Análise Arkade: Motorslice, um ótimo jogo brasileiro que combina parkour, robôs gigantes e brutalismo

17 de maio de 2026

Eu sempre gostei de jogos com foco em parkour — ainda que alguns deles, como Mirror’s Edge, quase me faça vomitar. Motorslice, indie game brasileiro da Regular Studio , me chamou a atenção desde seu anúncio, por prometer uma experiência de ação e aventura que mistura parkour, combate e exploração em um mundo brutalista cheio de mistérios.

Com claras influências de jogos como Mirror’s Edge, Prince of Persia, Nier Automata e até mesmo Shadow of the Colossus, Motorslice é bem sucedido nessa mistura de referências, que chega acompanhada de uma trama minimalista e combates contra máquinas colossais. Tudo isso envolto em uma atmosfera solitária e quase contemplativa. Mas será que essa mistura funciona na prática?

História

A premissa de Motorslice é simples — e até propositalmente vazia. Controlamos P, uma jovem com uma missão bem clara: entrar em uma megaestrutura abandonada, eliminar máquinas hostis (que são tipo tratores e rolos compressores “possuídos”) e sair dali. Simples assim.

Mas, como o próprio jogo deixa claro, nada ali é realmente simples. Conforme avançamos, percebemos que aquela estrutura é muito maior, mais opressiva e mais misteriosa do que parecia inicialmente.

A narrativa é minimalista e fragmentada. Boa parte do contexto vem das interações com Orbie, um dronezinho que cumpre múltiplas funções: atua como a câmera do jogo (tipo Mario 64, saca?), acompanhando incansavelmente a protagonista, serve de lanterna em ambientes escuros, ouve os devaneios e desabafos dela e participa de alguns momentos mais contemplativos da jornada.

Orbie rouba a cena (no mau sentido) em alguns destes momentos: em diversas situações, o robozinho demonstra sentimentos e até fetiches pela garota (?!), o que rende momentos de sexismo (e vergonha alheia) que destoam completamente da proposta.

E estes momentos têm até opções de falas bem… pitorescas

Felizmente, estes momentos não afetam as demais qualidades do game, nem têm grande peso narrativo. Dito isso, não venha para Motorslice esperando uma história densa ou cheia de reviravoltas: o foco está muito mais na mecânica e na sensação de liberdade do parkour do que na explicação.

Gameplay

É aqui que está o coração de Motorslice, e também onde ele mais se destaca. O jogo é essencialmente um híbrido de plataforma 3D com ação, baseado em parkour e movimentação acrobática.

A fisicalidade do parkour pode dar bem errado em videogames, mas, este não é o caso aqui. A protagonista P é extremamente ágil — corre por paredes, escala estruturas, salta entre plataformas, se pendura em canos, desliza e rola por baixo de obstáculos — e o gameplay responde à altura.

Ainda que o leque de movimentos da protagonista não seja particularmente inovador, ele é muito bem executado mecanicamente. Eu gosto de sentir um “friozinho na barriga” em jogos que me desafiam a realizar saltos precisos em lugares altos, e isso acontece muito em Motorslice. Felizmente, o gameplay é responsivo e funcional, mitigando que eventuais falhas sejam “culpa do controle”.

Um detalhe interessante é que a progressão não é baseada em upgrades tradicionais ou árvores de habilidades. O jogo é dividido em capítulos, mas o avanço depende totalmente da habilidade do jogador em dominar os movimentos, entender o timing dos saltos e aprender a “ler” o cenário em busca de locais escaláveis ou pontos de interesse. O level design peca um pouco quando resolve se abrir demais — as fases mais lineares sem dúvida são as mais legais.

Motorslice e chefes

Bom, mas parkour e travessia correspondem a apenas uma parte da experiência que Motorslice entrega. O jogo também possui combates, e há uma mecânica — esta sim deveras inovadora — que literalmente dá nome ao jogo: o “motorslice”.

Como você já deve ter percebido, P carrega uma espécie de espada-motosserra. Em determinadas superfícies, podemos cravar a espada e, ao acioná-la, vamos deslizar, cortando a parede enquanto somos “carregados” pela motosserra. É uma habilidade muito única, que contribui com a sensação de velocidade e fluidez e se encaixa perfeitamente na mobilidade que o parkour oferece.

E o mais legal é que o jogo integra o motorslice também aos combates. Existem inimigos muito grandes — e chefes gigantescos, que são como os colossi de Shadow of the Colossus em versão industrial — cujos pontos fracos são justamente áreas em que podemos fazer motorslice. Assim, a única forma de causar danos é escalá-los e “deslizar” com a motosserra por eles.

Confira abaixo meu embate contra o terceiro (e gigante) chefe do jogo:

Aprecio muito o design dos chefes, que funcionam quase como enormes puzzles: não podemos simplesmente atacá-los, precisamos descobrir como escalá-los, identificar pontos fracos e fazer um bom uso de nossas habilidades acrobáticas para derrotá-los. A integração entre movimentação e combate é a cereja do bolo: você não para para lutar — luta enquanto se move.

Os inimigos normais não tem o mesmo brilho, nem demandam grandes estratégias: são tratores e outros maquinários típicos de construção civil que — sabe-se lá porque –, vão nos atacar assim que perceberem nossa presença. No geral, dois golpes bem dados ou um parry na hora certa resolvem o problema.

Audiovisual

Visualmente, Motorslice aposta em uma estética bastante específica: um low-poly estilizado com influências retrô e uma direção de arte que mistura brutalismo com espaços liminares. O cenário é praticamente um personagem à parte: uma série de megaestruturas brutalistas com muitos espaços vazios, corredores intermináveis, abismos enormes e áreas que provocam uma sensação constante de insignificância.

Sendo bem honesto, não é um jogo tecnicamente impressionante no sentido tradicional, mas tem uma identidade muito forte — e ganha pontos pelas ótimas animações de parkour e movimentação em geral. Fora isso, o contraste entre a pequenez da protagonista e a magnitude dos ambientes é capaz de criar momentos visualmente impactantes.

A trilha sonora segue uma proposta minimalista, com músicas que ajudam a construir a atmosfera, mas sem roubar a cena. O som, no geral, trabalha mais para reforçar o isolamento e a estranheza do mundo do que para se destacar. O jogo tem poucas vozes (em inglês), mas uma bem-vinda localização em PT-BR nos menus e legendas.

Conclusão

Motorslice é um jogo estranhamente cativante. Ele abre mão de uma narrativa tradicional e de sistemas mais convencionais para apostar em sensação, movimento e atmosfera. E, ao fazer isso, entrega uma experiência única, especialmente pela forma como integra parkour e combate em um loop coeso e recompensador.

É um jogo que sabe exatamente o que quer ser, e segue o caminho escolhido com confiança e personalidade. Em um mar de games derivativos e pouco inspirados que tentam ser/parecer outra coisa, essa identidade já o coloca à frente de muitos outros títulos que optam por caminhos mais seguros.

Os fetiches de Orbie pela protagonista são um tanto incômodos (para dizer o mínimo), mas, felizmente, são pontuais, e não tiram o brilho do jogo. É quando você está correndo pelas paredes, saltando e deslizando com sua motosserra por máquinas gigantes que Motorslice realmente entrega tudo.

Motorslice está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada) e Xbox Series.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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