Análise Arkade: Lost Soul Aside tem uma carinha genérica, mas entrega pancadaria estilosa

17 de setembro de 2025

Lost Soul Aside é mais um jogo do chamado “China Hero Project“, projeto da Sony que impulsiona o mercado de games chinês — e já nos trouxe obras muito boas, como F.I.S.T. – Forged in Shadow Torch. Com uma carinha de Final Fantasy low budget e um gameplay que se esforça para ser Devil May Cry, o jogo é um “double A” que merece sua atenção, especialmente se você está de saco cheio de Souls-likes, roguelikes e RPGs de mundo aberto.

Digo isso porque Lost Soul Aside é um jogo do tipo character action / hack n’ slash totalmente linear, dividido em capítulos. Você não vai ter um mundo aberto para explorar, nem vai ter que encontrar a frigideira perdida de uma velhinha. Não vai ficar coletando dúzias de armas de cores diferentes, nem gastar tempo comparando estatísticas ou lendo a descrição de itens para descobrir o que está acontecendo.

E não falo nada disso como demérito: Lost Soul Aside foca seus recursos em oferecer uma experiência de combate fluida e aditiva, deixando boa parte das “gorduras” da indústria de games de fora. Se isso é bom ou não, vai depender da sua expectativa. O que vou trazer aqui são as minhas impressões sobre o jogo.

Dragões, invasores e clichês

A trama, por si só, já é bem simples e repleta de clichês de fantasia: nosso protagonista é Kaser, um jovem que testemunha a capital do reino ser invadida pelos Voidrax, seres de outra dimensão que devastam a cidade e arrancam as almas de seus habitantes. Durante o ataque, sua irmã, Louisa, tem a alma roubada.

Desesperado para salvar sua irmã e confuso com a situação caótica, Kaser acaba “esbarrando” em Lorde Arena, um ser dracônico ancestral que estava aprisionado. O encontro acaba liberando Arena e entrelaçando os destinos de ambos, que vão unir forças para acabar com a ameaça dos Voidrax, resgatar a irmã perdida de Kaser — e, claro salvar a humanidade.

O enredo até começa bem, mas logo se mostra previsível e pouco inspirado. Os personagens não são lá muito desenvolvidos e boa parte dos diálogos soam forçados e artificiais. Além disso, ainda que as cutscenes iniciais demonstrem muito potencial, conforme o jogo avança, muitas delas parecem mais simples, ou mesmo inacabadas. Não sei se faltou tempo ou dinheiro (ou ambos), mas é fato que a narrativa vai ficando menos impactante.

Dito isso, o jogo tem sua leva de “cutscenes estilo anime”

Mas assim: esse é um jogo de escopo menor, que não tem dinheiro infinito para cutscenes cinematográficas impressionantes e infinitas horas de captura de interpretação. Se o gameplay for bom, eu consigo dar uma passada de pano pra uma história meia boca e umas cutscenes toscas.

Combate acrobático

Felizmente, é no gameplay que Lost Souls Aside acerta bem mais do que erra. O game traz um sistema de combate fluido e divertido, que nos permite alternar entre diferentes armas e conjurar os poderes draconianos de Arena sem quebrar a contagem de hits.

Kaser é tão acrobático quanto Dante, e é delicioso fluir por uma arena, combinando habilidades e golpes para fazer miséria com os inimigos. O combate possui esquiva, defesa e uma mecânica diferenciada de parry, bem como finalizações e ataques em área. Além disso, sempre que Kaser emitir um brilho azul ao final de um combo, podemos apertar R2 e emendar um golpe “extra” que pode ser em área ou colar o personagem em um próximo alvo, a fim de prolongar os combos.

Com exceção dos inimigos mais ordinários, a maioria das criaturas que vamos enfrentar exibem duas barras, sendo uma de vida e outra de atordoamento. No caso de chefes, é obrigatório esvaziar a barra de baixo para atordoá-los, e só então causarmos dano real na barra de vida. É uma mecânica simples e já bem estabelecida em outros jogos, mas que também funciona bem aqui, pois o sistema de combate é responsivo e agradável.

Personalização e exploração

Outro ponto legal é que cada arma possui sua própria árvore de habilidades, com muitos ataques desbloqueáveis que aumentam ainda mais as possibilidades de combate. Há também um sistema (bem básico) de personalização de armas que nos permite acrescentar gemas e outros acessórios à arma para melhorar seus atributos. A forma como isso é feito é meio tosco (alto risco de você deixar sua arma feia), mas é uma boa forma de upar os stats da sua arma preferida.

