Análise Arkade: Digimon Story Time Stranger e como tratar fãs com o devido respeito

22 de outubro de 2025

A maioria pode não saber, mas Digimon Story Time Stranger talvez tenha sido um dos games mais aguardados da franquia pelos seus fãs. A história, que aborda pela primeira vez numa mídia da franquia a mitologia dos chamados Olympos XII, fora prometida para um jogo quase dez anos atrás, em 2016. Desde então, cada novidade que surgia sobre Digimon pensava-se que teria algo a ver com este projeto, que demorou quase dez anos para de fato chegar ao público.

Agora, com o game já lançado e após quase 100 horas de jogatina, trazemos para vocês uma análise completa de todos os pontos importantes de Digimon Story Time Stranger. Afinal, com visuais belíssimos, enredo que começa despretensioso e encanta a cada novo capítulo e uma jogabilidade que une simpicidade e complexidade em um ótimo equilíbrio; não precisamos fazer mistério sobre ser uma pedida obrigatória para qualquer fã dos monstrinhos digitais.

História digna de um bom anime

Para tirar logo o enredo da pauta de análise, preciso dizer que minha experiência com ele foi bem peculiar. De início, o jogo parecia ser só mais uma história genérica como tantas outras que já vi em jogos de Digimon durante décadas. Seja pela ausência de personalidade no protagonista (uma escolha que se mantém há tempos em JRPGs e insisto em dizer que é uma baita bola fora) seja pelas missões iniciais estritamente lineares.

Entretanto, superadas umas duas horas iniciais de jogatina, a história começa a se mostrar — bem aos poucos. Pra você ter uma ideia de como o início do jogo é lento, foram quase seis horas de jogo para o título Digimon Story Time Stranger aparecer em tela, sinalizando que a introdução tinha de fato acabado. Felizmente, toda essa demora para a história engrenar é cada vez mais recompensadora quanto mais a história avançava.

Se você ignorar missões secundárias e não se preocupar tanto com treinar seus monstrinhos, é capaz de finalizar a história em cerca de 50 a 60 horas. Mas recomendo veementemente fazer boa parte das missões secundárias sempre que elas aparecem, seja pelas recompensas para progressão do jogo seja pelo enriquecimento de narrativa que algumas linhas de missões trazem.

Digimon Story Time Stranger começa de forma tímida, colocando o jogador na pele de um agente intertemporal que precisa investigar as influências que seres digitais de outra dimensão — os Digimon — estão causando no mundo real. Mas a evolução dessa história escalona para um conflito massivo entre três povos distintos, envolvendo tópicos como manipulação das massas, conflitos morais, o impacto da guerra, paradoxos temporais e o debate sobre o sacrifício pessoal em prol do bem maior.

Um JRPG longo e recheado de conteúdo

Pelo tamanho e ritmo da história já dá pra notar que estamos falando de um jogo longo aqui. Mas Digimon Story Time Stranger não possui só uma narrativa complexa e longa, sua jogabilidade também envolve sistemas que trazem exatamente essa combinação: complexidade progressiva e conteúdo para dezenas de horas de jogo.

Os Digimon não são “capturados” aqui como em outros monster-taming por aí. No lugar disso, quanto mais enfrentamos algum tipo de Digimon, mais dados sobre aquele monstrinho coletamos, podendo criar um dele para usarmos a partir de 100% de leitura, mas com essa leitura chegando a até 200% se o jogador continuar encontrando o monstrinho, permitindo que ele crie um Digimon com status melhores se for mais paciente.

Além disso, mesmo que você utilize um time de três Digimon nos combates e carregue mais três reservas no seu time principal, todos os Digimon que você carrega no seu “estoque” recebem experiência progressiva quanto mais batalhas você participa, evitando uma necessidade exaustiva de trocar de personagens constantemente para upar todos.

