Análise Arkade – Clair Obscur: Expedition 33, um fantástico RPG por turnos que eleva o patamar do gênero

23 de abril de 2025

Clair Obscur: Expedition 33 é um jogo que chamou a atenção de muita gente desde que foi anunciado. E não é para menos: sua história é enigmática, seu visual é incrível, e ele tem alguns nomes bem famosos entre seus dubladores. E sabe a melhor parte? Ele entrega tudo o que prometia — e muito mais!

Clair Obscur: Expedition 33 é, como os próprios desenvolvedores brincam, um “JRPG francês”. Primeiro jogo da Sandfall Interactive, o título não esconde suas influências de Persona ou Final Fantasy. Mas, ao invés de ser apenas uma obra derivativa, ele constrói muita coisa nova em cima das bases estabelecidas (e até um pouco esquecidas) dos RPGs por turnos.

Uma história melancólica

A premissa de Clair Obscur: Expedition 33 é digna de um romance vitoriano que nunca foi escrito. Em um mundo despedaçado por cataclismas antinaturais, a maior parte da humanidade se refugia em Lumière, uma metrópole continental com ares de Belle Époque. O resto do mundo é dominado por mistérios e criaturas tão belas quanto sinistras.

Todos os anos, uma entidade denominada “Artífice” pinta um número em um enorme monólito de pedra, que fica além do horizonte. Aquele número representa uma sentença de morte: todas as pessoas que têm aquela idade vão simplesmente desaparecer da existência.

Isso faz com que, anualmente, duas coisas aconteçam: a primeira é um grande festival de despedida, a Gommage, onde a população se despede de seus entes queridos. A segunda é a Expedição: homens e mulheres que serão a próxima “leva” da Gommage — ou seja, só tem um ano de vida — organizam-se e partem para explorar o mundo na esperança de chegar até a Artífice e acabar com esta tradição macabra.

O ritual começou no número 100, e tornou-se uma contagem regressiva: a cada ano, pessoas mais jovens são marcadas e deixam de existir. E já estamos na Expedição 33 que dá nome ao jogo, ou seja, todos com 34 anos ou mais já foram ceifados pela Artífice. No mundo do game, o futuro de toda a raça humana está nas mãos de jovens de 30 e poucos anos.

Assim, acompanhamos o grupo de “jovens adultos” — inicialmente formado por Gustave, Lune e Maelle — que compõem a Expedição 33, e vão deixar a “segurança” de Lumière para desbravar o mundo e, quem sabe, encerrar de uma vez por todas este ritual de dor e luto que destrói tantas famílias anualmente.

É uma história densa e melancólica, pautada por luto, perda e tragédia — e ainda assim, fiel ao princípio de “jovens enfrentando deuses” tão comuns nos JRPGs, mas aqui é tudo mais pesado, mais lúgubre. Este não é um jogo alegre e esperançoso. Todos carregam o peso da morte iminente, e parece não haver espaço para um “final feliz”.

A beleza de um mundo desolado

Apesar do tom pesado de sua história, Clair Obscur: Expedition 33 é um jogo absurdamente lindo e colorido. Como nunca saem de Lumière, o mundo “lá fora” é uma incógnita para os protagonistas, que só ouviam falar de outros povos e culturas que existiam além das fronteiras.

Isso faz com que a jornada tenha um tom de constante descoberta e deslumbramento. Vamos conhecer tribos de criaturinha humanoides mascaradas, adentrar florestas de cores exuberantes e visitar ilhas com máscaras colossais flutuantes. Apesar do clima de desolação, há muito o que se ver (e se impressionar) no mundo em ruínas de Clair Obscur: Expedition 33.

Mundo este que é vasto e misterioso, mas não é realmente aberto: seguindo uma pegada similar ao que vimos no recente Dynasty Warriors: Origins, a exploração do mundo rola com a câmera bem afastada, o que dá ao mapa um ar de diorama. Há inimigos e itens salpicados pelo mapa, bem como grandes portais de luz que nos levam para “dungeons” e locais importantes (explorados em terceira pessoa).

