Análise Arkade: Hell Clock honra a história brasileira de Canudos em um roguelite de excelente qualidade

21 de julho de 2025

Desenvolvido pela empresa brasileira Rogue Snail, Hell Clock é um RPG de ação isométrico com elementos roguelite muito peculiar. Na obra, nós acompanhamos a jornada de Pajeú, um ex-escravizado e combatente da Guerra de Canudos que, após uma série de eventos sobrenaturais, precisa encontrar a alma de ninguém menos que Antônio Conselheiro e libertá-la dos demônios que a aprisionaram.

Com quatro atos da história principal, verdadeiras hordas de inimigos para enfrentar, excelentes dublagem e trilha sonora e um visual de primeira qualidade, Hell Clock me surpreendeu muito positivamente. O principal motivo? Bom, eu já não costumo gostar muito de jogos roguelite há um bom tempo. Porém, vivenciar a jornada de Pajeú através dos quintos dos infernos, do cangaço e de outros lugares me fez gostar de novo de um exemplar de um gênero tão saturado atualmente.

Estou me adiantando aqui, justamente pela qualidade do game não ser um mistério. Na verdade, não quero que você descubra aqui “se” Hell Clock é bom. Mas sim entenda o “porquê” dele ser tão incrível. Então vem comigo!

Um relógio infernal

Como me adiantei na introdução, Hell Clock nos coloca na pele de Pajeú, uma figura histórica que fora um dos líderes da comunidade de Canudos juntamente com João Abade e Antônio Conselheiro (ambos também personagens presentes no jogo). No game, acompanhamos Pajeú em um momento logo após o massacre histórico ocorrido em Canudos em 1896.

No evento histórico, mais de 25 mil habitantes foram brutalmente assassinados por tropas federais naquilo que ficou conhecido como a Guerra de Canudos. Do lado federal, figuras como o Coronel Tamarindo e o Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado de Bittencourt comandaram tropas que assassinaram guerrilheiros, mulheres, crianças e religiosos em um dos capítulos mais sangrentos da nossa história.

A genialidade do jogo já começa em sua história, já que ele não tenta reproduzir os eventos históricos em um ARPG. Na verdade, acompanhamos a alma de Pajeú após o massacre de Canudos, com ele tentando entender tudo o que aconteceu e, ao mesmo tempo, precisando encontrar a alma de Antônio Conselheiro, o líder da comunidade que estava sumido.

Para tal, precisamos inicialmente explorar as profundezas do porão da casa de Conselheiro, que nos leva literalmente aos quintos dos infernos. Mas o detalhe é que, sempre que morremos em batalha, um misterioso relógio nos faz voltar para a casa da qual partimos, como se precisássemos vivenciar determinadas memórias e situações para seguir em frente, já que acordamos com a memória fragmentada.

Além de muito bem contada através de diálogos dublados belíssimos, a história cumpre bem o papel de apresentar uma justificativa para as mecânicas roguelite presentes no game. Fora o ritmo de jogo muito bem construído, nos apresentando aos poucos os fragmentos que mostram tudo que se desenrolou no massacre final de Canudos, com personagens históricos de ambos os lados do conflito.

Figuras históricas como protagonistas e inimigos

Assim, na pele de Pajeú, precisamos não só enfrentar hordas de demônios, mortos-vivos, espíritos e criaturas amaldiçoadas como também encarar novamente os principais algozes de Canudos. Desde o comerciante que se recusou a entregar as madeiras compradas pelo vilarejo que acabou por iniciar o conflito, até o próprio Ministro da Guerra, responsável pelo último grande ataque ao vilarejo.

A maior surpresa para mim talvez seja a presença do Doutor Raimundo Nina Rodrigues, um médico legista, psiquiatra e antropólogo que estudou a etnologia brasileira de formas bem questionáveis. Embora tenha iniciado a discussão sobre questões raciais no Brasil, foi uma figura conhecidamente racista, tendo publicado diversos livros e estudos alegando uma suposta inferioridade biológica de negros e mestiços em sua época.

