A Geração Z e os millennials estão resgatando iPods antigos, PSP, Nintendo DS e outros itens dos anos 90 e 2000. Por quê?

A busca por dispositivos eletrônicos antigos, incluindo MP3 players antigos, iPods e videogames portáteis de 20 anos atrás ganhou força entre jovens adultos. De acordo com relatos, pesquisa ou mesmo fazendo uma breve visita no Instagram, a Geração Z (os nascidos a partir de 1997) e os millennials mais jovens (que estão na casa dos 30 anos) lideram a procura por itens como iPods recondicionados, MP3 players, toca-discos portáteis, CD players, PSP e Nintendo DS.
No Reino Unido, por exemplo, a Geração Z comprou mais CDs no último ano do que millennials, Geração X e os baby boomers (os nascidos no pós-II Guerra, entre os anos 40 e 60) juntos, segundo uma pesquisa com mais de 2 mil pessoas.
No Brasil e no mundo, plataformas de revenda como Mercado Livre, Enjoei ou a Shopee, além de grupos de vendas no Facebook, registraram aumento expressivo nas buscas por modelos clássicos do iPod, com alta de até 30%, registrados pelo EBay, nas vendas de unidades usadas nos últimos dois anos.
Esse movimento aparece em dados de varejo. Durante a Black Friday de 2025, a Amazon UK viu um pico em produtos retrô, como toca-discos portáteis e câmeras descartáveis. No setor de jogos, o mercado global de consoles retrô portáteis, que inclui modelos como PSP e Nintendo DS, foi avaliado em US$ 2,8 bilhões em 2025 e deve dobrar até 2034.
O interesse é claro e fácil de se ver, já que até trend sobre isso tem nas redes sociais. Mas o que leva esses grupos, que cresceram com smartphones, streaming e todos os recursos modernos atuais, a investir em tecnologia que muitos consideravam ultrapassada?
A atração pela simplicidade e pela diversão sem notificações
Um dos motivos mais falados por quem busca estes itens é a vontade de ter momentos de lazer sem as notificações constantes do celular. Jovens relatam que um iPod ou MP3 player permite ouvir música ou podcasts com foco total, sem algoritmos sugerindo o próximo conteúdo ou anúncios interrompendo a experiência. “É só música, sem apps, sem distrações”, resume a ideia para quem usa o dispositivo no dia a dia.
O mesmo vale para consoles portáteis. Quem resgata um PSP ou Nintendo DS destaca a ausência de atualizações obrigatórias e a possibilidade de ligar e jogar imediatamente. Um jovem de 21 anos, conforme matéria da BBC, contou que usa o PSP quase todos os dias para títulos como Need for Speed, porque “é como um conforto de casa” e não exige download de patches, ao contrário dos consoles modernos.
Para toca-discos e CD players, o atrativo está no ritual físico: escolher o disco, colocar a agulha ou o CD e apreciar a arte da capa. O som analógico, com suas imperfeições, transmite uma sensação de autenticidade que o streaming muitas vezes não entrega. E não é só sobre nostalgia, já que nomes como Taylor Swift, Sabrina Carpenter e Billie Elish, conectadas com ambos os públicos de interesse, estão entre as que mais estão vendendo vinil atualmente.
O papel da nostalgia na psicologia do consumo
Estudos de psicologia, como um feito pela Universidade de Newcastle, explicam parte dessa busca e interesse. A nostalgia funciona como um mecanismo que ajuda a restaurar recursos emocionais, especialmente em períodos de incerteza ou sobrecarga digital.
Quando as pessoas sentem falta de conexão social ou de controle (muito impulsionadas pelos tempos ultra conectados atuais) , memórias de épocas mais simples — mesmo que vividas indiretamente por meio de filmes, séries ou relatos de pais — geram bem-estar e reduzem ansiedade.
Pesquisas mostram que isso não se limita a lembranças pessoais. Um levantamento do Harris Poll de 2023, feito com a participação de especialistas em psicologia social, revelou que 80% dos jovens da Geração Z se preocupam com a dependência excessiva da tecnologia, 75% veem impactos negativos das redes sociais na saúde mental e 60% gostariam de voltar a um tempo anterior ao “sempre conectados”.
O psicólogo social Clay Routledge, que estuda o tema, observa que essa “nostalgia histórica” também leva muitos a buscar objetos físicos como forma de se sentir mais ancorados no mundo real.
