Análise Arkade – The First Berserker: Khazan, um Nioh-like com muitas qualidades

16 de abril de 2025

Chegando um pouco atrasada (por conta da minha falta de habilidade em Soulslikes), enfim chega nossa análise de The First Berserker: Khazan, um jogo que esbanja estilo… e, claro, dificuldade!

Um breve contexto

Antes de mais nada, vale reforçar do que se trata este jogo: The First Berserker: Khazan é um RPG de ação ambientado no universo de Dungeon & Fighter — um mix de RPG com beat ‘em up que existe há quase duas décadas e é bastante popular na Coreia do Sul. Outro game que se passa neste mesmo universo é DNF Duel, que analisamos aqui no Arkade na época de seu lançamento.

Desenvolvido pela Neople, o título acaba sendo chamado de Soulslike por este termo ser mais popular, mas a verdade é que ele traz mais semelhanças com Nioh do que com a série Souls.

Isso vale para a estrutura do jogo — que é dividido em missões –, mas principalmente por seu foco em um combate mais acelerado, visceral e agressivo, sem se prender tanto à cartilha mais metódica dos jogos da FromSoftware. Mas, antes de nos aprofundarmos nisso, falemos da história.

Uma jornada de vingança

The First Berserker: Khazan parte de uma premissa clássica de vingança. Nosso protagonista, Khazan, é um experiente general de guerra que foi traído pelo próprio império que serviu com lealdade e levado ao exílio.

Brutalmente ferido e próximo da morte, ele acaba sendo reanimado por uma entidade sombria que na verdade é feito das almas de diversos guerreiros sedentas por sangue. Possuído por esta legião de espíritos — que atende por Blade PhantomKhazan vai fazer sua própria justiça contra os responsáveis por sua queda.

Juntos, Khazan e o Blade Phantom vão viajar por mundos reais e sobrenaturais, enfrentando todo tipo de guerreiro, espírito e criatura que ouse se colocar em seu caminho. É uma premissa impactante, mas que não necessariamente vira uma história impactante: o desenvolvimento é raso, e ainda que haja muitos confrontos grandiosos, a narrativa em si não se destaca.

Mas The First Berserker: Khazan é Soulslike ou Nioh-like?

Bom, na prática Nioh também é meio que um Soulslike, mas ele trouxe características próprias suficientes para se distanciar um pouco mais do material original da FromSoftware. E The First Berserker: Khazan bebe muito mais na fonte da série Nioh do que na de Dark Souls.

Por exemplo, aqui não temos um mundo aberto e interconectado. O jogo é dividido em missões que se desenrolam em mapas grandes, mas independentes. Chegue ao final do mapa, enfrente um chefão e volte para o hub, onde há alguns NPCs que vão lhe auxiliar e lhe passar mais missões. O sistema de sidemissions, como o de Nioh, revisita áreas já exploradas, mas geralmente muda um pouco o mapa, ou a ordem da exploração.

Este também é um jogo com muito loot. Mesmo inimigos genéricos vão dropar peças de armadura e outros itens com muita frequência. Isso inclui aquela chata (mas necessária) manutenção do inventário, comparação de estatísiticas e o descarte dos (muitos) equipamentos ruins que juntamos.

Mas, já que falamos em equipamentos, uma coisa boa — para quem, como eu, não é fã de Soulslikes –, é que a história é contada de forma mais tradicional e cinematográfica, por meio de diálogos e cutscenes. Não é aquele tipo de trama que você precisa ficar lendo descrição de itens para entender.

Escolha sua arma com sabedoria

Se a história deixa um pouco a desejar, é no gameplay que Khazan realmente brilha. Ao assumir um estilo de combate mais agressivo e veloz do que a maioria dos Soulslikes, ele se aproxima mais do que vimos em Nioh — e, em alguns momentos, beira o character action.

Há apenas três classes de armas — uma empunhadura dupla de espada e machado, um espadão de duas mãos e uma lança — mas isso não quer dizer que falta profundidade: cada arma tem sua(s) própria(s) árvore(s) de habilidades, e a experiência de jogar com cada uma delas é completamente diferente das demais.

Até mesmo a armadura que você usa impacta na sua arma — sets completos aumentam certos atributos e podem até liberar golpes exclusivos. Neste ponto, o jogo lembra até Monster Hunter, tamanha a quantidade de comandos e a complexidade de combinações de cada equipamento.

Repare que todas essas skill trees são só da primeira arma

Inclusive, depois que conseguir acesso às 3 classes de armas (algo que acontece bem cedo no jogo), recomendo que você veja a que mais se adequa ao seu estilo de jogo e siga com esta classe até o fim. Você não vai conseguir upar as 3 — nem conseguir dominar as nuances de todas se ficar trocando. No meu caso, eu optei pela lança: mais fraca, porém muito mais rápida.

The First Berserker: Khazan tem combate rápido e brutal

Como eu já falei diversas vezes aqui no site, não gosto do combate lento e comedido de um Soulslike tradicional. Veja bem: aprecio um sistema que seja desafiador, mas não curto ficar rolando pelo chão e ficando cansado depois de dois golpes.

Khazan tem, claro, uma barra de stamina, mas seu estilo mais Nioh-like estimula que o jogador seja mais ativo, mais rápido, mais agressivo. Para falar a verdade, só o fato dos botões de ataque não serem nos gatilhos — o padrão é ataque comum no quadrado e forte no triângulo (no PS5, claro), como nos bons tempos de God of War — já me agrada bem mais. Para mim, isso faz muito mais sentido em um jogo que demanda agilidade e reflexos rápidos do jogador.

