Análise Arkade – Ereban: Shadow Legacy, uma boa experiência stelth que combina sci fi com um toque místico

12 de abril de 2026

Embora o stealth esteja presente em centenas de jogos, experiências totalmente focadas nesse estilo não são tão comuns. Franquias como Assassin’s Creed, Metal Gear Solid, The Last of Us e Dishonored incorporam a furtividade como uma possibilidade — muitas vezes eficiente –, mas nunca como o único caminho possível. Ser sorrateiro é mais uma opção do que uma necessidade.

Se você busca uma experiência stealth mais pura vai gostar de saber que Ereban: Shadow Legacy — jogo que já estava disponível para PC há algum tempo — chega esta semana aos consoles, trazendo esta abordagem mais focada, onde se fundir com as sombras — literalmente, neste caso — é a base de toda a experiência.

A última dos Ereban

Em Ereban: Shadow Legacy, acompanhamos a jornada de Ayana, uma jovem que desperta em um mundo dominado pela poderosa corporação Helios, uma entidade que controla recursos, tecnologia e, ao que tudo indica, o próprio destino da sociedade.

Logo nos primeiros momentos, fica claro que há algo de especial em Ayana: ela é é a última remanescente dos Ereban, uma raça capaz de manipular e se fundir às sombras — habilidade que vai nortear toda a nossa jornada por este mundo distópico.

À medida que avança, Ayana se envolve com um grupo de resistência que luta contra o domínio da Helios, ao mesmo tempo em que tenta entender o que aconteceu com seu povo e qual é, de fato, o papel dela nesse mundo. A trama é uma ficção científica com um viés mais místico que flerta com temas como exploração de recursos e controle da população — uma combinação curiosa, mas interessante.

No geral, é uma história que tem boas ideias e se passa em um universo interessante, mas que acaba não se aprofundando tanto quanto poderia. Existem conceitos legais envolvendo os Ereban e a Helios que não recebem o desenvolvimento que mereciam em uma narrativa um tanto apressada. Ainda assim, o roteiro funciona bem como fio condutor, sem entrar no caminho do que realmente importa: o gameplay focado em stealth.

Fundindo-se com as sombras

Como eu já adiantei, Ereban: Shadow Legacy é um jogo totalmente comprometido com o stealth. Aqui não existe combate tradicional: você até pode eliminar inimigos, mas tem de ser de forma furtiva. Se for detectado, as opções são limitadas — ou você consegue se esconder rapidamente, ou será eliminado com facilidade. Não há espaço para confronto direto, o que reforça a ideia de uma experiência pautada por furtividade.

O grande diferencial está justamente nas habilidades da protagonista. Por ser uma Ereban, Ayana consegue literalmente se fundir às sombras, e esta é a mecânica central do jogo. Não se trata apenas de “se agachar no matinho” ou evitar o campo de visão dos inimigos: aqui podemos realmente entrar nas sombras e nos movermos por elas.

Enquanto está nesse estado, Ayana pode se mover de forma praticamente invisível, escalar superfícies, atravessar certos obstáculos e explorar o cenário de maneiras que seu corpo físico não lhe permitiria. Claro que, para não facilitar demais as coisas, o uso desta habilidade está atrelado a um medidor de stamina — que se regenera rápido, mas lhe deixa vulnerável caso passe por um local iluminado ou seja flagrado por um inimigo.

O level design entrega situações criativas onde vamos precisar pensar em como usar as sombras a nosso favor. Por exemplo, em um momento, precisamos “entrar” na sombra de uma caixa que está sendo transportada por uma esteira. Em outro, precisamos esperar que a sombra de um enorme hélice de moinho eólico passe por uma área, para que possamos avançar por dentro dela.

Os power ups e gadgets que liberamos ao longo da campanha também estão alinhados aos poderes sombrios de Ayana. Nosso arsenal expande-se com armadilhas explosivas, iscas e tiros de sombra que cegam os inimigos, enquanto nossas habilidades podem aumentar nosso tempo nas sombras, diminuir o som de nossos passos ou até prender inimigos caídos em um “casulo” de sombra que lhes absorve sem deixar vestígios.

