Análise Arkade – Metroid Prime 4: Beyond, um ótimo jogo (com algumas ressalvas)

24 de dezembro de 2025

Foram 18 anos de espera desde que Metroid Prime 3: Corruption encerrou magistralmente uma trilogia que explorava a rica mitologia da série Metroid em um novo formato. Durante esse tempo, o fardo da expectativa sobre o que seria Metroid Prime 4: Beyond cresceu a níveis astronômicos. Será que, após todos esses anos, o hype se justifica? Descubra agora em nossa análise completa de Metroid Prime 4: Beyond!

Samus Aran começa sua nova aventura em um confronto com Sylux, um caçador de recompensas que é uma figura conhecida dos fãs de longa data da série. Como resultado da batalha, Samus e um punhado de outros membros da Federação Galáctica acabam indo parar em Viewros, um planeta estranho, isolado e misterioso.

Neste novo mundo, vamos encontrar estátuas e ruínas antigas de um povo ancestral, os Lamorn — uma raça psíquica ancestral que funciona como o equivalente aos Chozo nesta nova jornada. Tal raça se revela o ponto central de uma narrativa que vai conceder novas habilidades psíquicas para Samus, muito úteis para ela poder explorar este mundo esquecido, encontrar as chaves para sair dali e resgatar outros membros da Federação Galáctica que acabaram separados durante a turbulenta chegada.

A presença dos NPCs da Federação Galáctica, por sua vez, é uma novidade bastante divisiva. Por um lado, eles injetam um pouco de “alma” à narrativa — considerando que Samus é uma protagonista essencialmente muda — e até podem ser úteis compartilhando insights e descobertas. Por outro lado, há quem fique de saco cheio de tanta “falação”, especialmente porque alguns destes personagens, como o já famoso Myles MacKenzie, são simplesmente irritantes. Sem, contar que, com tanto blá-blá-blá via rádio, perde-se o tom de isolamento característico da série Metroid.

Para piorar, alguns destes NPCs tem o péssimo hábito de “soprar” soluções de puzzles um pouco rápido demais, tirando do jogador a parte de raciocinar, experimentar e se achar esperto ao encontrar a solução. Além disso, em certos momentos, vamos lutar ao lado deles, e ter que ficar servindo de babá, curando e revivendo estes “ajudantes” no meio do combate é bem chato — não podemos simplesmente deixá-los para morrer.

Em resumo, a presença dos membros da Federação Galáctica é bastante discutível — seja pela tagarelice, pela ajuda não solicitada, ou pela necessidade de serem reanimados em combate. Eu diria que talvez seja melhor a Nintendo e a Retro Studios ficarem atentas ao feedback da comunidade, pois sinto que este “elenco de apoio” é o que tem sido alvo de mais críticas.

Atirando, escaneando e explorando

Aqui está, de fato, o coração do jogo. Metroid Prime 4: Beyond pega a fórmula clássica da série — exploração em primeira pessoa com foco em armas, upgrades e puzzles ambientais — e adiciona camadas que, se não são realmente revolucionárias, ao menos revitalizam a experiência sem perder aquilo que faz Prime ser Prime.

O melhor exemplo são justamente os poderes psíquicos que vamos adquirindo ao longo da campanha. Apesar do viés tecnológico típico de uma obra sci-fi e dos upgrades tradicionais, ver Samus movendo objetos “com a força da mente” ou desacelerando o tempo para guiar um projétil através de obstáculos é muito legal, e traz um frescor ao gameplay.

E o melhor é que estas habilidades não roubam a cena, mas somam-se ao arsenal de habilidades clássicas da heroína: você não vai deixar de usar seus mísseis ou de assumir a forma de bola por conta das novas habilidades — o que o jogo espera é que você combine os elementos novos com os já conhecidos, o que altera a forma como abordamos os desafios, nos permitindo manipular objetos ou criar oportunidades táticas contra inimigos mais resistentes.

