Análise Arkade: um novo olhar para MindsEye, após meses de consertos e atualizações

MindsEye foi, sem dúvida, um dos lançamentos mais polêmicos do ano passado. O jogo da Build a Rocket Boy — estúdio fundado por Leslie Benzies, ex-presidente da Rockstar North — chegou cercado de expectativas altíssimas. A promessa era ambiciosa: gráficos hiper-realistas, gameplay intenso, narrativa cinematográfica e valores de produção dignos de um blockbuster.
O marketing foi pesado, com influencers pagos para promover o jogo e uma avalanche de comerciais durante eventos de games. Tudo indicava que estávamos diante de um dos grandes lançamentos do ano. Mas, quando o jogo finalmente chegou às mãos do público, no dia 10 de junho de 2025, a realidade foi bem diferente.

MindsEye acabou se tornando uma das maiores decepções recentes da indústria. Com bugs absurdos, crashes e diversos outros problemas, o jogo foi massacrado por público e crítica. Se você entrar hoje, no Metacritic, verá que o jogo ainda amarga uma média 38 (de 100)– nota simplesmente desastrosa para uma produção desse porte.
Em meio a este lançamento problemático, boa parte da imprensa gamer mundial sequer teve acesso ao jogo na época — incluindo nós, da Arkade, e muitos outros veículos, grandes e pequenos. Por isso, simplesmente não falamos de MindsEye naquele momento. Não havia como avaliá-lo de forma justa sem experimentá-lo. E, dada a recepção, eu é que não ia pagar para jogá-lo!

De junho de 2025 para cá, o jogo vem passando por melhorias e atualizações. A Build a Rocket Boy focou seus esforços em correção de bugs, melhorias técnicas e ajustes gerais de desempenho. Aos poucos, MindsEye foi sendo refinado. Agora, com a chegada de seu sétimo grande update — que é tratado pelos próprios desenvolvedores quase como um relançamento — o estúdio tenta uma reaproximação com a imprensa, incluindo uma nova rodada de distribuição de códigos para review.
Desta vez, finalmente tivemos a oportunidade de jogar e avaliar a experiência por conta própria. E é por isso que estamos analisando MindsEye em fevereiro de 2026, como parte de uma tentativa de redenção do título.
Sejamos justos: a indústria dos videogames já nos mostrou boas histórias de redenção ao longo dos anos. Jogos que hoje são aclamados, como No Man’s Sky e Cyberpuk 2077, chegaram ao mercado em condições problemáticas, foram duramente criticados e, com o tempo, acabaram sendo profundamente transformados por atualizações e melhorias constantes.


MindsEye talvez não chegue nesse nível de redenção, mas uma coisa é inegável: ele também já não é o desastre que era em junho de 2025. Ainda que não seja um jogo particularmente criativo ou inovador, agora ele oferece uma experiência se jogo bastante decente — e estável.
Sci-fi manjado, mas plausível
MindsEye é um thriller de ficção científica que dialoga diretamente com o momento em que vivemos: uma era marcada por avanços acelerados em inteligência artificial e pelo sonho da integração entre humanos e máquinas.

Na campanha, assumimos o controle de Jacob Diaz, um ex-soldado que foi submetido a um experimento envolvendo um implante neural avançado. Durante uma missão aparentemente rotineira, Jacob entra em contato com uma tecnologia misteriosa enterrada sob o deserto. Este encontro provoca uma falha crítica em seu implante e apaga grande parte de suas memórias.
Desorientado e tentando reconstruir a própria identidade, ele acaba se mudando para Red Rock City, onde consegue emprego de segurança na Silva Corporation, empresa que, apesar do nome peculiar, é uma poderosa corporação bilionária de tecnologia que até lembra um pouco um certo conglomerado tecnológico de um bilionário do mundo real.