No campo do comportamento de consumo, o fenômeno se alinha ao que especialistas chamam de busca por experiências táteis. Pessoas são biologicamente inclinadas ao toque desde a infância, e o uso de telas o dia todo pode gerar uma espécie de fadiga sensorial.
Optar por um toca-discos ou um CD player, que satisfaz essa necessidade de interagir com algo concreto, em contraste com o conteúdo “sem capa” para segurar, sem anúncios entre uma música ou outra, sem assinaturas e sem notificações para incomodar.
Aspectos sociológicos e o contexto de consumo atual
Do ponto de vista sociológico, o movimento reflete uma reação coletiva à ultra conectividade. Em uma era de trabalho remoto, estudos constantes e redes sociais 24 horas, muitos jovens buscam estabelecer limites claros entre o digital e o offline.
Ter um iPod para “só ouvir música” ou um console antigo “só para jogar” vira uma forma prática de praticar o que se chama de “detox digital” sem abrir mão do entretenimento.
O consumo também ganha contornos de identidade. Para a Geração Z, exibir uma coleção de vinis ou CDs se tornou uma maneira de se diferenciar e afirmar escolhas pessoais em um mundo de algoritmos que insistem em querer padronizar tudo em nome das “trends”.
Dados da RIAA mostram que as vendas de vinil nos Estados Unidos saltaram de US$ 14,2 milhões em 2006 para mais de US$ 1,4 bilhão em 2022, com a Geração Z como principal motor do crescimento. No Reino Unido, as vendas de LPs chegaram a 6,7 milhões em 2023, impulsionadas principalmente por jovens de 16 a 24 anos.
Outro ponto interessante é o aspecto da sustentabilidade. Reutilizar um iPod ou um PSP em vez de comprar novos gadgets contribui para reduzir o descarte eletrônico, outro tema bem conversado entre a Geração Z. Plataformas de revenda facilitam esse ciclo, criando um mercado secundário ativo e acessível.
O futuro será a volta para o passado?
O interesse não para nos dispositivos de áudio e jogos. Relatos de lojas especializadas mostram que a procura por câmeras analógicas e rádios antigos também cresce entre o mesmo público.
No Brasil, grupos em redes sociais e feiras de eletrônicos usados acompanham a tendência global, com jovens compartilhando dicas de restauração e listas de títulos clássicos para consoles retrô de vários tipos.
Especialistas em consumo observam que essa onda combina nostalgia com pragmatismo: as pessoas querem diversão que respeite o tempo e a atenção. Em vez de mais telas multifuncionais, surge a preferência por objetos de uso único que entregam uma experiência mais intencional.
No final, o que aparece é um ajuste de comportamento. A Geração Z e os millennials não estão rejeitando a tecnologia moderna, mas escolhendo, de forma consciente, ferramentas que permitam um uso controlado, garantindo o acesso ao áudio, games ou outras atividades sem depender 100% de um celular. L
Seja colocando um disco para tocar, carregando um PSP na mochila ou ouvindo playlists salvas em um iPod antigo, o movimento revela uma busca equilibrada por prazer, foco e conexão — algo que, para muitos, só a tecnologia mais simples consegue oferecer hoje.
Fontes consultadas:
- AI anxiety is driving Gen Z to CDs, DVDs, and Nintendo DS games — I went to see what old tech costs now – https://www.businessinsider.com/ai-anxiety-pushing-gen-z-alpha-to-old-tech-analog-2026-3
- Steve Jobs’ 2001 music gadget is back: eBay searches surge as refurbished iPod sales jump – https://www.jpost.com/omg/article-887806
- Why do Gen Z have a growing appetite for retro tech? – https://www.bbc.com/news/articles/ckgl8nj8nvzo
- Why is retro gaming on the rise, and what makes it appealing to both long-time gamers and newer audiences? – https://from.ncl.ac.uk/nostalgia-in-retro-gaming
- Why Gen Z Is Ressurrecting the 1990s – https://www.nytimes.com/2025/08/24/opinion/gen-z-technology-nostalgia.html
- From Polaroid to vinyl, Gen Z is making retro tech one of 2025’s biggest trends: ‘These things just have more value’ – https://www.cnbc.com/2025/03/15/from-polaroid-to-vinyl-gen-z-is-embracing-retro-tech.html
- Gen Z’s enthusiasm for all things touchable is resurrecting the analog economy—and costing parents – https://fortune.com/2026/02/24/gen-z-resurrects-analog-economy-music-print-book-vinyl-concerts/
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