Outro elemento que faz parte da série Metroid Prime é justamente a nossa capacidade de escanear praticamente qualquer coisa. Com toda uma cultura ancestral para ser desbravada, o trabalho de “arqueologia espacial” que vamos fazer — escaneando pontos de interesse, criaturas e elementos do cenário — nos ajuda a entender um pouco melhor da história e da cultura dos Lamorn.

Usar o escâner do visor de Samus é um deleite nostálgico muito característico de Metroid Prime, e o jogador curioso logo verá que há muito a descobrir por trás de cada setor explorado. Nem sempre há um power up ou item a ser encontrado, este é um daqueles casos em que a sensação de descoberta é por si só, uma recompensa.

O mundo (nem tão) aberto

Ainda que a série Prime tenha suas particularidades, Metroid Prime 4 ainda é, essencialmente, um grande “metroidvania 3D”. Isso quer dizer que temos um mapa expansivo e interconectado, com áreas bloqueadas que só se tornarão acessíveis depois que adquirirmos uma habilidade ou equipamento específica. Esse ciclo típico do gênero traz aquela satisfatória sensação de progresso que vai além de vermos os números de level subindo: é mais sobre sentir que Samus está evoluindo, como caçadora e como protagonista.

Ainda que o jogo tenha biomas que carregam a complexidade de level design típica de um metroidvania, a verdade é que estas áreas funcionam de maneira isolada: é quase como se cada destes ambientes principais fosse uma dungeon, com objetivo(s) e chefe(s) específicos. Faça o que tiver que fazer lá e siga em frente — há uma ordem predefinida que deve ser respeitada.

Claro que invariavelmente você vai adquirir um recurso que lhe permite abrir um tipo de passagem… e aí vai se lembrar de todas as vezes que já passou por aquele tipo de barreira nos outros ambientes. Como este backtracking não é sempre obrigatório, vai depender do seu nível de complecionista compulsivo gastar um tempo revisitando (ou não) cada cantinho do mapa.

E aí entra o polêmico “mundo aberto” que é Vale do Sol, um imenso deserto que conecta os principais biomas do planeta Viewros — e meio que resolve o velho problema lógico de biomas drasticamente diferentes (tipo neve e selva) ficarem separados por apenas uma porta. Pois é, videogames e suas idiossincrasias!

Vi-O-La e os controversos Amiibos

O lance é que, para otimizar a exploração deste deserto, entra em cena Vi-O-La, a estilosa motocicleta futurista de Samus que combina deslocamento rápido com combate inventivo sobre rodas. E, ainda que pilotar a motoca seja agradável — muito por conta do feedback tátil dos novos Joycons o problema maior está na forma como o veículo foi implementado no jogo.

Explicando: este deserto é, no geral, bastante vazio e desinteressante. Há colecionáveis obrigatórios (tipo os cristais verdes), bem como power ups escondidos aqui e ali, mas a exploração do deserto em si acaba se tornando maçante. Perdeu-se a oportunidade de aproveitar a motocicleta em perseguições ou set pieces mais empolgantes. Ela acaba sendo apenas um meio de transporte, utilizado para explorar um lugar sem graça.

E temos, claro, os Amiibos de Metroid Prime 4, que só aumentam a controvérsia em torno da motoca. Em uma decisão curiosa, a Nintendo mantém a exploração de Vale do Sol silenciosa (o que só aumenta a sensação de vazio do lugar). Para poder ouvir música enquanto pilota só desembolsando mais de R$ 400 reais no Amiibo da Samus. Se quiser mudar a cor da Vi-O-La ou ver estatísticas de pilotagem, só comprando o outro Amiibo da Samus com a moto.

O fato de cada Amiibo ser mais caro que o jogo em si escancara o quão descabida é esta decisão. Ok, as funcionalidades dos Amiibos não são realmente imperdíveis, mas poxa, limitar a trilha sonora do jogo a um brinquedinho colecionável (e caro) é, no mínimo, questionável. Poder botar uma playlist da série para tocar enquanto dirige pelo mundo — como em Final Fantasy XV — sem dúvida deixaria a exploração de Vale do Sol mais animada… mas eu não vou pagar R$ 400 em um bonequinho para isso.

