Análise Arkade: Ninja Gaiden Ragebound, um excelente retorno às origens 2D da série

Poucas séries conseguiram fazer uma transição tão competente do 2D para o 3D como Ninja Gaiden. Os jogos clássicos de 8 e 16 bits marcaram época com sua dificuldade cruel e ação precisa, e os títulos em 3D conquistaram respeito por elevar o nível de violência e a intensidade do combate. Mas, com a mudança para o 3D, o estilo clássico acabou sendo deixado de lado… até agora.
Eis que, em pleno 2025, a The Game Kitchen — estúdio responsável pela incrível série Blasphemous — foi incumbida da missão de levar Ninja Gaiden de volta às suas origens pixeladas. E o resultado é surpreendente, criando uma experiência intensa, desafiadora e digna do legado de Ryu Hayabusa.
Parceria forçada
Ironicamente, o icônico Ryu Hayabusa aparece pouco em Ninja Gaiden Ragebound, mas isso está longe de ser um problema. Quando ele sai de cena para resolver outras tretas — que talvez vão ser exploradas no vindouro Ninja Gaiden 4 — o protagonismo aqui fica a cargo de dois novos personagens: Kenji, um ninja do clã Hayabusa, e Kunori, uma habilidosa guerreira do clã das Aranhas Negras.

Para quem conhece a franquia, essa união é surpreendente — afinal, os dois clãs são historicamente rivais. No entanto, diante de uma invasão demoníaca de proporções épicas, as circunstâncias exigem que a aliança peculiar seja forjada. E a união transcende a carne: Kunori sela sua alma dentro de uma adaga mágica ancestral, mas sua consciência segue viva e passa a acompanhar Kenji.

Por serem representantes de clãs rivais forçados a colaborar, os dois começam a aventura com muita raiva mútua e muitas trocas de farpas. Mas, ao longo da jornada, eles constroem uma relação marcada por respeito, cumplicidade e até uma certa camaradagem. A dinâmica entre os dois torna-se o eixo narrativo e mecânico da campanha, e essa dinâmica é um dos pontos altos da narrativa.
Gameplay
No que diz respeito à jogabilidade, Ninja Gaiden Ragebound é simplesmente uma delícia. O ritmo do jogo é ágil, intenso e visceral o tempo todo. A combinação de desafios de plataforma com combate rápido e sangrento cria uma experiência viciante e envolvente, que testa não só os reflexos, mas também a precisão do jogador.

A movimentação é fluida, e o feedback de controle é imediato — algo essencial em um jogo frenético como esse. A maioria dos inimigos comuns pode ser derrotada com um único golpe, o que reforça a power fantasy de sermos um ninja letal, fatiando tudo em seu caminho. Enquanto Kenji empunha sua katana com agilidade, Kunori (fundida espiritualmente à adaga) assume o papel de suporte ofensivo, disparando projéteis e magias extremamente poderosas.
Para tornar as coisas mais desafiadoras, Ninja Gaiden Ragebound incorpora uma interessante mecânica de “ricochete”: o jogo não oferece um pulo duplo tradicional, mas posiciona estrategicamente inimigos e projéteis para que o jogador ataque-os e ganhe uma “quicada”.