Embora boa parte dos inimigos sejam robôs (que podem ser evitados ou eliminados furtivamente), vez ou outra vamos nos deparar com humanos — que não são realmente nossos oponentes, mas vão alertar os robôs se nos virem. Aí entra até uma mecânica de moralidade, baseada em matar (ou não) humanos. Confesso que não consegui descobrir se isso afeta a narrativa de alguma forma, mas imagino que sim.

Tudo isso cria situações realmente interessantes, e permite que o jogador seja inventivo na execução dos objetivos. A campanha de Ereban: Shadow Legacy é dividida em capítulos, mas, salvo por uma área mais aberta com múltiplos objetivos ali no capítulo 3, as fases são majoritariamente lineares, com um level design “feito à mão” que oferece um bom nível de desafio e faz o jogador explorar todas as habilidades da protagonista.

Audiovisual

No aspecto audiovisual, Ereban: Shadow Legacy aposta em uma direção de arte estilizada que combina bem com sua proposta — e até lembra outro jogo focado em stealth: Aragami. Não há uma busca por fotorrealismo, mas por um visual limpo e funcional, com cenários que misturam tecnologia futurista com elementos naturais.

O uso de luz e sombra — essencial para o gameplay — afeta diretamente a estética do mundo, criando ambientes por onde o jogador possa se locomover usando seus poderes de forma criativa. O contraste entre claro e escuro é bem evidenciado, e a própria protagonista muda de cor para que fique claro quando ela está exposta (ou não). É uma direção de arte pensada para ser mais funcional do que bonita, e, neste ponto, cumpre seu papel.

As animações não são um grande destaque, mas têm seus momentos — especialmente nos movimentos da protagonista ao se fundir e se deslocar pelas sombras com uma fluidez que reforça esta “intangibilidade” da personagem. No geral, porém, o jogo pode parecer um pouco simples demais, com inimigos e interações mais limitadas. A apresentação funciona bem dentro do escopo do projeto, mas fica uma sensação de que ele merecia um pouco mais de carinho e talento (e investimento) em alguns aspectos.

Recebemos nossa cópia de review de Ereban: Shadow Legacy mais de 20 dias antes de seu lançamento, de modo que encontramos alguns bugs — que provavelmente serão resolvidos com um patch day one. Não presenciei nada que quebrasse o jogo, foram mais coisas tipo power ups que não funcionavam, falhas de comportamento de inimigos e alguns bugs de locomoção que exigiam um retorno ao último checkpoint. Nada grave, e chuto que você provavelmente nem vai ver esse tipo de bug após o lançamento comercial do game.

No áudio, a trilha sonora é discreta e funcional, ajudando na ambientação sem necessariamente se destacar. Vale ressaltar também que o jogo não possui localização em português brasileiro, nem em menus, nem em legendas, o que infelizmente pode ser uma barreira para parte do público.

Conclusão

Em um cenário onde muitos títulos tratam o stealth como uma mera opção entre várias possibilidades de abordagem, Ereban: Shadow Legacy se destaca por fazer da furtividade a base de tudo. Todo o seu mundo e as nossas formas de interagir com ele são construídas em torno do stealth, e a mecânica central de se fundir às sombras não só diferencia o jogo, como também sustenta boa parte da sua identidade — e rende alguns momentos especialmente criativos ao longo da campanha.

Apesar de algumas escorregadas técnicas, para mim, Ereban: Shadow Legacy ganha pontos por ser um jogo que sabe exatamente o que quer ser. Ele não tenta ser um pouco de tudo para agradar a todos, e seu foco em furtividade é uma decisão consciente, que vai afastar quem busca ação mais direta, mas certamente vai agradar quem busca um jogo de furtividade interessante e desafiador.

Ainda que não seja um game livre de problemas, Ereban: Shadow Legacy entrega uma experiência consistente, focada e, em certos momentos, bastante inspirada. Se você curte um stealth mais puro, onde “meter o pé na porta” quando a furtividade falha NÃO é uma opção, esta é uma recomendação fácil, mesmo com suas limitações.

Ereban: Shadow Legacy chega ao PS5 e Xbox Series no dia 16 de abril. O game já está disponível para PCs desde 2024, e acumula análises “muito positivas” na Steam.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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