam no mercado de transferências, cuidado financeiro, o equilíbrio entre sustentabilidade e competitividade, e tudo o que circunda esse trabalho que, no mundo real, seria a do gerente de futebol de um grande clube ou seleção.

Mesmo jogos mais tradicionais dedicados à emulação (com mais ou menos vínculo com o realismo do esporte em si) também oferecem ferramentas bastante robustas para cuidar dos jogadores, treinos, agendas, escalações, contratações e todo tipo de trâmite para fortalecer o time e se preparar para vencer competições e alcançar objetivos complementares.

Copa City, porém, se dedica a um outro aspecto da administração do futebol, que é o logístico. Aqui, a meta não é cuidar do time, mas organizar toda a infra-estrutura que envolve uma grande peleja, que vai desde a distribuição de torcedores dentro do estádio até a gestão de riscos de todo o entorno do evento. A meta, portanto, não é conquistar os três pontos, mas evitar que a cidade entre em algum colapso pela circulação de volumes enormes de torcedores.

O grande problema, para os fãs do esporte é que, no final das contas, o futebol é só um grande pano de fundo para um sistema que, na verdade, demanda cuidados com a mobilidade urbana, a segurança pública e a economia local. É um modelo relativamente convencional de city builder onde não faz diferença gostar ou não da ação, e sim da estrutura operacional.

Portanto, grande parte das tarefas se dedica ao entorno do estádio, com espaços para circulação e permanência dos torcedores de todo o mundo. São tarefas como, por exemplo, o transporte público (é necessário direcionar e criar rotas adequadas para um fluxo menos caótico), o que inclui decidir quais ruas deverão ser fechadas para veículos, rotas alternativas, orientação das linhas de metrô e todo trabalho de um boa engenharia de tráfego.

A maior preocupação, entretanto, está em lidar com grandes aglomerações, seja organizando espaços de celebração coletiva — as chamadas Fan Zones tão tradicionais de grandes eventos, como a própria Copa do Mundo — seja garantindo espaços de isolamento para que torcedores mais fervorosos não se enfrentem violentamente.

É quase um jogo de simulação de paranoia, porque o Match Readiness (um medidor de prontidão para as partidas) parece estar sempre a um pequeno detalhe para disparar em um verdadeiro efeito borboleta onde uma viela mal sinalizada pode significar o pandemônio e o fracasso monumental.

Licenças e marcas reconhecíveis

Foi-se o tempo onde a ambientação, as mecânicas e a dinâmica de um jogo inspirado no universo esportivo bastavam, e qualquer que seja a proposta, depende bastante das licenças disponíveis. Em Copa City, não há nada perto do que EA ou Konami conseguem, a altos custos, ano a ano. São poucos os clubes, estádios e cidades devidamente representados no jogo.

Pelo ponto de vista brasileiro, obviamente o que mais nos chama a atenção é a presença do Flamengo, do Maracanã e da cidade do Rio de janeiro, uma trinca altamente reconhecível mesmo por seus adversários dentro ou fora do estado carioca. É a única marca de fora da Europa presente no jogo.

Além do clube rubro-negro, estão presentes o Arsenal (da Inglaterra); o Bayern München (ou Bayern de Munique, da Alemanha); o Borussia Dortmund (também da Alemanha); o Olympique de Marseille (da França); e o Beşiktaş (da Turquia). Nem todos, porém, estão localizados em suas casas, e as localidades presentes, além do templo brazuca, são o Estádio Olímpico, na alemã Berlim; e o Estádio Nacional, na capital polonesa Varsóvia.

Por mais que haja espaço para a possibilidade de novas expansões que adicionem novos clubes, estádios e cidades, a maior falta aqui são seleções nacionais. Primeiro, porque o clubismo incentiva rusgas, mas ao mesmo tempo, à exceção da dupla germânica, não há rivalidades evidentes que causariam comoção e preocupação na atual configuração. Em um cenário real hipotético, o Flamengo enfrentar o Arsenal seria uma festa, não um conflito.

Segundo porque se o objetivo era aproveitar a mobilização para o mundial deste ano, fica estranho um jogo que se intitula Copa City não ter nenhuma menção às seleções que estão se digladiando neste exato momento. Se não é exatamente uma falha, porque como dito anteriormente, licenças são caríssimas, complicadas e não deveriam ser protagonistas, ainda é uma ausência que diminui o interesse de grande parte do público potencial, o que diretamente influencia na visibilidade do game.