Audiovisual

Se você queria um motivo para fazer o upgrade para o Nintendo Switch 2 pode ser que Metroid Prime 4: Beyond seja esse motivo. Mesmo estando disponível também para o Switch 1 (um console de 2017 que já estava bem defasado tecnicamente há tempos), o jogo claramente foi pensado para tirar proveito do hardware mais robusto e das funcionalidades do novo console da Nintendo.

Por exemplo, exclusivamente no Switch 2, existe a possibilidade de jogar com o Joycon em “modo mouse”, o que agrega precisão extra na mira e faz diferença nos combates contra inimigos com pontos fracos difíceis de mirar. Também no Switch 2, podemos escolher entre dois modos de exibição: Qualidade (4K a 60 fps) e Performance (1080p a 120 fps). Em ambos os casos, o jogo entrega um espetáculo visual, rodando de forma impressionante mesmo no modo portátil. Os ambientes são belíssimos, e há momentos de puro deslumbramento quando encontramos algum templo colossal, ou damos de cara com uma bela visão panorâmica de Viewros.

É nos detalhes, como nos reflexos no visor de Samus, que agora reage de forma ainda mais realista às luzes e explosões do ambiente, que a gente nota a ambição técnica do jogo. Repare, por exemplo, nos olhos de Samus que vemos refletidos na tela ao acessar o menu. Partículas, efeitos de iluminação e um cuidado todo especial com as expressões faciais dos membros da Federação Galáctica também entram na soma dos detalhes que agregam valor ao jogo.

O departamento sonoro mantém o patamar elevado no quesito qualidade: além de sons ambientais que potencializam a imersão, cada bioma possui uma identidade sonora única, indo de batidas eletrônicas industriais em áreas tecnológicas a temas etéreos e calmos em santuários antigos. Metroid Prime 4 sabe usar o som a favor de sua construção de mundo, e salvo escorregadas como a música depender de um Amiibo para tocar, é um jogo muito bem resolvido em seu departamento sonoro.

Vale ressaltar que este é mais um grande exclusivo da Nintendo que chega localizado para o português brasileiro. Infelizmente, não há dublagens em PT-BR, mas o competente trabalho de localização em menus e legendas já é muito bem-vindo — apesar de certos termos adaptados de forma esquisita, como o exemplo abaixo.

Conclusão

Mas e, no fim das contas, Metroid Prime 4: Beyond alcança as expectativas que os fãs criaram ao longo de tantos anos? Esta pergunta não tem uma resposta certa, simplesmente porque cada fã idealizou como seria o “seu Metroid Prime 4” perfeito.

De qualquer modo, o que posso dizer é que estamos diante de uma atualização corajosa e um triunfo técnico inegável para a franquia. Ao inserir poderes psíquicos, motocicleta e um (questionável) grupo de coadjuvantes, a Retro Studios prova que não quer apenas viver de glórias passadas, mas sim levar a série beyond (adiante).

Sim, as “dicas” excessivas dos NPCs, a vastidão vazia do deserto e os indefensáveis (mas opcionais) Amiibos são ressalvas que precisam ser feitas. Mas quando você está no calor de uma batalha contra um chefe colossal, escaneando uma estrutura alienígena misteriosa ou resolvendo um puzzle com seus novos poderes psíquicos, fica claro que estamos diante de mais um ótimo jogo da série Metroid Prime.

Metroid Prime 4: Beyond respeita o DNA da franquia, mas não tem receio de abrir as portas para o futuro, e comprova que a franquia tem espaço para evoluir sem perder sua identidade — ainda que certas novidades mereçam uma segunda olhada com mais atenção.

Metroid Prime 4: Beyond está disponível para Nintendo Switch e Nintendo Switch 2 (versão analisada).

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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