Análise Arkade: Castlevania: Belmont’s Curse, um excelente retorno que moderniza a série e respeita seu legado
Castlevania: Belmont’s Curse celebra os 40 anos da franquia do jeito certo: respeita o passado, mas olha para o futuro. Confira nossa análise completa!
Poucas franquias na história dos videogames carregam um legado tão colossal quanto Castlevania. E, no ano em que celebra seus 40 anos, a saga retorna às suas origens 2D no excelente Castlevania: Belmont’s Curse!
Já faz mais de 10 anos desde que tivemos um novo Castlevania — e um Castlevania realmente bom, faz ainda mais tempo. A Konami passou mais de uma década em silêncio. Teve animação, teve coletânea, teve collab com outros jogos, mas jogo novo que é bom, nada.
Felizmente, a Konami anda liberando suas grandes IPs para outros estúdios trabalharem, com bons resultados: nos últimos anos, vimos Silent Hill renascer pelas mãos de estúdios como Bloober Team e Screen Burn.

Para quebrar esse jejum, a Konami foi sagaz: entregou a chave do castelo do Drácula à Evil Empire. O estúdio francês, que já trabalhou com a franquia na elogiada expansão Return to Castlevania, de Dead Cells, assumiu a responsabilidade de conceber um novo capítulo canônico da saga. E eles não se intimidaram.
Uma nova geração de terror em Paris
Castlevania: Belmont’s Curse se encaixa ali no meio da cronologia clássica da série. Situada em 1499 — pouco mais de 20 anos após os eventos de Castlevania III: Dracula’s Curse, a trama nos leva a uma Paris que já viu dias melhores, e está sendo tomada por criaturas demoníacas.

O lendário caçador de vampiros Trevor Belmont recebe um pedido de ajuda do bispo da cidade. E ele vai até lá, mas o protagonismo recai sobre sua filha, Rose Belmont. Nascida pouco antes do falecimento da mãe — a feiticeira Sypha Belnades — Rose carrega na pele a marca da maldição de Drácula, o que lhe concede uma ligação perigosa com as forças das trevas.
De posse de um baralho de tarô com propriedades mágicas que lhe permite assimilar poderes de certos inimigos, Rose é uma excelente protagonista, e equilibra o peso do sobrenome do pai com o sarcasmo da mãe.

Sem entrar em spoilers, Castlevania: Belmont’s Curse faz um ótimo uso não só da lore da franquia, mas da própria ambientação em Paris. O jogo amarra pontas soltas envolvendo o clã Belmont, traz de volta alguns personagens conhecidos — e encaixa até figuras históricas à trama, como a lendária Joana d’Arc.
Exploração, mobilidade e caça
Castlevania: Belmont’s Curse é um metroidvania 2D bem tradicional, com level design primoroso e um excelente sistema de combate. O mapa é enorme, intrincado e repleto de segredos e áreas secretas. É um verdadeiro prazer revisitar o Castelo de Drácula, que ressurge mais imponente e labiríntico do que nunca.

Um detalhe interessante é o sistema de pistas: conforme exploramos a cidade, podemos encontrar informações sobre os chefes e asseclas mais importantes do Drácula. Dada a vastidão do mapa e a não linearidade da exploração, estas pistas podem nortear o avanço em um jogo que não pega o jogador pela mão.
Isso é especialmente útil na segunda metade da campanha, onde o jogo se abre completamente e não te dá muitas informações de para onde ir ou o que fazer. Encontrar pistas sobre os chefes acaba sendo a melhor forma de triangular a posição de cada um e concentrar seus esforços em caçar um de cada vez evita que a gente acabe (muito) perdido.

Ainda que fuja do sistema tradicional de “upgrades de movimentação que dão acesso a novas áreas”, Belmont’s Curse introduz algumas excelentes ferramentas de locomoção. O já famoso chicote/arpéu dinamiza muito o ato de ir e vir, expande consideravelmente as possibilidades de exploração, e é muito útil também nos combates.
Em determinados momentos (tipo salas de desafio opcionais com algum baú ou upgrade como recompensa), Castlevania: Belmont’s Curse exige perícia máxima nos controles. Ativar/desativar barreiras do cenário com timing perfeito e içar-se com o chicote em meio a paredes de espinhos, pêndulos de lâminas, serras circulares… tudo isso deve ser executado com precisão cirúrgica em salas aqui que parecem saídas diretamente de um Super Meat Boy — e isso não é uma reclamação.
Deixo um desses momentos abaixo:
Combate rápido e versátil
Como um estúdio que trabalhou em jogos como Dead Cells e The Rogue Prince of Persia, a Evil Empire tem expertise na pancadaria 2D, e honra este legado. O combate de Belmont’s Curse é ágil, responsivo, bem calibrado e cheio de possibilidades.
Embora o icônico chicote Vampire Killer marque presença, existem nada menos do que 7 classes de armas diferentes — entre espadas, lanças, manoplas e chicotes — que tornam Rose muito mais versátil na hora de encarar os monstros. E o melhor: as mudanças não são apenas estéticas. Cada classe de arma possui combos e particularidades muito específicas, e todas são deliciosas de se usar.

