Análise Arkade: Deer & Boy, um cinematic platformer básico, mas que aquece o coração

Poucos gêneros cresceram tanto nos últimos anos quanto o dos chamados “cinematic platformers”. Desde que Limbo e Inside mostraram que era possível contar histórias profundas e impactantes praticamente sem diálogos, diversos estúdios passaram a explorar essa fórmula, misturando plataforma, puzzles e narrativa ambiental.
Eu aprecio muito esse tipo de jogo — e já analisei vários aqui na Arkade — mas é fato que, quanto mais games similares chegam às prateleiras, destacar-se é cada vez mais difícil, afinal, já existe o fator comparação com Inside, Little Nightmares, Reanimal e tantos outros jogos que elevaram o patamar do gênero.

É justamente nesse cenário que surge Deer & Boy, jogo de estreia da Lifeline Games publicado pela Dear Villagers. Em vez de tentar reinventar o gênero, o game aposta em uma abordagem clássica, mas bem executada e com um bem-vindo toque de fofura, que se apresenta na relação entre um garoto solitário e um filhote de cervo.
Uma amizade contada sem palavras
O jogo começa com um garotinho fugindo de casa. Após passar alguns perrengues, ele encontra um pequeno cervo perdido em uma floresta que está sofrendo uma misteriosa corrupção. Depois de um momento Bambi (entendedores entenderão), nasce uma amizade improvável que passa a conduzir toda a aventura.

Sem recorrer a diálogos ou longas cenas expositivas, Deer & Boy aposta na narrativa visual. Gestos, animações e a própria evolução da relação entre os protagonistas é tudo o que temos para entender uma história — que na verdade é mais uma jornada do que uma história. O jogo confia bastante na capacidade do jogador de interpretar o que está acontecendo, e deixa o carisma puro e simples dos protagonistas ditar o tom da aventura.
Embora aborde temas como amizade, amadurecimento, perda e solidão, o game nunca pesa a mão. Mesmo acontecimentos tristes são apresentados com bastante sensibilidade, o que concede ao jogo um tom idílico de fábula. Talvez falte um pouco mais de profundidade em alguns momentos — principalmente no que diz respeito aos elementos fantásticos da história –, mas o vínculo entre os protagonistas é forte o suficiente para nos manter engajados ao longo da campanha.
Uma jornada de amadurecimento
O gameplay segue a estrutura clássica dos cinematic platformers. Vamos caminhar por cenários em perspectiva lateral (embora o jogo explore bem a profundidade e até flerte com o 3D ocasionalmente), resolvendo puzzles ambientais, superando desafios de plataforma, esgueirando-se em trechos de furtividade e tendo que fugir em algumas sequências de perseguição.

A estrutura lembra especialmente Neva — outro jogo do tipo em que a personagem é acompanhada por um animal. E, tal qual Neva, aqui também vamos acompanhar o crescimento e a evolução de nosso companheiro.
No início da aventura, o cervo ainda é apenas um filhote vulnerável — que passa a maior parte do tempo sendo carregado na mochila. Assim, boa parte dos desafios consiste justamente em protegê-lo e ajudá-lo a atravessar obstáculos — com direito a momentos em que vamos deixá-lo para trás para abrir caminho, ou vamos precisar que ele passe por algum buraco estreito para ativar algum mecanismo que nos permita seguir em frente.

Quando a presença da corrupção (uma gosma roxa) fica mais forte, vamos descobrir que nosso pequeno amigo de quatro patas possui uma espécie de superpoder: seus chifres brilham e ele emite uma onda de luz purificadora capaz de eliminar a gosma do caminho.
Conforme a campanha avança, porém, o pequeno cervo cresce, deixa de ser indefeso e passa a participar mais ativamente dos desafios — inclusive nos dando impulso para alcançarmos lugares altos e nos defendendo de lobos e outras ameaças. O que antes era uma relação de proteção se transforma em verdadeira cooperação. Esta evolução tem importância narrativa, mas também modifica a forma como jogamos e interagimos com o mundo.

No geral, Deer & Boy não é um jogo particularmente desafiador. Os puzzles são simples e exigem mais atenção do que raciocínio. Sem muitos indicadores visuais, é preciso ficar atento para não deixar passa um botão ou uma alavanca. O jogo não perde tempo dando pistas, de modo que você precisa ficar de olho nos ambientes para entender quando pedir ajuda ao cervo.
Essa falta de pistas e indicadores pode criar momentos um tanto frustrantes — quando, em uma situação emergencial, você não tem tempo de entender o que precisa fazer, e acaba falhando de novo e de novo simplesmente porque não enxergou o dispositivo que precisava ativar. Felizmente, esses episódios são pontuais e não chegam a comprometer a experiência como um todo.
Audiovisual
Deer & Boy claramente é um jogo de orçamento enxuto, mas que faz escolhas de design inteligentes para esconder suas limitações. O visual é um 2.5D meio low poly, mas cheio de personalidade. Quando filhote, o cervo é cabeçudinho e expressivo mesmo sem gráficos super detalhados. A estética estilizada agrega valor ao jogo, e consegue manter uma coesão artística seja em bosques e cavernas, seja em fábricas e ambientes urbanos.

Outro acerto está no departamento sonoro. Como não existem diálogos, a trilha sonora assume um papel ainda mais importante, especialmente para dar força aos momentos mais dramáticos da campanha. O design de som também se destaca, contribuindo com a imersão e fortalecendo a conexão entre o jogador e os personagens.
Tecnicamente, Deer & Boy dá algumas escorregadas. Em um ou dois momentos, aconteceu do personagem ficar preso na geometria do cenário. A distância entre alguns checkpoints vai exigir paciência caso você precise refazer todo um trecho excepcionalmente trabalhoso. São detalhes, mas que valem ser mencionados. Ah, e vale mencionar também que, apesar da ausência de diálogos, o game possui menus e legendas em PT-BR.
Conclusão
Deer & Boy não tenta reinventar a roda dentro de seu nicho. De fato, boa parte do que é visto aqui, já vimos anteriormente em jogos como Inside, Planet of Lana e Neva. É inegável que faltou coragem (ou criatividade) para ousar um pouco mais, sair da zona de conforto do gênero.
Ainda assim, é um jogo com muito coração. A relação entre o garoto e o cervo evolui de forma natural, os puzzles, ainda que simples, permanecem interessantes, e o audiovisual consegue transmitir emoções genuínas mesmo com visual low poly e uma narrativa em que ninguém pronuncia uma única palavra.

Se você gosta desse tipo de aventura contemplativa, em que exploração, plataforma e narrativa caminham lado a lado, Deer & Boy pode ser uma boa pedida. Pode não ser particularmente inovador ou criativo, mas entrega uma jornada que deixa o coração quentinho. E, às vezes, é só disso que a gente precisa, não concorda?
Deer & Boy está disponível para PC, PS5 (versão analisada), Xbox Series e Nintendo Switch.