E reflexos rápidos são mais que necessários para dominar a mecânica de parry e contra-ataque de Khazan, algo que é essencial para o sucesso nas batalhas mais cabeludas. E olha, vou te falar que a sensação de sobrepujar um inimigo após uma sequência de parries consecutivos (o que quebra a postura e abre espaço para uma “finalização”) é altamente satisfatório.

Além dos golpes tradicionais, conforme evoluímos, também ganhamos acesso à uma gama de poderes sobrenaturais — cortesia do Blade Phantom que habita o corpo do protagonista. Tais habilidades são poderosas, mas como não podem ser usadas o tempo todo, devem ser utilizadas em momentos estratégicos.

Quando colocamos tudo o que podemos fazer de frente com os padrões de ataque igualmente intensos e agressivos dos chefes, o que temos é um ode à brutalidade com muita plasticidade — as animações são ótimas, o sangue espirra com gosto e não são raras as decapitações e desmembramentos.

Soulslike com modo easy?!

Como todo Soulslike que se preza, Khazan é um jogo exigente. A curva de aprendizado é íngreme, mas parece mais justa, pois o jogador tem mais espaço para atacar. Ao contrário de Dark Souls, onde muitas vezes a paciência e o recuo são incentivados, aqui a ação pede iniciativa, coragem e domínio do tempo de reação.

Se ainda assim você estiver apanhando muito, fica aí a boa notícia: The First Berserker: Khazan tem opções de dificuldade. E o melhor é que colocar no “modo fácil” não banaliza as coisas. O que acontece é que o jogador causa um pouco mais de dano, e os inimigos, um pouco menos.

É um modo easy que não estraga o jogo: ele aumenta suas chances de sobrevivência, mas ainda exige que você domine o combate e saiba o que está fazendo.

Outros elementos “facilitadores” (que não estão atrelados ao easy mode: se você morre em um boss, seu XP fica te esperando do lado de fora da arena, não lá dentro, junto com o chefe. Além disso, mesmo que você não vença o chefe, ainda vai ganhar um percentual de Lacrima (a XP do jogo) por cumprir certos objetivos durante a batalha. Ou seja, mesmo quando você perde a luta, ainda ganha alguma coisa.

Como alguém que não curte certas convenções da cartilha Soulslike (tipo não poder pausar e inimigos que ressurgem ao ativar checkpoints), acho que este é um passo enorme na direção certa. Sou a favor do modo easy e acessibilidade, sim, desde que feitos do jeito certo. Como aqui: a experiência de gameplay não é arruinada, e o jogo não fica fácil demais.

Atmosfera sombria com estilo próprio

Visualmente, The First Berserker: Khazan constrói uma identidade muito forte que mistura dark fantasy com uma estética que remete aos quadrinhos. É um 3D estilizado com as bordas bem marcadas em cel shaded que mostra seu verdadeiro valor nos modelos dos personagens — a começar pelo protagonista: estiloso, fortão e mal encarado. As armaduras, em geral, também são incríveis: extravagantes e nada realistas, mas muito estilosas.

A direção de arte é inspirada no character design, mas peca um pouco nos cenários. Não que eles sejam feios, só careciam de mais cores para se tornarem realmente bonitos. O mundo de The First Berserker: Khazan é muito “sem graça” por sempre puxar para tons de cor insossos tipo cinza e marrom. Seu estilo história em quadrinhos combinaria perfeitamente com mais cor, mais saturação.

O departamento sonoro é mais um acerto da Neople: as dublagens são competentes e combinam com o tom de dark fantasy do game. O mesmo pode ser dito da trilha sonora, que vai do discreto ao tenso e sobe para um nível épico conforma a ação demanda, sustentando a imersão e enriquecendo a experiência de jogo.

Repare na falta de cor do cenário, em comparação com o protagonista

Este review foi feito com base na versão PS5 do jogo, que roda bem e não apresentou nenhum bug digno de nota. Em modo qualidade, o jogo roda na casa dos 30 fps em 4K, enquanto no modo desempenho o framerate dobra para 60 fps, mas a resolução cai para 1080p. Mas, seja qual for sua escolha, o jogo dificilmente vai parecer feio na sua tela.

Aliás, aqui vale também uma menção especial à polidez do game como um todo. Com animações belíssimas e muita atenção aos detalhes técnicos que agregam valor a um jogo, o título esbanja qualidade e não deve nada para os maiores do gênero. O que é especialmente impressionante se considerarmos que este é o primeiro jogo deste gênero (e deste escopo) da Neople.

Conclusão

The First Berserker: Khazan pode não reinventar o gênero, mas acerta ao se distanciar de tantos outros Soulslikes e apostar em um gameplay mais acelerado e um visual mais estilizado, com mais personalidade.

O nível de desafio é elevadíssimo, mas as mecânicas de combate são profundas o suficiente para o jogador querer se especializar — e se sentir fod*o no processo. E, com um modo easy inteligente e bem calibrado, não há vergonha nenhuma em recorrer a ele para conseguir progredir — a única mancada é não poder voltar para a dificuldade normal depois.

O mundo dos games já está cheio de Soulslikes, mas não temos tantos Nioh-likes. Neste panorama, Khazan surge como uma excelente alternativa. É um jogo que respeita certas tradições dos Soulslikes, mas não tem medo ir por outros caminhos — e ao fazer isso, entrega uma experiência sólida, desafiadora e extremamente polida.

The First Berserker: Khazan está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada) e Xbox Series X|S. O game possui menus e legendas em português brasileiro.

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Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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