Para completar, temos também os Arcanos, que funcionam como evocações de habilidades/armas que ficam atreladas às cartas de tarô da protagonista. Ao derrotar chefes, a essência deles é absorvida por nosso baralho mágico, desbloqueando magias e habilidades poderosas que consomem mana –e até nos permitindo “trocar uma ideia” com os desafetos. Ainda que só possamos equipar um Arcano por vez, há diversas opções, úteis em diferentes situações.
Entre releituras de criaturas clássicas de Castlevania e novos inimigos, temos também um destaque todo especial para os chefes: há diversos bosses espalhados pelo jogo, indo desde monstros humanoides apelões até criaturas gigantes. Alguns chefes representam picos elevados de dificuldade, mas todos entregam batalhas épicas.

Aproveito aqui para trazer um adendo em relação às opções de acessibilidade: Castlevania: Belmont’s Curse traz recursos inteligentes que facilitam a vida do jogador sem trivializar a experiência. É possível, por exemplo, aumentar o limite de poções para 5, ou ativar uma opção de renascer “na porta” dos chefes em caso de derrota (ao invés de retornar do checkpoint). Detalhes que podem fazer toda a diferença em determinados encontros.
Audiovisual
Visualmente, Belmont’s Curse é um Castlevania muito bem resolvido — ainda que, seu estilo artístico provavelmente não vai ser abraçado pro todos. A direção de arte traz um 2.5D estilizado e cheio de expressividade, e uma atmosfera gótica que, ainda que bastante colorida, funciona muito bem em prol da ambientação do jogo.

Os backgrounds são especialmente chamativos: belas artes 2D desenhadas à mão com muitos detalhes e belas cores. O céu nunca tem uma cor “comum”: ou é vermelho-sangue com nuvens roxas, ou puxado para um verde venenoso e enevoado.

O character design também é muito bom. Ainda que Rose Belmont não tenha uma silhueta particularmente marcante, ela é estilosa com sua longa trança e seu braço corrompido pela maldição. Os inimigos são bem variados, e é muito interessante vermos releituras mais estilizadas de monstros clássicos e chefes.
Como metroidvania expansivo que é, há uma grande variedade de cenários — das ruas e esgotos de Paris às masmorras subterrâneas e salões luxuosos do Castelo do Drácula — e todos eles são belíssimos e detalhados. As animações são muito fluidas e dinâmicas, e há uma plasticidade nos golpes e nas poses de Rose que aproximam o jogo de um character action. No geral, é uma apresentação visual moderna, mas que não abandona a identidade marcante da série Castlevania.

A trilha sonora vai por um caminho similar, mas pode vir a ser um tanto controversa. Digo isso porque ele revisita esporadicamente temas clássicos da franquia, mas deixa um pouco de lado orquestrações épicas para entregar músicas com elementos mais modernos e batidas eletrônicas que se misturam a instrumentos clássicos. Eu gostei da trilha, mas confesso que não tenho toda aquela nostalgia por músicas de Castlevania.

Joguei no Xbox Series S e o desempenho do jogo foi excelente, rodando suave e sem engasgos. Para completar, temos menus e legendas em PT-BR, e um bom time de dubladores, que encontra um bom equilíbrio entre os momentos mais dramáticos e os mais galhofas — tipo aquela risada maquiavélica que todo bom vilão deve soltar após seu discurso.
Conclusão
Castlevania: Belmont’s Curse é um retorno muito competente e bem-vindo de uma franquia que passou tempo demais longe de suas raízes clássicas. É um jogo familiar, mas que moderniza muitos elementos em prol de um gameplay mais responsivo, e amarra muitas pontas soltas de uma mitologia que atravessa gerações.

As novidades de mobilidade — com destaque para o chicote/arpéu — realmente transformam a experiência de jogo, mas há outras surpresinhas interessantes, que tornam a navegação muito divertida. Há um bom número de segredos a serem descobertos, e diferentes finais que vão fazer os fãs quererem rejogar tudo mais de uma vez.
É verdade que, em tempos onde temos tantos metroidvanias excelentes, Belmont’s Curse pode parecer pouco ousado ou criativo em sua estrutura. Mas, sejamos justos: a franquia dá parte do nome que define todo este gênero — metroidvania. O clã Belmont correu para que Hollow Knight pudesse voar.

Ainda assim, é um jogo acima da média que, se não redefine o gênero nem quebra paradigmas, atualiza e refina elementos que ele mesmo ajudou a criar para oferecer uma experiência mais moderna, que cria sua própria identidade sem jamais desrespeitar o legado da franquia.
Para os fãs antigos, é uma oportunidade de reencontrar Castlevania com um sabor mais moderno e arrojado. Para quem chegou aos metroidvanias por meio de jogos mais recentes, é uma chance de conhecer uma das séries que ajudaram a estabelecer as bases do gênero. Para todo gamer de bom gosto, é uma aventura boa o bastante para nos deixar querendo mais Belmonts e vampiros.
Castlevania: Belmont’s Curse será lançado no dia 15 de outubro de 2026, com versões para PC, Playstation 5, Xbox Series (versão analisada) e Nintendo Switch. Agradecemos aos camaradas da Konami, que nos cederam uma cópia antecipada para a produção desta análise.
- Plataformas
- PlayStation, Xbox, Nintendo, PC
- Lançamento
- 15 de outubro de 2026
- Desenvolvedora
- Evil Empire
- Publicadora
- Konami
- Gênero
- Metroidvania