Inicialmente, podemos explorar apenas os arredores de Lumière. Depois que conhecemos Esquie, porém — uma criatura enorme e simpática que parece feita de almofadas –, ele acaba servindo como o veículo da Expedição, e nos permite ir para além-mar.

O Esquie é muito fofo <3

Conforme encontramos as pedras mágicas de Esquie, ele vai ganhando novas habilidades — que nos permitem ir ainda mais fundo na exploração — mas sempre nesta perspectiva de diorama, nunca como um mundo aberto “tradicional”.

Mistérios, perigos e conteúdos opcionais

Clair Obscur: Expedition 33 não é aquele tipo de jogo que entope o seu mapa de ícones e pontos de interesse. Mas ele tem, sim, um bom número de mistérios para serem desvendados — e isso é parte do charme do jogo.

Olha o tamanho daquele bicho…

Há criaturas realmente gigantes que patrulham certas regiões do mapa, bem como portais marcados com “Perigo!”, que indicam uma área onde você provavelmente vai virar picadinho. Há portas mágicas que levam para uma luxuosa mansão de muitos cômodos — cujo propósito ainda não fui capaz de descobrir.

Abrir todas as portas da Mansão é um desafio

Nada de ficar encontrando panelas para NPCs ou catando tranqueiras. Todo o conteúdo extra de Clair Obscur: Expedition 33 entrega o que ele tem de melhor: combates mais desafiadores e segredos mais misteriosos. Por ter jogado antes do lançamento, eu não tive acesso a guias e detonados, mas estou muito curioso para ver tudo o que a comunidade vai descobrir ao longo das próximas semanas.

A (r)evolução do combate por turnos

Clair Obscur: Expedition 33 é o jogo que te instiga pela história, mas te fisga mesmo é pelo combate. Há quem diga que o combate por turnos tende a ser lento e entediante, mas a Sandfall Interactive buscou inspiração em Persona, Final Fantasy XIII e até em Super Mario RPG para causar uma verdadeira (r)evolução neste estilo de jogo.

Cada personagem tem PAs (pontos de ação) para executar ataques básicos e magias. Estes PAs podem ser poupados para a utilização de habilidades especiais e magias mais poderosas. Os personagens também têm projéteis — como em Persona — para poder infligir mais dano em um mesmo turno.

O que realmente vira o jogo, porém, é o quanto Clair Obscur nos permite ser ativos mesmo no turno adversário. Não vamos ficar apenas assistindo os nossos personagens apanharem: há possibilidade de executar comandos como esquiva, salto e parry, que nos permitem reduzir consideravelmente o dano recebido — e abrir caminho para poderosos contra-ataques.

Como em Super Mario RPG, mesmo os ataques simples podem ser potencializados pelo input do jogador: apertar o botão certo, na hora certa, aumenta o dano causado — e golpes mais elaborados vão exigir mais botões apertados e mais atenção ao timing.

É um sistema de combate clássico, com uma deliciosa repaginada que isso resulta em batalhas dinâmicas, empolgantes e repletas de possibilidades.

Confira um breve combate abaixo:

Nem vou me aprofundar nisso, mas cada personagem tem alguma particularidade exclusiva em suas mecânicas de combate. Somado a isso, temos um robusto sistema de runas — Pictos e Luminas — que permite um alto grau de personalização por meio de habilidades passivas.

Por exemplo: há uma runa chamada “Ataque Vampírico“, que reverte parte do dano causado por um ataque simples em vida para o seu personagem. E há uma runa que faz o ataque básico ser 2 hits ao invés de um. E ainda uma terceira que causa dano crítico em alvos “marcados” (um tipo de status negativo).

Ao combinar estas 3 habilidades, você não só aumenta consideravelmente seu poder de ataque, como recupera a vida do personagem a cada golpe. E há dezenas de Pictos e Luminas diferentes, que possibilitam combinações ainda mais arrojadas.

