Análise Arkade – Marvel Tōkon: Fighting Souls uma interpretação nova e muito estilosa do universo Marvel nos jogos de luta

A Marvel já teve sua parcela de jogos de luta ao longo das décadas, mas existe algo particularmente interessante em Marvel Tōkon: Fighting Souls: ele não tenta simplesmente repetir a fórmula que conhecemos de Marvel vs. Capcom. Saiba mais em nossa análise completa!
Desenvolvido pela Arc System Works, estúdio que é um expoente dos fighting games — responsável por Guilty Gear, BlazBlue e pelo excelente Dragon Ball FighterZ — o jogo apresenta uma nova interpretação dos heróis e vilões da marvel, tanto na estética quanto na maneira como eles se comportam em combate. E talvez seja justamente essa disposição para fazer algo diferente que torna Marvel Tōkon tão interessante.

Em vez de tentar competir diretamente com os jogos da Capcom, Tōkon constrói sua própria identidade. O sistema de equipes 4v4, a barra de vida compartilhada e a maneira progressiva como os personagens entram na luta criam uma dinâmica bastante particular — enquanto o visual inspirado em anime e mangá transforma cada confronto em um verdadeiro espetáculo. É um jogo acessível para quem está chegando agora aos fighting games, mas que também esconde bastante profundidade para quem quiser realmente dominar suas mecânicas.
A história é o ponto fraco
A história de Marvel Tōkon: Fighting Souls reúne heróis e vilões da Marvel em grupos, que são convidados por uma mulher misteriosa para uma espécie de torneio, onde deverão enfrentar o Champion, personagem original que só está ali para servir como desculpa para este quebra pau que vai definir o futuro de toda a Terra.

É uma premissa que funciona como justificativa para um jogo de luta, mas infelizmente o roteiro não consegue transformar essa oportunidade em algo particularmente interessante. A história é simplesmente boba, com conflitos e situações que existem muito mais para colocar os personagens uns contra os outros do que para construir uma narrativa realmente boa.
A forma como esta história é apresentada também não é das melhores: em tempos onde jogo como Mortal Kombat investem em narrativas cinematográficas, aqui temos uma campanha para cada grupo apresentada na forma de uma longa história em quadrinhos, com painéis estáticos e ilustrações que combinam diferentes influências ocidentais e japonesas. Até existem algumas cenas totalmente animadas, mas elas são focadas nos vilões — ou seja, se encaixam em todas as campanhas, pois são “genéricas” e não tem foco nos personagens Marvel.

Ainda que, visualmente, seja uma escolha que faz sentido e reforça a identidade do jogo. Narrativamente, ela acaba deixando a experiência bastante anticlimática. O fato de tudo isso ser dublado até ajuda, mas não muda o fato de que a gente passa mais tempo lendo quadrinhos do que de fato jogando — é até estranho ter tanta conversa, uma vez que o roteiro em si não é lá essas coisas.
No fim das contas, a parte mais legal acaba sendo acompanhar como grupos pouco convencionais foram formados. Afinal, como um time formado por Deadpool, Blade,Ghost Rider e Loki nasceu? As campanhas giram em torno disso — um personagem recrutando os demais para entrar no torneio, e as interações entre eles e com os demais personagens e grupos.
Quatro personagens, uma barra de vida
É no gameplay que Marvel Tōkon: Fighting Souls realmente mostra a que veio. A começar pelo seu sistema 4v4. Você monta uma equipe de quatro personagens, mas a luta não começa com todos eles disponíveis simultaneamente. Os confrontos vão evoluindo conforme determinadas condições são cumpridas, fazendo com que a batalha comece de maneira mais simples e gradualmente se transforme em um confronto com uma equipe completa.

E aí também se destaca uma das decisões mais curiosas do jogo: os quatro integrantes compartilham uma única barra de vida. Inicialmente, isso pode parecer confuso, mas depois de algumas partidas, fica claro que essa escolha existe justamente para concentrar a estratégia na composição da equipe e na sinergia entre os personagens, em vez de transformar a luta em uma sequência de personagens descartáveis.
Cada lutador possui funções e características próprias, e saber quando utilizar cada um deles é fundamental. Assistências e trocas bem planejadas, combos alternados entre personagens e golpes especiais combinados são apenas alguns exemplos de ações que podem fazer toda a diferença nos combates. É um sistema que parece caótico na primeira partida, mas começa a fazer mais sentido conforme você entende suas regras.

E existe profundidade aqui. Os controles abrem mão de comandos clássicos como meias luas e 360º para oferecem uma abordagem muito mais acessível por padrão. Isso inclui comandos simplificados que facilitam o encadeamento de golpes especiais e combos, podendo até incluir launchers e trocas dinâmicas de personagens. Isso permite que mesmo quem não domina mecânicas tradicionais de jogos de luta consiga “jogar bonito” sem muito atrito.
Ao mesmo tempo, o sistema possui recursos suficientes para recompensar quem quiser estudar a fundo cada lutador e entender as possibilidades e sinergias que podem ser alcançadas quando se domina as minúcias de gameplay. É exatamente essa versatilidade que pode fazer Tōkon brilhar no cenário competitivo.