Além dele ser um dos principais antagonistas do game, ainda ouvimos citações reais de seus trabalhos mais marcantes como formas de ameaçar o jogador na pele de Pajeú. Algo que me tocou bastante a nível pessoal, e que causou uma identificação com o jogo definitivamente em outro nível — afinal, estamos na pele de um Canudense lutando contra os demônios responsáveis pelo massacre de seu povo.

Com toda essa contextualização e referências históricas bem embasadas, o jogo consegue trazer identificação e autenticidade sem tentar ser educativo demais. A história está ali para quem quiser entendê-la, podendo inclusive ser pesquisada fora do jogo para ser melhor compreendida. Mas não se torna em momento algum chata, monótona ou impede o jogador de se divertir com o game. Na verdade, ela serve exatamente para o oposto: gerando identificação e imersão a um ponto que você passa a querer continuar a pancadaria não para upar de nível, mas quase como uma catarse.

Um roguelite de primeiríssima qualidade

Mas falando propriamente da jogabilidade de Hell Clock, temos aqui uma junção perfeita e muito bem temperada do que vemos na franquia Diablo e no muito bem recebido Hades. Em sua jogabilidade padrão, precisamos correr contra o tempo para avançar cada vez mais fundo nas masmorras infernais para encontrar a alma de Antônio Conselheiro. Quando o tempo acaba ou quando Pajeú morre em batalha, retornamos para a casa inicial, e devemos começar tudo de novo.

Entretanto, como estamos falando aqui de um roguelite, temos melhorias e modificações perpétuas, que continuam com nosso personagem ao longo de sua jornada, mor=rrendo em batalha ou não. Entre as diversas melhorias que o jogo traz, temos o Grande Sino da Igreja de Canudos, um artefato presente na casa de Conselheiro que serve de árvore de atributos desbloqueáveis para nosso protagonista. Tais melhorias vão desde mais vida ou energia até habilidades extras, aumento do ganho de ouro, aumento de resistências específicas e muito mais.

Além de atributos passivos, também temos uma árvore de habilidades ativas que são a alma do combate de Hell Clock. Com uma árvore de habilidades sendo desbloqueada em cada ato do jogo, podendo ser misturadas entre si. Como não temos um sistema de classes aqui, a jogabilidade será definida por meio das habilidades que você escolhe nessa árvore. O brilhante é termos aqui habilidades variadas o suficiente para serem combinadas das formas mais criativas possíveis.

Pajeú também carrega artefatos e equipamentos que melhoram de alguma forma seja seu atributos básicos melhorados pelo Sino e suas habilidades de combate. Esses artefatos ainda possuem níveis de raridade distintos e podem ser melhorados a até cinco estrelas, aumentando ainda mais as possibilidades de personalização. Por fim, ainda temos um sistema de constelações baseadas em orixás e figuras religiosas brasileiras que serve como um conteúdo mais avançado de upgrade, dando poderes passivos interessantes ao personagem.

Correndo contra o tempo e contra demônios

Para além dos elementos roguelite que acompanham o jogador entre as runs, elementos esses muito prazerosos que dão uma sensação de recompensa e progressão excelentes no jogo, temos também as melhorias e características próprias de cada run. Isso porque quando nosso personagem sobe de nível nos combates, podemos escolher entre melhorias temporárias aleatórias baseadas nos equipamentos e habilidades que estamos usando naquele momento.

Fora isso, também liberamos aumento de percentuais específicos através de estátuas presentes por todos os mapas durante a jogatina e também novos equipamentos e artefatos que levamos para fora das masmorras. Para aqueles que preferem uma jogabilidade mais próxima de Diablo do que de Hades, ainda podemos configurar o jogo para desligar a contagem de tempo regressiva além de habilitar (ou não) a opção de pause durante as partidas, tornando o jogo mais desafiador ou mais amigável de acordo com o que o jogador preferir.

Em ambos os modos (com o tempo regressivo ativo ou desligado), o jogo funciona muito bem e você pode livremente mudar de configuração entre cada run sem prejuízo nenhum. Encaro isso como outro baita acerto de Hell Clock, pois permite que o jogo permaneça desafiador seja pela contagem de tempo seja pelo nível de dificuldade progressivo dos inimigos. Todo esse conjunto da obra traz uma sensação viciante de jogo que é tranquilamente comparável a Hades, por exemplo.