Isso para não mencionar a skill tree de cada personagem, repleta de habilidades únicas e poderosas.

Uma coisa é fato: Clair Obscur: Expedition 33 tem um dos melhores combates por turnos que já tive o prazer de experimentar. Espero que ele não só torne-se referência no gênero, como também fomente o surgimento de mais jogos assim — que venham os Clair Obscur-likes!

Audiovisual caprichado (apesar da UI)

Clair Obscur: Expedition 33 seria o que costumamos chamar de “Double A”, mas um AA que soube aproveitar ao máximo o orçamento que tinha. O jogo tem modelos de personagens incríveis e o design dos monstros também brilha — indo de monstruosidades grotescas a singelas bailarinas voadoras.

O mundo, mesmo em sua forma de diorama, é um deleite de cores, formas e abstrações. A vibe surrealista do jogo inunda o mundo de paisagens coloridas e lugares excêntricos que são um colírio nesta época de jogos marrons e cinzentos que vivemos. O jogo não esconde suas paredes invisíveis, mas como já dito, sua proposta não é ser um jogo de mundo aberto.

No departamento sonoro, o estrelado elenco — que inclui Charlie Cox (o Demolidor da Marvel) e Andy Serkis (o eterno Gollum) — entrega ótimas performances e garante a dramaticidade que a história pede. Os diálogos que rolam no acampamento são ótimos, e passam bem o mix de camaradagem e nervosismo que ronda a Expedição.

E o que dizer da trilha sonora? Sem exagero, ela é simplesmente espetacular! Um apanhado de músicas líricas, corais e orquestrações que combinam perfeitamente com a vibe melancólica do jogo. A “world music” (música de exploração do mundo) é fantástica, e já está entre as minhas trilhas de videogames favoritas!

Minha única ressalva no departamento audiovisual é com a UI do jogo, mais especificamente os menus de customização dos personagens. O acúmulo de informações deixa tudo muito poluído e, jogando no console, sentado meio longe da TV (uma TV grande), por vezes eu nem conseguia ler a descrição dos Pictos.

Os menus são escuros e confusos

Para piorar, é tudo escuro nos menus. Uma interface mais clean sem dúvida tornaria a navegação e a leitura muito mais agradáveis. Talvez algo similar ao que vemos em Destiny, algo assim. A legibilidade dos menus incomoda, mas é um tropeço pequeno em um jogo que acerta em tantas outras frentes.

Conclusão

Clair Obscur: Expedition 33 é uma surpresa e tanto. Um RPG por turnos maduro, que deixa de lado os dramas colegiais típicos de Persona para mergulhar o jogador em uma trama sombria, misteriosa e envolvente.

Ao adicionar dinamismo aos combates, a Sandfall Interactive eleva o patamar do gênero, e com isso, cria um jogo que, se tudo correr bem, deve ser lembrado como um marco dentro dos RPGs por turnos contemporâneos. Algo que é ainda mais notável se lembrarmos que este é o primeiro jogo do estúdio francês.

Eu já esperava gostar de Clair Obscur: Expedition 33, mas ele superou minhas expectativas. O jogo entrega muito mais do que prometia, e faz isso sem exigir tempo e dedicação infinitas por parte do jogador — a história principal dura cerca de 35 horas, mas há muito conteúdo extra, muitos segredos a serem desbravados.

Mesmo tendo finalizado a campanha, eu não vejo a hora de voltar para este mundo. Ainda há chefes para enfrentar, lugares para ir, Gestrals para encontrar, mistérios para desvendar. E se um jogo me faz querer continuar jogando e explorando depois de rolarem os créditos, é sinal de que ele é acima da média.

Aproveite que o jogo vai chegar direto ao catálogo do Game Pass e dê uma chance. Tenho certeza que Clair Obscur: Expedition 33 vai surpreender você.

Clair Obscur: Expedition 33 será lançado amanhã (24/04), com versões para PC, Playstation 5 e Xbox Series X|S (versão analisada). O game possui menus e legendas em português brasileiro.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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