Mas não pense que isso torna o jogo fácil demais ou simples demais. Isso porque no aspecto “RPG” Digimon Story Time Stranger possui uma riqueza incrível de sistemas que se intercalam para que os jogadores mais ávidos possam personalizar várias questões seja do protagonista ou dos seus monstrinhos, desde atributos base, itens equipáveis, golpes secundários, habilidades passivas, nível máximo a ser alcançado, linhas de evoluções múltiplas, elo de afinidade, árvore de habilidades do agente ou até a personalidade do seu monstrinho.

Sistemas, sistemas e mais sistemas

Falando mais propriamente dos sistemas citados acima, precisaríamos de um texto de guia próprio para explicar a complexidade de cada um deles de forma justa. Mas para uma review mais geral cabe dizer que tantos sistemas distintos e paralelos se intercalam em um ritmo de progressão incrivelmente prazeroso e viciante, que permite inclusive que um Digimon “digivolva” ou “de-digivolva” livremente contanto que cumpra os atributos necessários.

Assim, a evolução dos monstrinhos digitais é muito mais horizontal e multifacetada do que vertical e linear. Já que sempre que você volta atrás em alguma linha evolutiva (a tal da “de-digievolução”) os atributos base do seu bichinho melhoram um pouco, além do seu nível máximo também (medido pelos pontos de Talento de cada monstrinho). Isso permite que todas as criaturinhas do jogo possam ser muito fortes, umas com mais esforço por parte do jogador, outras com menos sacrifício.

Vários dos recursos de treinamento e evolução dos Digimon são muito simples de serem utilizados, embora nem tudo o jogo explique didaticamente, deixando a cargo do jogador querer pesquisar e se aprofundar nas mecânicas caso queira realmente masterizar ao máximo cada monstrinho. Entretanto, o jogo não deixa de ser acessível para o público mais casual que só quer vivenciar uma boa jornada e colecionar monstrinhos à vontade.

O equilíbrio quase perfeito entre sistemas múltiplos de progressão e treinamento complexos e uma jogabilidade primordialmente simples e com ritmo adequado resulta em uma experiência de jogo altamente viciante que faz com que o jogador não seja punido desnecessariamente por não ser um “rato de treinamento e masterização” ao mesmo tempo que recompensa adequadamente quem tem esse estilo de jogo mais “especializado”, tendo assim potencial para agradar todos os públicos fãs de um bom RPG.

Batalhas viciantes e simples de administrar

Todo esse complexo e multifacetado sistema de progressão e personalização dos Digimon não serviria pra muita coisa se não tivéssemos um sistema de combate igualmente prazeroso para “por em prática” tudo que os bichinhos treinaram tanto. Felizmente, Digimon Story Time Stranger entrega um sistema de combate excelente, com ótimos recursos de qualidade de vida, nível de dificuldade variável e animações de combate estupendas.

Na maior parte do jogo, batalhamos com três monstrinhos do nosso time principal que podem ser trocados livremente entre jogadas para outros três monstrinhos que deixamos na reserva. Fora isso, é comum termos um dos personagens do trio de protagonistas — Aegiomon — como um quarto Digimon a participar das batalhas conosco, tendo toda uma árvore de habilidades própria que vai se tornando mais completa no decorrer da progressão da história do game.

Combates contra bosses são alguns dos momentos mais épicos do game!

Além de Aegiomon na maior parte do game, eventualmente temos também Digimon NPCs aliados que nos auxiliam durante combates, seja por estarem acompanhando nosso grupo em um período específico da história seja por participarem ativamente de uma batalha específica como em bosses. Entretanto, ao contrário de Aegiomon que é comandado pelo jogador, os NPCs agem sozinhos, servindo mais como um auxílio extra nas batalhas do que um diferencial entre vitória e derrota.

Quanto a qualidade de vida, temos nada menos que quatro velocidades de combate diferentes: x1 (velocidade normal de jogo), x2 (animações levemente mais rápidas), x3 (animações bem rápidas e resumidas) e x5 (animações mega rápidas com animações de ataques especiais sendo puladas). Isso evita que os combates se tornem repetitivos ou maçantes demais. Fora os recursos de manter os combates automáticos (com o prejuízo de não ter tanta estratégia da ordem dos ataques) ou então ter vitórias instantâneas quando os monstrinhos a serem enfrentados são muito mais fracos que o seu time.