A narrativa então, combina ficção científica, espionagem corporativa e mistério pessoal. A busca pelas memórias perdidas de Jacob serve como fio condutor da trama, enquanto o jogo explora conspirações tecnológicas, experimentos obscuros e os interesses escusos de grandes empresas inescrupulosas. Não é uma história particularmente memorável, mas cumpre bem sua função de sustentar a progressão da campanha e contextualizar o mundo ao redor do jogador. É, essencialmente, uma trama funcional.
Onde MindsEye tenta demonstrar mais personalidade é na sua construção de mundo. O game apresenta um futuro tecnológico que não parece distante ou fantasioso demais — pelo contrário, soa como uma extrapolação natural do presente e da sociedade atual.

A presença de drones controlados mentalmente, por exemplo, coexiste com a popularização da Lenz, uma espécie de lente de contato tecnológica que substituiu os smartphones e permite fazer ligações, registrar imagens, gravar vídeos e acessar informações em tempo real. É um conceito simples, mas convincente — e que parece uma evolução de tecnologias que já existem, como o RayBan Meta e outros gadgets com IA integrada.
Uma cidade nem tão viva
Red Rock City também contribui para essa sensação de verossimilhança. Embora o jogo não explore plenamente o potencial da cidade — falaremos mais sobre isso na sequência –, ela possui uma identidade visual muito rica, com arquitetura futurista, veículos estilosos e versões ficcionalizadas de estruturas reais: a mega-arena Sphere, de Los Angeles, por exemplo, possui uma irmã gêmea em Red Rock. Tudo parece próximo do nosso mundo, apenas mais avançado, mais conectado, mais automatizado. É como uma combinação da estrutura urbana de GTA com o futurismo corporativo de Watch Dogs.

A questão é que, ao contrário de GTA e outros jogos sandbox, você não sente que a cidade é viva e cheia de possibilidades. A cidade é usada mais como nos primórdios da série Mafia — um pano de fundo urbano, sem muitos pontos de interação, sem muito o que fazer enquanto vamos de lá para cá cumprindo as missões. Não dá para comprar roupas ou entrar em um bar — não dá nem para roubar um carro aleatório pela rua. Você não sente que está explorando uma cidade real, pulsante, mas um cenário de videogame que só está ali para servir a este propósito: ser um cenário.

Isso até é justificado, afinal, MindsEye não é um sandbox. Ele é um jogo relativamente linear, ambientado em um mundo aberto. Porém, não dá para ignorar a sensação de potencial desperdiçado de Red Rock City, uma cidade que poderia ser tão rica e vibrante quanto Los Santos, Vice City ou Night City. Porém, o que encontramos aqui é uma cidade que está ali para ser vista, não para ser tocada.
Jogabilidade
No que diz respeito à jogabilidade, o maior pecado de MindsEye talvez seja o quanto ele é… previsível. Não no sentido de ser mal executado — porque ele não é (ou, pelo menos, não mais). O jogo funciona bem. Dirigir é responsivo, o sistema de tiro é competente e existe um nível de polimento mecânico que torna a experiência como um todo agradável. O problema é que tudo é estruturalmente formulaico.

Para começar, o jogo é inteiramente centrado no combate armado. Não existe combate corpo a corpo real ou qualquer alternativa de defesa quando você não está empunhando uma arma. Isso reforça a identidade de shooter da experiência, mas também limita bastante a variedade de abordagens do jogador.
Essa limitação se torna ainda mais evidente na estrutura das missões. A grande maioria segue exatamente o mesmo padrão: você recebe um objetivo no ponto A, dirige até o ponto B, executa alguma tarefa — geralmente envolvendo troca de tiros — e repete isso de novo e de novo. O ciclo se repete com pequenas variações, mas raramente há algo que realmente quebre essa lógica.

