Análise Arkade – Moss: The Forgotten Relic é muito mais acessível, mas um pouco menos mágico

A série Moss sempre esteve no topo da lista de jogos que eu queria muito jogar, mas que nunca joguei do começo ao fim por uma razão muito simples: eu nunca gastei dinheiro em um headset de realidade virtual, simplesmente porque, do meu ponto de vista, a tecnologia nunca se mostrou indispensável, em se tratando de games.
Com a chegada de Moss: The Forgotten Relic — uma coletânea que reúne os dois jogos, agora adaptados para consoles e telas tradicionais, finalmente chegou a minha vez de conhecer a ratinha Quill e todo o universo deste jogo que, de longe, parecia tão especial.

A boa notícia é que o jogo continua sendo uma ótima aventura de ação, plataforma e puzzle. A “má notícia” é que jogar Moss na TV deixa bem evidente que a experiência é mais mágica em VR. Não porque a adaptação seja ruim — muito pelo contrário –, mas porque ela foi pensada para oferecer um tipo de imersão que uma tela convencional simplesmente não comporta.
Era uma vez uma ratinha
Apesar do codinome The Forgotten Relic, o que temos aqui são basicamente os dois jogos anteriores, reunidos em um único pacote. Inclusive, eles são acessados separadamente pelo menu inicial — Book I e Book II. A história se aproveita disso, sendo contada como um conto de fadas, com direito a livros que podem ser folheados e ilustrações super charmosas.

Na primeira parte, Quill deixa sua pacata vila após encontrar uma misteriosa relíquia de vidro que desperta um antigo mal. Ao lado do misterioso Leitor — figura que representa o jogador dentro daquele universo —, ela parte em uma jornada para resgatar seu tio Argus, capturado pela serpente Sarffog, enquanto atravessa florestas, castelos e ruínas repletas de armadilhas, quebra-cabeças e inimigos.
Em Moss: Book II, a aventura continua imediatamente após os acontecimentos do primeiro jogo. Agora, Quill precisa impedir que um tirano coloque as mãos no poder contido na tal relíquia esquecida que dá nome ao jogo. A jornada se torna mais perigosa e emocional, apresentando novos aliados, inimigos ainda mais ameaçadores e desafios mais elaborados — tudo isso enquanto fortalece o vínculo entre Quill e o Leitor.

Não espere uma trama cheia de reviravoltas ou temas complexos: o que temos aqui é uma história leve e encantadora com ar de fábula. Os diálogos são discretos, a narrativa nunca se torna excessivamente expositiva e boa parte do carisma do jogo vem da muito expressiva Quill: mesmo sem dizer uma palavra, ela rapidamente conquista o jogador graças às suas reações, gestos e trejeitos fofinhos.
Uma pequena grande aventura
Na prática, Moss: The Forgotten Relic funciona como um jogo de ação e aventura bastante tradicional: exploramos pequenas áreas interligadas, enfrentamos inimigos, resolvemos quebra-cabeças e adquirimos novas habilidades que permitem acessar regiões anteriormente inacessíveis.

Moss não é um metroidvania, mas tem suas influências. Na verdade sua estrutura lembra muito mais os primeiros jogos da série Zelda, principalmente pela forma como cada nova mecânica passa a ser utilizada tanto na exploração quanto na resolução dos puzzles.
O combate é relativamente simples — e nem é o foco do jogo: Quill utiliza sua espada para enfrentar pequenos inimigos e chefes ocasionais, contando também com esquivas e ataques especiais que tornam as batalhas mais dinâmicas.
O que realmente se destaca em Moss: The Forgotten Relic é a sinergia entre jogador e protagonista. A ideia aqui é que o Leitor é uma espécie de entidade, que está testemunhando a jornada de Quill e ajudando-a a superar os desafios. Por isso, há muitos mecanismos para ativar, plataformas para puxar e objetos que devem ser reposicionados. Muitas dessas coisas não fazemos com Quill, mas com a “mão invisível” do Leitor.

Os puzzles conseguem manter um ótimo ritmo durante toda a campanha. Em vez de se prender às mesmas ideias, o jogo vai introduzindo novos elementos, de modo que sempre temos algo novo para fazer, ou uma nova forma de interagir com o mundo. É uma progressão muito bem construída, que raramente deixa a sensação de repetição.
Uma boa adaptação… mas que inevitavelmente perde parte da magia
Minha maior curiosidade em relação a esta adaptação era justamente entender como uma experiência concebida para realidade virtual funcionaria em uma televisão tradicional, para ser jogada com um controle comum.