Menus, interface e burocracia

Por mais que pareça um recorte bastante restrito deste gênero de construção e gerenciamento de grandes estruturas, Copa City está muito longe de ser simples ou objetivo. Ao contrário, é um jogo complexo e com um grau de profundidade surpreendente. Ele cobra não somente planejamento estratégico, mas também a compreensão do comportamento simulado das massas, e o tão temeroso “efeito manada”.

Adiciona-se à equação que os clubes presentes, ainda que poucos, tem uma certa personalidade. Por exemplo: não só a geografia do Rio de Janeiro e de Varsóvia são diferentes, mas a própria cultura de cada torcida também é distinta, criando uma série de possibilidades imprevisíveis em cada embate. Cuidar de um encontro entre Olympique de Marseille e Beşiktaş ou entre Borussia Dortmund e Flamengo, definitivamente, é bem diferente mesmo quando ocorrem no mesmíssimo estádio.

O nível de detalhes de cada possibilidade de customização, porém, cobra caro. O jogo, mesmo totalmente localizado para o nosso português brasileiro, evita atalhos e tem uma barreira de entrada bastante rígida. A curva de aprendizagem consegue a proeza de ser íngrime e modorrenta ao mesmo tempo. Já nos primeiros minutos, são muitas e muitas camadas simultâneas a se preocupar, várias delas interdependentes em cascata, mas com algo em comum: são chatíssimas.

Além de parecerem as piores tarefas en um dia maçante de escritório, elas ainda carregam em si uma infinidade de travas e pré-requisitos muitas vezes conflitantes durante a campanha. Várias das fases começam, por exemplo, com a tarefa de vender ingressos, ou criar algumas novas construções para agradar patrocinadores, mas cada um destes elementos precisa de um esforço enorme para ser liberado, um artifício barato e já ultrapassado de alongar o tempo de uma jornada.

Não ajuda o fato de que a interface mais parece um centro de comando futurista de algum filme conspiratório de baixo orçamento, não exatamente pela estética, mas sim pela sobreposição de menus e sub-menus, cada qual com uma série de opções a serem ajustadas. É uma navegação que parece melhor otimizada para a agilidade do mouse, mas mesmo assim consegue ser esquisito e contra intuitivo.

Uma confissão desta grande deficiência de usabilidade é a possibilidade de se alternar entre o sistema convencional e o com o uso de cursor controlado pelo direcional analógico. Nem um modo, nem o outro conseguem funcionar a contento, com sérias limitações de alcance, movimentação, acionamento de menus, ajustes finos e outros recursos que já estão muito melhor resolvidos em jogos do gênero, mesmo alguns mais sofisticados que este, como os da linha Two Point.

Navegar pelo espaço geográfico também não é das tarefas mais fáceis. Comandos de zoom podem irritar em alguns momentos, principalmente em momentos emergenciais que exigem intervenções críticas e mais precisas. Mesmo cidades altamente reconhecíveis como as que estão presentes no jogo parecem só um amontoado de prédios cujo único objetivo é esconder os pontos de interesse, como possíveis locais para fan zones, bem como hotéis e prédios públicos.

A soma de todos estes entraves, barreiras e problemas de interface culminam em um jogo que, mesmo depois de horas — mesmo dezenas delas — ainda é desleixado e pouco responsivo, com um mapeamento de comandos que não faz sentido nenhum e que consegue sub-aproveitar tanto as possibilidades de um controle padrão quanto algumas convenções já bem estabelecidas.

Copa City parece, o tempo todo, estar se esforçando muito para transformar a paixão em algo enfadonho, e isso está até mesmo no discurso do nosso patrão diegético, que faz questão de dizer que tudo aquilo é só um negócio que tem como objetivo gerar lucro. Nada do que fazemos parece ser para tornar o espetáculo algo inesquecível, mas sim buscar maximizar medidores de satisfação padrão, como diversão, alimentação e segurança, mas sem o encanto e a magia de algo realmente inesquecível.