Ocasionalmente temos sequências de infiltração ou momentos de stealth em que utilizamos um pequeno drone para invadir áreas restritas, espionar ambientes ou manipular sistemas à distância. São ideias interessantes, mas que não chegam a surpreender, principalmente para quem já jogou títulos como Watch Dogs. E mesmo estas missões acabam descambando em tiroteios que são funcionais, mas sem personalidade. Tudo em MindsEye é muito familiar — e já foi executado por algum jogo maior e melhor do que ele.
Arcadia
Essa repetitividade estrutural fica ainda mais evidente quando entramos em contato com o Arcadia — talvez o elemento mais curioso e controverso de MindsEye. Para quem não sabe, MindsEye não foi originalmente planejado como uma experiência single-player tradicional. Ele deveria ser uma espécie de vitrine para uma plataforma de criação de jogos, então chamada Everywhere, que permitiria aos jogadores desenvolverem missões e experiências interativas dentro (e fora) do universo do jogo.
Em algum momento do desenvolvimento, porém, parece que essa ordem de prioridades mudou: MindsEye passou a ser tratado como o produto principal, um jogo single player completo. E o que era o Everywhere deu uma diminuída de escopo e tornou-se o Arcadia, que permanece integrado à estrutura do (agora jogo principal) MindsEye.
Na prática, o Arcadia funciona como uma ferramenta de criação de missões, que variam entre desafios de tiroteio, corridas, infiltrações, combates contra hordas e resgates. Para justificar sua existência dentro da narrativa, o jogo apresenta essas atividades como “glitches” espalhados pelo mundo — fragmentos das memórias perdidas de Jacob que ele gradualmente vai recuperando. Algo que, em outros jogos, seriam simplesmente side missions para encher linguiça.

O lance é que essas missões, embora não sejam necessariamente ruins, são extremamente genéricas. E mais do que isso: elas escancaram o loop de repetitividade que está “grudado” no jogo. Se você não está participando de um tiroteio ou perseguição que é parte da campanha principal, provavelmente estará fazendo exatamente isso em uma atividade genérica feita no Arcadia.
A proposta por trás da plataforma tem seu valor. A ideia de permitir que jogadores criem conteúdos complexos sem precisar dominar programação é, por si só, bastante interessante e potencialmente poderosa — e já vimos isso funcionar em Roblox, por exemplo. Em teoria, é um recurso que poderia sustentar um ecossistema vivo e expansivo, alimentado pela criatividade da comunidade.

Mas aí entra um ponto crucial: comunidade depende de engajamento. E MindsEye chegou ao mercado “queimando a cara” bem feio. Com uma recepção inicial tão negativa, é difícil saber se existe, de fato, uma base de jogadores interessada em produzir novos conteúdos para manter esse sistema relevante. O Arcadia pode até ser uma boa ferramenta, mas sua viabilidade prática depende de algo que o jogo talvez nunca tenha conseguido conquistar: uma fan base engajada.

No fim, fica a sensação de uma ideia interessante inserida dentro de um jogo que raramente consegue justificar seu próprio potencial. A ferramenta existe, e é promissora, mas até que ponto ela permite ao jogador se expressar criativamente, para fazer algo que não se limite a tiroteios e corridas? Sinceramente, não sei — nem me sinto compelido a fuçar e descobrir.
Audiovisual
É no visual que MindsEye realmente se destaca. Mesmo que sua estética futurista tecnológica não seja particularmente inventiva — até por ser muito calcada na realidade — o resultado final impressiona pela qualidade. O jogo é bonito em movimento, com uma vibe de filme de ação que transmite aquela sensação de produção ambiciosa.
Não é exagero dizer que, especialmente nas cutscenes, MindsEye apresenta alguns dos modelos humanos mais realistas e expressivos que vi nos últimos tempos — mesmo se comparando com títulos maiores, como Assassin’s Creed Shadows ou Ghost of Yotei. No geral, há uma qualidade de apresentação que carrega aquela “vibe de next gen” que a gente gosta. MindsEye pode não ser um Triple A, mas tem cara de título exigente, feito para rodar em um hardware robusto.