O resultado, felizmente, é bastante positivo. Os controles foram muito bem adaptados, a movimentação de Quill é precisa e a câmera faz um ótimo trabalho para emular a visão que o jogador teria em VR, e consegue enquadrar a ação sem comprometer a leitura dos cenários.
Em nenhum momento a adaptação parece ter sido mal feita ou adaptada de forma preguiçosa. Não fica a sensação de que estamos diante de uma versão inferior — e quem não sabe que este jogo nasceu no VR dificilmente vai sentir que está perdendo algo.
Contudo, para quem, como eu, sabe da existência de Moss VR e revisita neste mundo pela TV, fica difícil não achar que um pouco da magia se perdeu no caminho.

Veja bem: o grande diferencial de Moss sempre foi colocar o jogador dentro daquele mundo, sob a persona do Leitor. No VR, não estamos apenas controlando Quill: estamos acompanhando sua jornada como uma espécie de guardião invisível, observando cada cenário de diferentes ângulos, aproximando o rosto para enxergar detalhes, manipulando objetos e desenvolvendo uma relação muito mais direta com a pequena protagonista. A própria escala dos ambientes contribui para essa sensação de sermos uma entidade gigante ajudando uma ratinha pequena em um mundo colossal.
Na tela plana, essa ideia continua presente apenas conceitualmente. Ainda acompanhamos a aventura pelos olhos do Leitor, mas a distância criada pela câmera tradicional inevitavelmente reduz a imersão — afinal, não estamos mais dentro daquele mundo.
O jogo continua excelente, mas a experiência se torna um pouco menos impactante — ou mais tradicional. Jogar Moss: The Forgotten Relic na TV reforça a impressão de que a realidade virtual não era apenas um gimmick tecnológico: o VR era parte da essência da experiência (algo que não pode ser dito de todo jogo exclusivo para VR).

Dito isso, pensando pelo lado da acessibilidade, agora Moss: The Forgotten Relic pode ser apreciado por muito mais gente. Se antes ele estava disponível apenas para uns poucos entusiastas do VR, agora ele pode ser jogado por qualquer pessoa que tenha um PC, PS5, Xbox Series ou até mesmo Switch — e chega por um preço super honesto. Ponto para a acessibilidade!
Audiovisual
Independentemente da plataforma, Moss: The Forgotten Relic continua sendo um jogo belíssimo. Os cenários parecem belos dioramas cuidadosamente construídos, repletos de vegetação, castelos em miniatura, ruínas antigas e objetos que ajudam a transmitir a escala daquele universo. A direção de arte combina fantasia medieval com um tom de conto de fada muito cozy, criando ambientes tão detalhados quanto acolhedores.

As animações de Quill continuam sendo um espetáculo à parte. A ratinha demonstra emoções constantemente, olha para o jogador, reage aos acontecimentos e transmite muita personalidade através de pequenos gestos. É um daqueles casos em que a animação diz muito mais do que qualquer diálogo poderia dizer — e as interações com ela devem ficar ainda mais incríveis em VR.
A trilha sonora acompanha perfeitamente esse clima de conto de fadas, utilizando composições orquestradas discretas que reforçam os momentos de exploração e descoberta sem jamais roubar a cena. O design de som também merece elogios, contribuindo para tornar cada ambiente mais vivo e convincente.

Por último, mas não menos importante, Moss: The Forgotten Relic possui menus e legendas em PT-BR. A dublagem da narradora da história é muito boa, e podermos entender tudo o que ela nos conta sem dúvida agrega valor à experiência.
Conclusão
Depois de anos de curiosidade, finalmente pude jogar Moss e entender por que Quill conquistou tantos fãs. Mesmo fora da realidade virtual, o que temos aqui continua sendo uma excelente aventura, com ótimos puzzles, uma protagonista extremamente carismática e um mundinho encantador.
O jogo funciona perfeitamente bem em uma tela tradicional, e dificilmente decepcionará quem procura uma experiência leve e aconchegante. Ao mesmo tempo, ele desperta uma sensação curiosa: a de estar perdendo uma parte do que realmente torna Moss especial. A adaptação preserva praticamente todo o gameplay, mas falha em traduzir a imersão que a realidade virtual proporcionava.

Acho que nem teria como ser diferente. E, no fim das contas, isso acaba sendo quase um elogio ao projeto original. Moss: The Forgotten Relic continua sendo um ótimo jogo em qualquer plataforma, mas também serve como um lembrete de que algumas experiências encontram sua forma mais completa quando são vividas exatamente da maneira como foram concebidas.
Se você tem um headset de VR, provavelmente essa ainda é a melhor forma de adentrar o fantástico mundo de Quill. Do contrário, a adaptação para telas tradicionais prova que esta pequena aventura ainda é muito boa… só, talvez, não seja tão imersiva quanto era em seu formato original. De qualquer modo, agora mais gente pode jogar, e esta é uma experiencia que merece alcanças mais pessoas.
Moss: The Forgotten Relic está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada), Xbox Series e Nintendo Switch. O game possui menus e legendas em português brasileiro.