As oscilações de qualidade de vida do game

Infelizmente, como nem tudo na vida é perfeito, Digimon Story Time Stranger possui sim seus pontos fracos. Além do início lento que comentei anteriormente, o principal problema ao meu ver são alguns momentos de oscilação nos recursos de qualidade de vida do jogo. Enquanto alguns sistemas como o de combate que falamos agora possui recursos excelentes, inclusive de utilização de trocas e itens de fácil acesso, outros sistemas não são tão bem pensados assim.

Dois em específico me chamaram muita atenção durante a jogatina: a exploração e navegação no mundo do game e a utilização do recurso de treinamento da Digi-fazenda. Começando pelo último, a Digi-fazenda talvez seja a pior parte do jogo e a mais maçante. Isso simplesmente por conta de recursos de qualidade de vida péssimos, como a impossibilidade de ver os requisitos de digi-evolução do seus monstrinhos dentro da fazenda, tendo que tirá-los de lá toda vez que você precisar conferir esses requisitos ou a limitação de alimentar os monstrinhos com literalmente uma comida de cada vez, sem nem podermos pular ou acelerar a animação do bichinho comendo.

A parte mais exaustiva do jogo: ficar alimentando seus bichinhos para subir o nível de elo deles.

Na exploração do mundo temos alguns problemas semelhantes: a ausência de um mapa interativo que nos permita explorar todos os mapas do jogo de um único “hub” é problemático em alguns momentos, bem como a impossibilidade de pular ou acelerar a animação de alguns teleportes como a abertura de portais e utilização de alguns Digimon como Palmon ou Gekomon para locomoção obrigatória em algumas regiões do mapa. Isso faz com que a locomoção se torne bem exaustiva em alguns momentos.

Isso só se resolve um pouco na reta final do jogo, quando você consegue se teleportar de um hub chamado Hotel para inúmeros pontos anteriormente visitados no jogo. Porém, as animações de transporte e ausência de mapa unificado permanecem. Você acaba se acostumando com isso, mas é meio frustrante pensar que alguns sistemas foram tão bem pensados para não serem maçantes para o jogador, enquanto outros acabam cometendo exatamente os mesmos erros que foram evitados nestes.

Existe um hub para acessar as regiões do digi-mundo, mas nada perto de um mapa unificado e de fácil acesso do jogador.

Visuais que honram a marca Digimon

De início o jogo pode não impressionar tanto no visual, já que começamos no mundo real, com espaços mais limitados de ruas do Japão lembrando bastante jogos da franquia Persona. Entretanto, é a partir do momento que vamos para o Mundo Digital que tudo explode em tela: combates belíssimos com animações bem feitas, cenários repletos de detalhes e recheados de NPCs que dão de fato a sensação de vida aos ambientes e cores vibrantes que chamam a atenção.

Digimon Story Time Stranger não tem os melhores gráficos da atualidade, na verdade não chega nem perto disso. Mas isso nem de longe impede o jogo de ser belíssimo. Temos nada menos que 475 monstrinhos diferentes, todos com animações distintas de combate, pelo menos um ataque exclusivo por Digimon com uma animação exclusiva e, pasmem, dublagem nos Digimon para falarem os nomes dos seus ataques! Isso tanto em japonês quanto em inglês (o game só conta com textos em português brasileiro, não tendo dublagem na nossa língua).

Quase todos os golpes são belíssimos de se ver, mas alguns são verdadeiramente épicos!

Com isso, Digimon Story Time Stranger deixa claro que, para ter um visual impecável sem perder a identidade visual da franquia, o game não precisa de ultrarrealismo, ray tracing ou qualquer uma das “bijuterias” atuais de tecnologia gráfica. Basta uma boa direção artística e o devido respeito com o material original e temos um dos jogos (senão o) mais belo da franquia Digimon até então.