Audiovisual

Outro aspecto bastante problemático do jogo está em seu elemento estético bastante inconstante. É um jogo que trabalha com escala, de modo que podemos ver uma pracinha, um estádio lotado ou o mapa mundi… mas, o jogo pouco se esforça para criar algum senso de identidade em qualquer nível. As cidades tem algumas belas construções ao longe, com destaque para os estádios, mas basta uma rápida aproximação para desapontamentos.

Texturas de baixíssima definição, construções repetitivas, modelos humanos grosseiros e falta de uma identidade artística própria são só algumas das primeiras sensações que temos já de cara, algo que vai se acentuando ainda mais conforme avançamos na campanha e por entre os modos.

Destaca-se positivamente, porém, um bom trabalho na mudança de ambientação e na passagem do tempo. Mais do que só clarear durante o dia e escurecer à noite com alguns pontinhos de iluminação, Copa City de fato tem algumas nuances climáticas que criam efeitos bonitos. Sobretudo na passagem de tempo acelerado, quando estas mudanças são mais rápidas e, por isso, perceptíveis, a sensação é de algo realmente planejado para criar a sensação de evolução do passar dos dias que antecedem a partida.

A mudança de movimentação urbana também se faz presente, e quando nosso esforço gera frutos e a paisagem vai se enchendo de torcedores, há uma crescente que diferencia este de outros jogos de construção de grandes metrópoles. Há, de fato, vida circulando, pessoas fazendo coisas, algumas arrumando confusão (principalmente os torcedores mais ferrenhos), e o trabalho bem-feito dá mostras em gerar um efeito direto naquilo que estamos vendo.

Tudo isso perde o impacto, porém, pela pilha de atividades nada prazerosas a serem feitas e refeitas ao extremo, e que muitas vezes não nos permitem tirar uma folga e dar uma voltinha. E se ousarmos pausar a progressão para respirar, os problemas que voltam a saltar os olhos: voltamos a reparar que a tipografia é terrível, que o tamanho de textos e comandos não segue qualquer parâmetro coeso, e que os pontos de interesse não são nem um pouco interessantes.

Conclusão

Copa City teria, em tese, grandes chances de ser um jogo bastante proveitoso para as minhas preferências, porque sou fã de games pautados pela criação e gerenciamento urbanos desde o saudoso SimCity 2000, passando pelos já citados e muito bem resolvidos jogos da linha Two Point, como Hospital e Museum. Ao mesmo tempo, nem consigo explicar pra editoria aqui do site o porquê de eu continuar apaixonado por jogos inspirados no futebol de campo (que pouco evoluem ano após ano), em uma relação tóxica de amor e ódio.

Ainda assim, este jogo consegue unir o que há de menos interesse em ambos, não pela temática futebolística, que é diferente e criativa, mas pela abordagem extremamente detalhista em aspectos irrelevantes (como a obsessão por precisar de inúmeros geradores a cada meio metro para fornecer energia para qualquer coisa, mesmo em uma pracinha no centro de uma grande cidade) mas se esquece de agregar qualquer tipo de diversão à ação.

Jogar Copa City é uma coleção de frustrações conceituais, como fazer os trabalhos menos interessantes de todo o universo de uma grande partida de futebol: há frustrações mecânicas por ser uma das piores interfaces da história recente do gênero com escolhas no mínimo questionáveis de usabilidade, navegação e mapeamento de controles; e há frustrações estéticas, onde mesmo estruturas que se apoiam bem em efeitos climáticos conseguem ser visualmente ultrapassadas, rodar mal e, pior, não conseguir imprimir um mínimo de personalidade artística.

Não duvido que, ainda assim, ele consiga encontrar o seu nicho, porque nós, que somos apaixonados por futebol, somos tão contraditórios e incoerentes quanto o jogo em si. Mas, sem melhorias, ajustes e sinceramente algum tipo de reformulação profunda, faz mais sentido dedicar o tempo para assistir clássicos como Jordânia x Argélia na TV, ou mesmo ver o filme do Pelé.

Copa City está disponível a partir de 16 de junho de 2026 para Playstation 5, Xbox Series e PC com áudio original em inglês e localização de menus e legendas para o português brasileiro (com alguns deslizes, incluindo um lorem ipsum esquecido no meio dos textos).

Paulo Roberto Montanaro

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