Falando agora da exploração: como já adiantei, Lost Soul Aside não é um jogo de mundo aberto. Não há muito o que explorar, uma vez que os mapas são basicamente corredores (com bifurcações ocasionais) que interligam arenas de combate. Mesmo áreas mais abertas oferecem poucas possibilidades de exploração (em geral algum baú ou um pouquinhode ouro). O level design me lembrou muito Final Fantasy XIII — e não falo isso como um demérito.

Embora não haja muita exploração, entre um momento de pancadaria e outro, vamos encontrar desafios de plataforma e até alguns puzzles. Por um lado isso é bom, pois traz variedade ao gameplay. Porém, a execução ocasionalmente deixa a desejar, com saltos pouco precisos ou desafios que são simplesmente desinteressantes e acabam comprometendo o ritmo do jogo.

Para não dizer que Lost Soul Aside não carrega nenhuma influência da From Software, os itens de cura aqui são consumíveis, mas antes da metade da campanha eu já tinha um saudável estoque de 8, o que era mais do que suficiente — e uma das habilidades equipáveis do Lorde Arena pode conjurar uma árvore de luz que cura quem estiver próximo.

Outra semelhança é a bonfire — que, neste caso, é uma personagem, que está documentando nossas aventuras, mas também serve de checkpoint e restaura nossos itens. Mas aqui, felizmente, não há perda de XP ou itens em caso de morte, e os monstros de uma área não ressuscitam quando ativamos o checkpoint.

Audiovisual

Visualmente, Lost Soul Aside impressiona… mas também não esconde suas origens de Double A feito por um estúdio sem muita experiência. O jogo passa uma magnitude com cenários grandiosos, chefes gigantes e belos efeitos de luz, mas escorrega quando paramos para prestar atenção nos detalhes.

Em movimento — quando estamos lutando , correndo e pulando — o jogo não decepciona, e entrega pirotecnia de qualidade, com muitas faíscas e partículas voando. Porém, é nos momentos de calmaria que a gente percebe um design de fantasia-futurista não muito inspirado, as (muitas) paredes invisíveis nada discretas e a “crueza” geral de certos elementos. O character design, no geral, também não tem nada de especial, e parece seguir a linha “Final Fantasy de baixo orçamento” que permeia outros elementos do jogo.

Não tem uma vibe de Final Fantasy XV?

Novamente, são detalhes que eu até consigo relevar. Character action é um gênero dificílimo de se fazer — até por isso temos tão poucos jogos assim no mercado. Este é um tipo de jogo que precisa não só ser responsivo, mas também rápido e estiloso. A plasticidade dos movimentos faz toda a diferença. Sem a grana e a expertise da Platinum Games ou da Capcom, eu diria que o pessoal da Ultizero Games fez escolhas inteligentes, e investiu tempo (e dinheiro) no que era mais importante: o combate.

Claro que isso não me deixa cego para as limitações do jogo: como já mencionei, há cutscenes que parecem inacabadas, bem como um excesso de conversas mostradas de maneira sem graça. Aliás, já que falei em conversas, ressalto que algumas dublagens (em inglês) são muito ruins, inclusive a do dragão Arena — uma das vozes que mais vamos ouvir ao longo das quase 20 horas de campanha.

A trilha sonora tem o tom épico que se espera de uma obra de fantasia, mas está longe de oferecer músicas marcantes. Os efeitos sonoros, por sua vez, conseguem enriquecer a experiência, especialmente na hora dos combates. Jogando em modo performance, o game entregou uma experiência satisfatória no PS5 base, rodando a 60fps sem muito engasgos.

Conclusão

Lost Soul Aside é uma obra que merece reconhecimento simplesmente por ser diferente. Jogos de ação lineares eram comuns nos tempos do PS2 e PS3, mas nas últimas gerações, eles vêm se tornando cada vez mais raros. Character actions, então, nem se fala: há pouquíssimas franquias disponíveis, e as principais (Devil May Cry e Bayonetta) já estão há anos sem novas iterações.

Mais uma imagem com vibe de Final Fantasy

Em um mar de Souls-likes, roguelikes e RPGs de mundo aberto, ele surge como uma lufada de ar fresco para quem busca ação estilosa, combates intensos e gameplay afiado. É preciso ignorar algumas arestas meio ásperas, que careciam de mais polimento, mas quem “passar esse pano” vai encontrar uma experiência satisfatória.

Sem contar que, do mesmo jeito que Black Myth: Wukong colocou a Game Science no mapa e Stellar Blade foi um baita acerto da Shift Up Corporation, Lost Soul Aside, na minha opinião, coloca a chinesa Ultizero Games como um estúdio para se ficar de olho no futuro.

Lost Soul Aside está disponível para PC e Playstation 5 (versão analisada). O game possui menus e legendas em PT-BR.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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