Já de Diablo temos o mundos do jogo em si, assim como seus inimigos. Hell Clock adapta bem o contexto histórico de Canudos para a jogatina de ARPG, com inimigos que fazem sentido dentro daquele universo de época. Além dos biomas envolverem o próprio vilarejo de Canudos, também vamos visitar o cangaço e mais algumas surpresinhas mais para o final. Mas, temos claras inspirações em inimigos de Diablo 2 seja em seu comportamento ou em suas mecânicas de combate, o que é ótimo para amantes da franquia da Blizzard.

Uma verdadeira maravilha audiovisual

Acho que já passou da hora de entendermos que belos jogos não necessariamente precisam de um ultrarrealismo como vemos em Death Stranding 2, por exemplo, para serem, de fato, belos. Claro que isso é óbvio para alguns, mas acho importante ressaltar isso para afirmar que Hell Clock talvez seja um dos games brasileiros mais belos em termos audiovisuais que joguei até hoje.

Sua estilização claramente inspirada em Hades consegue tranquilamente caminhar com as próprias pernas, já que usa também referenciais brasileiros de arte para trabalhar principalmente seus quadros de história. Servindo como o tempeiro mais saboroso por cima de um visual cheio de personalidade, temos também uma trilha sonora de qualidade ímpar, que une a melancolia presente na trilha de Diablo 2 com instrumentais característicos do sertão nordestino brasileiro.

Como se não bastasse todas essas qualidades, ainda estamos falando de um jogo totalmente dublado em português brasileiro. Com interpretações simplesmente incríveis de seus atores de voz, trazendo sotaques e termos próprios da época sem se perder em caricaturas rasas demais. Na verdade, digo com tranquilidade que a dublagem de Hell Clock é parte do que dá mais alma para o jogo.

O resultado final é um jogo com mecânicas de combate viciantes, um senso de progressão delicioso, visuais cheios de cores e excelentes efeitos, uma história cheia de referências e críticas sociais com excelentes diálogos e atores de voz de primeira qualidade. Não consigo deixar de dizer que esse é um dos melhores jogos do ano pra mim, além de ser um dos melhores jogos brasileiros que já tive o prazer de jogar.

Um dos melhores jogos brasileiros de todos

Jogos brasileiros tem crescido bastante de escopo na última década. Seja pela popularização do mercado nacional ou pelos avanços em programação. Sinceramente, vejo Hell Clock entrando no panteão dos melhores jogos brasileiros de todos os tempos ao lado de outras pérolas como Horizon Chase Turbo, Pixel Ripped 1995 e Kaze and the Wild Masks.

Mas além disso, se você, assim como eu, está de saco cheio de jogos preguiçosos que utilizam o gênero roguelite para esconder furos de enredo e uma programação preguiçosa que abusa de repetições para encurtar o conteúdo do jogo, te faço um humilde convite de experimentar a demo de Hell Clock, que está disponível gratuitamente na Steam.

Digo isso, pois você pode se surpreender com um jogo brasileiro de excelente qualidade. Afinal, não é todo dia que vemos um jogo bom o suficiente para ter o poder de mudar opiniões e gostos por aí, e consegue, com muita competência, fugir da mesmice que se tornou o gênero roguelite.

Se você gosta de ARPGs no estilo de Diablo 2 ou se foi uma das milhões de pessoas que se apaixonou por Hades em 2020, Hell Clock é uma jogatina obrigatória para você — por ser brasileiro, claro, mas principalmente por todas as suas qualidades.

Hell Clock será lançado amanhã (22 de julho) e inicialmente estará disponível somente para PCs (via Steam). O jogo se encontra totalmente localizado, com áudio e textos em português.

Gilson Peres

Gilson Peres é Psicólogo, Mestre em Comunicação e aqui no Arkade fala principalmente sobre Realidade Virtual, jogos de PC e novas tecnologias desde 2019.

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