No departamento sonoro, o trabalho é competente. As dublagens são boas, os efeitos são funcionais e a ambientação sonora ajuda a sustentar a imersão no mundo do jogo. Sem o cacife para licenciar dezenas de músicas reais como outros jogos de mundo aberto fazem, MindsEye traz uma trilha própria que, embora não seja particularmente marcante, acompanha a experiência de forma adequada e sem comprometer o clima do jogo.
Como eu falei lá no começo, Mindseye teve um começo complicado, especialmente por conta de problemas técnicos, bugs e questões de performance em geral. Eu não joguei-o naquela época, mas é fato que jogando agora, em fevereiro de 2026, no PS5, o jogo roda bem e oferece um baita visual.

Com isso quero dizer que não me deparei com nenhum bug absurdo daqueles que geraram compilados bizarros, e o jogo não crashou nenhuma vez. Não perdi meu progresso nem me deparei com nenhum problema técnico grave — de fato, já experimentei jogos maiores com bugs muito mais sérios, como por exemplo, o famigerado caso de Assassin’s Creed Unity.
Com base nisso, acho que dá para dizer com segurança que o pessoal da Build a Rocket Boy fez um bom trabalho em consertar e polir o jogo ao longo dos últimos meses, a fim de garantir um experiência mais estável, fluida e consistente. É compreensível que eles achem que o jogo merece uma segunda chance.

Em termos de localização, o jogo não conta com dublagem em português, mas oferece menus e legendas totalmente em PT-BR, com um trabalho de localização que vai além da simples tradução direta. Há referências culturais específicas do Brasil, como por exemplo, um troféu chamado “Quero Caféééé!”, que faz alusão àquele famoso meme. Isso demonstra um cuidado real em aproximar o jogo do público brasileiro, o que não deixa de ser um ponto positivo — especialmente em tempos de traduções “sem alma” feitas por IA.
Conclusão
Como deixei claro ao longo deste review, minha experiência com MindsEye não reflete a época do seu problemático lançamento, mas sim de como o jogo se apresenta agora, em fevereiro de 2026. E, sob essa perspectiva, é inegável que ele melhorou significativamente. O jogo foi corrigido, polido e estabilizado — e oferece uma experiência muito mais consistente do que aquela vista em junho do ano passado.

Não posso afirmar com propriedade o quão problemático e “injogável” ele era no lançamento, mas o estado atual deixa evidente que houve um esforço real da equipe em melhorar o produto. O resultado é um jogo decente, que roda bem, livre da maioria dos bugs, e que permite que o jogador de fato jogue, sem frustrações ou problemas técnicos graves.
Isso, no entanto, não transforma MindsEye em um jogo particularmente criativo ou memorável. Ele continua sendo um produto bastante previsível e formulaico. Faz o básico — e faz bem o suficiente –, mas raramente vai além disso. Quem espera algo no nível de liberdade, dinamismo ou complexidade de um GTA provavelmente vai se decepcionar, até porque a estrutura aqui é mais linear e menos ambiciosa.

É fato que o design de missões poderia ser mais inventivo e menos previsível. É fato que a cidade de Red Rock merecia ser mais do que um “rostinho bonito”, merecia ser mais viva e oferecer mais estímulos para a exploração. E, também é fato que o Arcadia em si, como plataforma de criação, precisaria de uma comunidade engajada para pegar tração e se provar.
Ainda assim, o contexto faz diferença. Sinto que eu teria passado raiva jogando MindsEye no ano passado e sentiria que estava desperdiçando meu tempo. Hoje, porém, a sensação é diferente. Me diverti moderadamente, tive uma experiência sem crashes ou frustrações técnicas, e pude apreciar um jogo que, embora pouco inspirado, ao menos funciona bem e impressiona visualmente. A Build a Rocket Boy merece créditos por ter arregaçado as mangas e consertado o jogo — mesmo que isso não transforme MindsEye em algo realmente marcante.
MindsEye está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada) e Xbox Series.