O jogo possui muitos ajustes finos envolvendo composição de equipe, assistências, posicionamento e gerenciamento de grupo — diferenciais com potencial de serem amplamente explorados em torneios e competições. Acompanhar o cenário competitivo e descobrir quais combinações de personagens vão se tornar as mais populares (e as mais roubadas) é algo especialmente divertido de se ver quando um novo fighting game chega ao mercado.
Uma releitura muito interessante
Uma das melhores coisas de Marvel Tōkon é simplesmente a possibilidade de jogarmos com esses personagens sob uma nova perspectiva. Estamos acostumados a associar muitos deles aos jogos da Capcom — com golpes e habilidades já muito bem estabelecidos. Temos novidades como Loki e Duende Verde no elenco, mas boa parte dos personagens aqui representados já foram vistos em Marvel Vs. Capcom ou algum outro jogo do tipo.

Aqui, felizmente, a Arc System Works não tenta reproduzir ou emular essas versões. Ela faz sua própria interpretação de cada herói e vilão, ou seja, os personagens possuem novas animações, golpes, poses e estilos de combate. Isso faz com que seja delicioso “redescobrir” antigos favoritos para entender como cada um deles foi adaptado para o estilo de jogo de Tōkon .
Deadpool é provavelmente o melhor exemplo disso. Mesmo com sua superexposição em outras mídias, o personagem retratado aqui é um poço de referências e brincadeiras que não se limitam ao universo Marvel. Ele faz piadas com jogos de luta tradicionais, brinca com convenções do gênero, entrega spoilers de personagens que serão lançados via DLC (?!) e muito mais. Cada animação dele parece homenagear (ou tirar sarro) de algo — e isso já está gerando ótimos cortes mostrando todos os easter eggs que ele traz.

É o tipo de cuidado que demonstra o quanto a Arc System Works se divertiu trabalhando com essa licença. Em vez de tratar os personagens como simples skins para um sistema de combate genérico — que poderia ser bastante derivativo de BlazBlue ou Guilty Gear, que são ótimos e já estão bem consolidados –, o estúdio conseguiu injetar muita personalidade no elenco, e faz isso subvertendo até mesmo os visuais clássicos de cada um.
Isso deixa claro que Tōkon não chega para ser um substituto de Marvel vs. Capcom. Os dois jogos trazem personagens da Marvel, mas a abordagem mecânica, a maneira como eles são utilizados, é bastante diferente. E isso é ótimo!
Um espetáculo audiovisual
Se existe uma área em que Marvel Tōkon: Fighting Souls simplesmente não erra, é o visual. A Arc System Works utiliza sua expertise única para criar uma versão da Marvel que parece saída diretamente de uma série animada japonesa. A direção artística traz releituras muitíssimo interessantes de personagens consagrados — todos estão imediatamente reconhecíveis, mas diferentes o suficiente para chamar a atenção.

Complementam esta riqueza visual efeitos exagerados e brilhantes, close ups que enchem a tela e toda uma pirotecnia pensada para causar impacto — incluindo em letterings e animações. Os cenários deixam tudo ainda mais legal, visitando locais emblemáticos do universo Marvel e utilizando transições interativa no estilo Dead or Alive para tornar as arenas mais dinâmicas.
Marvel Tōkon é aquele tipo de jogo bonito mesmo quando não está acontecendo nada particularmente empolgante na tela. Os personagens são bonitos, as animações básicas de pose de luta são estilosas, as arenas são vivas e cheias de elementos animados. Quando o pau começa a quebrar pra valer, o jogo explode em efeitos, animações e takes cinematográficos.

A trilha sonora entrega o esperado para um jogo de luta — e, no caso da Arc System Works, traz muitas faixas pauleiras. A dublagem é… controversa. Por um lado, é ótimo termos o jogo totalmente localizado em PT-BR, e as dublagens nacionais estão incríveis. Por outro, causa estranheza o fato dos nomes dos personagens não serem traduzidos. Então, aqui não tem os Vingadores, tem os Avengers. Você não joga com o Duende Verde, tem o Green Goblin. Entendo que não é culpa da localização, mas enfim.
Conclusão
Marvel Tōkon: Fighting Souls é um jogo que poderia facilmente ter escolhido um caminho mais seguro, afinal, a Marvel já possui uma presença consolidada em fighting games. Seria muito fácil simplesmente tentar reproduzir ou emular o mesmo feeling dos jogos da Capcom.

Felizmente, a Arc System Works não pegou esse caminho: o estúdio criou uma experiência nova, reinterpretou personagens conhecidos e desenvolveu um sistema de tag team que, apesar de inicialmente parecer confuso, funciona surpreendentemente bem, criando possibilidades de sinergia e uma dinâmica de combate muito única.
Embora o modo História merecesse um pouco mais de carinho (na real, o jogo não tem muito conteúdo single player), no que realmente importa em um jogo de luta — as lutas –, Marvel Tōkon é muito bem resolvido. A acessibilidade torna o jogo convidativo para os novatos, mas há muita profundidade nos sistemas para movimentar o cenário competitivo.

Para completar, o visual é simplesmente espetacular. Com Marvel Tōkon, a Arc System Works monstra (mais uma vez) que sabe trabalhar com grandes propriedades licenciadas sem ficar presa às expectativas estabelecidas por ela.
Marvel Tōkon: Fighting Souls é uma interpretação nova, estilosa e surpreendentemente competente do universo Marvel dentro dos jogos de luta e tem tudo para se tornar um dos grandes fighting games da geração — e um dos favoritos da comunidade competitiva.
Marvel Tōkon: Fighting Souls está disponível para Playstation 5 (versão analisada) e PC.