Encadear dois, três, ou mais pulos com essa técnica é essencial — mas exige precisão e ritmo, pois as seções de plataforma podem ser bem desafiadoras.
Variedade, chefes e acessibilidade
Em certos momentos, a jogabilidade muda de perspectiva e coloca Kunori em destaque. Em desafios opcionais ou rotas alternativas, podemos assumir controle direto da ninja, que se aventura pelo reino dos demônios em segmentos que exigem velocidade e precisão absoluta. Isso porque, quando fora da adaga, Kunori tem uma barra de energia que funciona como um cronômetro: ela só pode permanecer em sua forma humana por alguns segundos.
Esses desafios consistem em alcançar rapidamente um colecionável ou acionar mecanismos essenciais para a progressão da dupla. São momentos pontuais, mas muito bem implementados, e reforçam que Kunori está longe de ser apenas uma ferramenta de combate — ela é uma coprotagonista com papel ativo no gameplay.
E como não poderia faltar em um Ninja Gaiden de respeito, os duelos contra chefes são ótimos. Prepare-se para enfrentar demônios colossais e apelões, em batalhas que seguem aquela cartilha clássica: decore padrões de ataque, mantenha distância e aproveite janelas curtas de oportunidade para atacar.
São combates intensos e exigentes, mas o jogo não fecha as portas para quem não tem habilidade ou tempo para decorar padrões. Pelo contrário: Ninja Gaiden Ragebound traz robustas opções de acessibilidade, permitindo desde ajustes finos na dificuldade até a opção de invencibilidade total — para quem só quer curtir a história até o final sem grandes frustrações.
Os puristas, claro, podem aumentar o desafio ao máximo e se deliciar com uma experiência realmente old school. Dito isso, é louvável ver uma franquia conhecida pela dificuldade oferecendo opções de inclusão, principalmente em uma época em que Souls-likes perpetuam a mentalidade excludente do “git gud”.

Ah, e acho válido ressaltar que estamos diante de um legítimo jogo de fases: como games lineares estão cada vez mais raros, é ótimo vermos um jogo que abraça a estrutura clássica de uma fase depois da outra, sem enrolações nem gorduras.
Nada de metroidvania ou roguelite, este é um jogo orgulhosamente linear, com level design incrível. Para quem cresceu jogando videogames das antigas, ou simplesmente curte ação em ritmo acelerado, Ragebound é uma pedida imperdível.
Audiovisual
No quesito visual, Ninja Gaiden Ragebound também dá um verdadeiro espetáculo. O jogo aposta em uma pixel art 2D riquíssima em detalhes, com animações suaves e fluidez impressionante. A The Game Kitchen já havia mostrado seu domínio técnico nesse estilo com Blasphemous, mas aquele era um jogo mergulhado em uma estética sombria, repleta de coisas sinistras e elementos religiosos.

Aqui a abordagem é bem diferente: ao longo da campanha, vamos passar por uma grande variedade de ambientes, incluindo cenários urbanos e orientais que nos levam a vilarejos japoneses, prédios em construção, catacumbas e até um cemitério de navios piratas.
O design dos personagens e inimigos também merece destaque, sempre estilizado e cheio de personalidade. As cutscenes seguem um estilo clássico, com artes estáticas em pixel art que remetem à era 16-bits — todas nostálgicas e lindíssimas.

O jogo não conta com dublagem, o que ajuda a reforçar seu charme old school, mas a trilha sonora compensa com folga: as músicas são energéticas, grudentas e casam perfeitamente com o gameplay. Os efeitos sonoros também são impactantes, com cortes de espada e rugidos demoníacos que deixam o combate ainda mais satisfatório.
Além disso, o jogo chega totalmente localizado para o português brasileiro, com menus, legendas e textos cuidadosamente traduzidos. O trabalho de localização é muito bom, capturando bem o tom dos diálogos entre Kenji e Kunori, que têm uma química ótima e cuja relação só melhora ao longo da campanha.


Conclusão
Ninja Gaiden Ragebound é um jogaço. Combinando nostalgia e acessibilidade na medida certa, ele oferece um gameplay afiado, ágil e desafiador — tudo isso sem enrolação. Nada de roguelike, metroidvania ou qualquer outra estrutura da moda: Ragebound é um jogo orgulhosamente de fases, linear e direto ao ponto, como nos velhos tempos.

E o melhor: ele mostra que Ninja Gaiden ainda tem muita lenha para queimar no formato 2D. Mesmo sem Ryu Hayabusa liderando a jornada, temos uma aventura sangrenta e intensa, com uma dupla de protagonistas que brilha com muito carisma, bons diálogos e muita ação.
Em resumo: Ninja Gaiden Ragebound é um jogo espetacular, que combina uma estética nostálgica com um gameplay moderno, afiado, ágil e incrivelmente bem calibrado. O título resgata a essência da série com respeito, mas também injeta novas ideias que atualizam a fórmula com muita competência.
Ninja Gaiden Ragebound está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada), Playstation 4, Xbox Series X|S, Xbox One e Nintendo Swich.