Análise Arkade: Death Relives, uma jornada de terror e frustração (com tempero asteca)

9 de agosto de 2025

Certos jogos chamam a nossa atenção por suas premissas ousadas, mas não se sustentam. É o caso de Death Relives, jogo de terror que nos coloca para fugir de uma divindade asteca (?!). Entenda melhor em nossa análise completa.

Uma premissa interessante… desperdiçada

Antes de mais nada, um pouco de contexto: Death Relives é um título de survival horror desenvolvido pela Nyctophile Studios, que propõe uma experiência de terror psicológico ambientada em uma mansão misteriosa — até aí, nada de muito original, certo?

Mas calma, que as coisas ficam mais interessantes: controlamos Adrian, um homem que está em busca de sua mãe, enquanto tenta escapar das garras de Xipe Totec, uma divindade asteca tenebrosa que está mais do que disposta a não deixá-lo cumprir sua missão.

Achei muito legal essa ideia de trazer uma criatura da mitologia asteca, visto que ela é pouco explorada não só em jogos de terror, mas no mundo dos games como um todo. Porém, esse lampejo de criatividade logo se perde em uma narrativa rala, que definitivamente não explora todo seu potencial nem se esforça para criar um envolvimento emocional por parte do jogador.

O principal problema aqui é a pura e simples falta de profundidade de basicamente tudo. Por exemplo, Adrian não transmite nenhuma emoção, sendo um protagonista apático e de poucas palavras. Sua missão, que poderia ser dramática e emocionante, é rasa, sem nenhum tipo de arco dramático significativo. A história se desenvolve de forma previsível, e os diálogos parecem meras ferramentas para avançar o enredo, sem preocupação em fazer o jogador se importar com o que acontece.

A mitologia asteca, que poderia oferecer uma base intrigante e diferenciada para o jogo, é muito mal aproveitada. A presença de Xipe Totec e a construção do lore asteca ficam em segundo plano, ao invés de servirem como alicerce para a criação de um mundo denso, imersivo e diferente de tantos outros jogos.

Todo esse lado mitológico e cultural torna-se apenas um pano de fundo exótico, e, com pequenos ajustes, Xipe Totec poderia muito bem ser substituído por um monstro genérico qualquer, dado o pouco desenvolvimento narrativo que temos.

Gameplay: mecânicas repetitivas e falhas técnicas

Em termos de jogabilidade, Death Relives se baseia em uma dinâmica de stealth, onde o jogador deve evitar ser capturado por Xipe Totec utilizando uma espécie de flor bizarra que se prende ao braço de Adrian, e funciona como uma espécie de sonar, lhe indicando a localização da criatura.

É uma premissa até que interessante… mas que rapidamente se torna repetitiva ao longo do jogo. A ideia de fugir e ficar se escondendo dentro de armários até o perigo passar rapidamente se torna monótona, especialmente porque torna o ritmo do jogo arrastado — passamos muito tempo em armários, esperando Xipe Totec se afastar. Até temos uma “pistola asteca” exótica para usar, mas ela apenas incapacita o monstro por alguns segundos. Com isso, as seções de stealth logo passam a exigir mais paciência do que habilidade.

Além disso, a inteligência artificial do jogo não ajuda a manter o desafio interessante: Xipe Totec, têm comportamentos erráticos e inconsistentes. Por vezes, o bicho parece extremamente reativo, enquanto em outros momentos, ele não percebe o personagem mesmo estando à vista. Essa falta de consistência — e inteligência — nas reações da criatura diminui a tensão do jogo, tornando-o previsível e menos assustador do que poderia ser.

Outro ponto curioso: o marketing do jogo vendeu a ideia de um “companion app” que serviria para aprofundar a narrativa… mas o app em si é tão sem graça quanto o jogo. Podemos ver uma galeria de fotos (com imagens que parecem feitas por IA), escanear alguns QR Codes, ler mensagens e até conversar com um chatbot que faz o papel de o pai de Adrian.

Parece IA, né?

É uma ideia arrojada, mas que não agrega muito ao jogo, sendo algo que talvez funcionasse melhor na teoria do que na prática.

Audiovisual

Death Relives utiliza o poder da Unreal Engine 5 para criar ambientes sombrios e detalhados que, em uma primeira olhada, chamam a atenção. A mansão onde o jogo se passa é bem modelada, com uma atmosfera que se esforça para ser opressiva, claustrofóbica e tensa. De longe, tudo parece muito bonito.

No entanto, “o diabo mora nos detalhes” e, apesar do impacto inicial, a verdade é que os gráficos não se sustentam, nem criam a imersão que deveriam. Muitos dos ambientes internos da mansão carecem de detalhes e profundidade, e a iluminação — um elemento chave para criar o clima de terror — em geral é mal executada, o que não favorece a ambientação.

Outro ponto negativo é a quantidade de bugs e falhas técnicas. Death Relives sofre com animações mal executadas e física problemática. É normal vermos elementos atravessando portas e paredes de um jeito que o terror acaba virando comédia. As mortes, apesar de estilosas, são acompanhadas de animações prolongadas que quebram o ritmo e mais irritam do que chocam. No geral, a falta de polimento técnico compromete a fluidez da experiência e a sensação de imersão.

No departamento sonoro, o jogo opta por um som minimalista, com poucos efeitos sonoros e uma trilha sonora que, embora tenha o intuito de intensificar o suspense, não consegue cumprir seu papel. Ruídos que poderiam ser utilizados para aumentar a tensão do jogador — como passos ou gritos distantes — não têm o peso necessário para realmente provocar medo.

Conclusão

Death Relives é um jogo que chama a atenção por ter uma premissa interessante e uma ambientação mitológica diferenciada. Na teoria, ele tinha o potencial de se tornar uma experiência marcante entre os survival horrors independentes. No entanto, o game falha em muitos aspectos cruciais, com mecânicas de gameplay repetitivas, uma narrativa rasa e problemas técnicos que comprometem a imersão e a experiência como um todo.

O uso de mitologia asteca e o contexto de um filho em busca de sua mãe poderiam ter sido utilizado para criar uma história emocionante e criativa, mas a falta de desenvolvimento dos personagens e do enredo em si deixa o jogo sem profundidade. A jogabilidade, por sua vez, torna-se um exercício de paciência, e a falta de inovação nas mecânicas de terror e stealth só tornam o jogo arrastado e sem graça.

No fim das contas, Death Relives é uma oportunidade perdida. A ideia estava lá, mas a execução não foi boa o suficiente para fazer dele algo além de chato e genérico. Se você é fã do gênero, talvez encontre alguns momentos de tensão, mas, no geral, o jogo acaba sendo mais frustrante do que assustador. Há muitas opções melhores por aí — como o recente Luto –, que acertam muitos dos pontos em que Death Relives erra.

Death Relives está disponível para PC, Playstation 5, Playstation 4 e Xbox Series X|S.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

Mais Matérias de Rodrigo