Em termos de trilha sonora, a Bandai Namco foi um tanto quanto mercenária nesse aspecto. Isso porque, tal qual a empresa já fez inúmeras vezes com games de outras franquias de anime como Dragon Ball por exemplo, a trilha sonora vinda diretamente dos animes da franquia foi excluída do conteúdo base do jogo, deixada como um DLC pago bem caro que não faz parte nem do conteúdo disponível na versão “Definitiva” do jogo, deixando alguns fãs bem frustrados. Ao menos a trilha sonora original do jogo não deixa a desejar no quesito qualidade, ditando o tom de diversos momentos de jogo adequadamente.

Uma demonstração de respeito e reconhecimento para os fãs da franquia

Sou um fã da franquia Digimon (assim como de Pokémon também) desde a minha infância. Desde então já se passaram quase três décadas que acompanho ambas as franquias e sempre disse que, na minha experiência pessoal, Digimon tinha os melhores animes enquanto Pokémon sempre teve os melhores games (isso quando surgiam os famigerados debates de qual franquia era melhor). Com Digimon Story Time Stranger vejo que finalmente Digimon alcançou um patamar de excelência em um game da franquia que de fato respeita seus fãs, até mais do que vejo em Pokémon atualmente.

Isso porque Digimon reconheceu enquanto marca o que Pokémon insiste em negar: que mesmo que tente sempre conquistar novas parcelas dos públicos mais novos, a franquia já possui fãs com mais de 30 ou até 40 anos que querem ter algo daquele universo pensado para eles. Digimon Story Time Stranger parece ter entendido isso com maestria, entregando um material que respeita sua base de fãs de quase todas as formas possíveis.

Seja com visuais dignos que respeitam a identidade da franquia e a evolução que ela teve até hoje; seja pelos complexos sistemas de evolução que fogem do óbvio e da simplicidade massificada, exigindo de fato esforço dos jogadores para buscarem a perfeição dos seus Digimon (caso queiram); seja por uma história repleta de temas sérios e profundos, que trazem peso narrativo para os personagens e camadas de interpretação até filosóficas dignas de excelentes histórias de ficção científica e aventura épica, mas sem se perder ou se levar a sério demais.

Por fim, Digimon Story Time Stranger também não apela exageradamente para a nostalgia a fim de buscar esses fãs mais antigos e maduros, muito pelo contrário: a nostalgia está em um leve aceno para aqueles com olhar mais treinado. A coletânea de 475 Digimon diz por si só: ao mesmo tempo que temos as linhas evolutivas completas de todos os monstrinhos dos três primeiros animes da franquia, ainda somos presenteados com inúmeros outros monstrinhos de várias momentos diferentes da franquia e também alguns Digimon inéditos do jogo, tudo de forma igualitária, sem apelação desnecessária (com exceção das trilhas sonoras que citei anteriormente).

Pedida obrigatória para fãs de Digimon e excelente para fãs de JRPG em geral

Digimon Story Time Stranger é mais um dos excelentes títulos com os quais fomos agraciados em 2025. Com um conteúdo base robusto repleto de missões secundárias, atividades extras opcionais e diversificadas e uma história que garante tranquilamente 50 a 60 horas de diversão com mais de 100 horas de conteúdo para os mais ávidos por troféus, ainda temos a garantia de três DLCs prometidas para 2026 com mais Digimon, mapas e histórias para o jogo.

Além de ser uma carta de amor aos fãs da franquia (sejam eles de ontem ou de hoje), o jogo ainda consegue ser uma boa pedida para qualquer fã de JRPG que possa ter curiosidade com a franquia, ou com o subgênero de monster-taming. Agora é treinar meu time até os níveis mais altos possíveis para tentar enfrentar os desafios extremos que o Novo Jogo + trazem!

Digimon Story Time Stranger está disponível para PCs (via Steam), PlayStation 5 e Xbox Series X/S. O game possui textos e legendas em português brasileiro e dublagem em inglês ou japonês.

Gilson Peres

Gilson Peres é Psicólogo, Mestre em Comunicação e aqui no Arkade fala principalmente sobre Realidade Virtual, jogos de PC e novas tecnologias desde 2019.

Mais Matérias de Gilson