Análise Arkade: Kirby Air Riders não é um “Mario Kart do Kirby”, e isso é ótimo

10 de dezembro de 2025

Kirby Air Riders é o comeback que ninguém esperava. A sequência tardia de um “clássico cult” do GameCube chega pelas mãos de seu criador original — o lendário Masahiro Sakurai — mantendo sua essência minimalista nas mecânicas, mas caprichando na quantidade e variedade de conteúdo oferecido.

E este é um ponto importante: no mesmo ano em que Mario Kart World chegou prometendo um mundo aberto que meio que ficou só na promessa, Kirby Air Riders oferece um pacote de conteúdo que, ao mesmo tempo em que é bem mais robusto, também oferece uma experiência bastante diferente do jogo de kart do bigodudo.

Mesmo não tendo jogado o Kirby Air Ride original, é fácil perceber que esta sequência não é — nem tenta ser — um “Mario Kart do Kirby“. A ideia aqui é ter sua própria identidade, construída com um jogo leve, direto e focado na diversão de corridas pautadas por mecânicas minimalistas, mas muito funcionais.

Simplicidade com profundidade

A grande força de Kirby Air Riders está na sua combinação de controles simples — que usa basicamente dois botões do controle –, utilizados com profundidade, criando uma mecânica que é acessível já de cara, mas exige tempo para ser dominada.

Para começar, temos a aceleração automática: não há botão de acelerador, todos os veículos andam automaticamente. Aí temos um mesmo botão que é usado para realizar drifts, manobras, ataques e acionar power-ups — para cada situação, o botão assume uma função específica. Para completar, temos um botão de habilidade especial, que pode ser usado depois que um medidor específico é preenchido. E isso é tudo o que vamos precisar para as corridas de Kirby Air Riders.

Esse minimalismo mecânico faz com que “pegar e jogar” seja muito simples, o que torna o jogo muito acessível para qualquer pessoa. Porém, ele recompensa o jogador mais dedicado, que vai investir tempo para dominar curvas e aprender a usar bem os ataques e habilidades especiais. É simples, sim, mas com espaço para uma curva de aprendizado bem flexível para quem quiser levar a sério.

Modos de jogo

Sabendo que, atualmente o mínimo que um jogo de corrida deve oferecer é a corrida em si, Kirby Air Riders pulveriza seu gameplay ágil em um punhado de modos de jogo bem diferentes entre si — com direito até mesmo a uma campanha (o modo Pé na Estrada), que encaixa as diferentes modalidades em um sistema de progressão gameficado, com direito a batalhas contra chefes, desbloqueio de personagens e customização.

Há espaço para muitos formatos distintos coexistirem em um “caos organizado”: temos as corridas básicas do Rali Rasante ao lado de arenas de combate, batalhas caóticas e outras partidas mais focadas em diversão multiplayer na Prova Urbana. Tem até uma modalidade Vista Aérea com visão isométrica e uma vibe de “corrida de autorama”, que lembra jogos como Rock n’ Roll Racing e Blaze Rush, e é muito legal.

Trazendo novamente a inevitável comparação com Mario Kart World, afinal, ambos são jogos de corrida de mascotes da Nintendo. Ainda que Mario Kart World tenha muito mais poder de marketing (e provavelmente muito mais orçamento), Kirby Air Riders entrega uma experiência muito mais “completa” já na esteira de seu lançamento, sem promessas de DLCs, nem nada do tipo.

Isso faz dele um jogo melhor do que Mario Kart World? Não necessariamente. Na verdade, até pela familiaridade com a franquia, eu tendo a gostar mais de Mario Kart. Mas, em um mundo onde os exclusivos da Nintendo custam mais de R$ 400, a relação custo-benefício não pode ser ignorada.

Audiovisual

Rodando no Switch 2, Kirby Air Riders é bem impressionante. A paleta vibrante, o traço fofinho e a estética carismática da série Kirby são aproveitados com muito cuidado, rendendo um resultado coeso e atraente. O jogo equilibra bem a fofura da franquia com a dinâmica acelerada de um título de corrida, criando cenários coloridos, pistas cheias de movimento e máquinas que parecem saídas de uma mistura improvável entre desenhos infantis e design futurista.

É um trabalho visual muito competente, que traduz bem a identidade da marca sem perder de vista o ritmo acelerado do gênero. As animações são suaves, os efeitos de velocidade são convincentes e a mistura de cores fortalece o senso de energia constante.

No som, o jogo entrega trilhas animadas, típicas da série — ou ao menos inspiradas diretamente nela. Não posso confirmar se todas são rearranjos, mas elas carregam o espírito musical da franquia: melodias leves, ritmos rápidos e temas que combinam com a atmosfera vibrante das corridas. Os efeitos sonoros reforçam impactos, colisões e power-ups, ajudando a compor o clima de festa caótica.

Outro ponto relevante é a localização em português brasileiro. Kirby Air Riders chega 100% em PT-BR, incluindo menus e tutoriais — e isso faz diferença. Como o game tem uma curva de aprendizado considerável, a clareza nos textos e explicações torna o processo muito mais intuitivo. É um trabalho de localização de alto nível, alinhado aos esforços recentes da Nintendo de atender melhor o público brasileiro.

Conclusão

Kirby Air Riders é um daqueles jogos que reforçam por que a Nintendo permanece tão singular dentro da indústria. Ele é peculiar, cheio de personalidade e completamente fiel à filosofia criativa de uma empresa que sempre valorizou experiências diferentes, mesmo quando o mercado não parece pedir por elas.

Convenhamos: ninguém realmente esperava ansiosamente por uma sequência de Kirby Air Ride, especialmente em um ano que já tivemos o colosso Mario Kart World — o grande “jogo de lançamento” do Nintendo Switch 2. E, ainda assim, a Nintendo, de forma quase despretensiosa, decidiu apostar em um jogo de corrida minimalista, diferente e surpreendentemente carismático.

O que mais me agrada aqui é justamente o fato de Kirby Air Riders não tentar ser “o Mario Kart do Kirby”. Ele abraça suas próprias ideias, suas mecânicas levemente estranhas e seu ritmo diferenciado. É um jogo que confia na própria identidade, e isso faz toda a diferença. E ele faz tudo isso sendo até mais robusto do que Mario Kart World em alguns aspectos — não no apelo comercial ou na força da franquia, claro, mas na forma como estrutura modos, sistemas e experimentações.

Dito isso, é importante reconhecer que, se você tem um Nintendo Switch 2 e só pode investir em um único jogo de corrida neste momento, Mario Kart World é a opção mais lógica. É a série mais consolidada, o jogo que todo mundo já conhece e gosta. Mas, se você já possui Mario Kart 8 Deluxe ou simplesmente busca algo mais experimental e com um pouco mais de personalidade, então Kirby Air Riders é uma excelente alternativa.

Ele não tenta imitar nada nem ninguém. É um jogo de corrida único, diferente, cheio de particularidades e que se sustenta justamente por não seguir o caminho óbvio. E por isso mesmo, conquista seu espaço como uma adição valiosa à biblioteca do Nintendo Switch 2.

Kirby Air Riders está disponível exclusivamente para Nintendo Switch 2.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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