Análise Arkade: Post Trauma impressiona muito no começo, mas não mantém o nível até o final

Quando Post Trauma apareceu pela primeira vez lá em 2022, ele chamou muito minha atenção ao apresentar um gameplay de câmeras fixas e muitas inspirações nos clássicos de Survival Horror. E o game enfim foi lançado em 2025 após alguns adiamentos. Mas será que o game é tudo o que parecia? Vamos falar sobre o game agora mesmo!
Um terror psicológico com pouca base para criar o terror em si

Post Trauma é um game diretamente inspirado em Silent Hill, possuindo um gameplay e estilo bastante semelhantes principalmente com os dois primeiros games da série, com câmeras fixas e foco maior em combate corpo a corpo utilizando armas brancas, mas também possuindo armas de fogo com munição bastante limitada.
O game acompanha Roman, um homem que de repente acorda dentro de um vagão de trem abandonado sem saber onde está e como chegou ali. E imediatamente percebe que ele não está num trem comum. Após sair dele e começar a explorar túneis de metrô e estações abandonadas, mas contendo coisas incrivelmente bizarras, desde massas de carne pulsantes nas paredes a criaturas grotescas que aparecem esporadicamente e tentam atacá-lo.

Roman explora o local sem saber para onde ir, o que fazer e muito menos porque está ali, conseguindo encontrar somente as mais vagas pistas que sugerem alguma história ao local. Post Trauma deliberadamente mantém tudo em segredo, levando um bom tempo até revelar um mínimo de informação sobre Roman, levantando ainda mais questões do que respostas. E prossegue assim até praticamente o final do game.
Por um lado, acho que isso é uma decisão narrativa interessante, pois não conta uma história muito previsível em que o jogador desvenda tudo rapidamente, tirando o elemento de surpresa da história. Por outro, é necessário uma balança para conseguir obter êxito nisso, pois pelo menos em minha opinião, isso prejudicou a construção do terror psicológico de Post Trauma.

Quando estamos chegando ao final do game, os cenários vão ficando mais e mais bizarros, os monstros mais e mais grotescos e os temas abordados mais e mais pesados, mas ainda assim, não há uma conexão muito bem estabelecida. Eu, pessoalmente, há tempos tenho vontade de jogar um game de terror em que um protagonista está vivendo um pesadelo sem ter a mínima ideia do que está acontecendo, chegando ao final e aí sim descobrir o que está acontecendo, ou ao menos chegar ao final com algum entendimento, ainda que básico, sobre os horrores que enfrentou.
Digo isso para deixar claro que não tenho problema algum com uma história que não faça sentido ao protagonista ou ao jogador, desde que juntos possamos conseguir um entendimento do mundo que estamos interagindo, ou mesmo não obter qualquer entendimento, mas ao menos formar alguma linha de raciocínio teórico (Se já não é óbvio, eu gosto do estilo de histórias por lore dos games da From Software, por isso não tenho problemas com narrativas inferenciais). Sabe aquelas histórias abertas em que o leitor/jogador preenche as lacunas? Disso eu sou bastante fã.
A questão é que Post Trauma não causou isso em mim. Acompanhamos Roman explorando vários lugares diferentes, começando pelo metrô, passando por um hospital, uma escola (cenários comuns para muitos games de terror) e etc, mas na hora de entender os segredos desses lugares, ainda que sim, nós acabemos descobrindo algumas coisas, eles parecem não se conectar.
Gameplay ao estilo clássico, mas faltando lapidação
Eu amo o estilo de gameplay de Resident Evil 1, indo até Resident Evil 0, com câmeras fixas, controles de tanque, combates mais lentos e gerenciados. Isso foi o que imediatamente me atraiu a Post Trauma, pois adoro esse estilo até hoje e sempre me alegra quando vejo games novos revivendo essa estética, por mais que seja considerado algo antigo e questionavelmente ultrapassado.
E, graças a modernidade dos controles de hoje em dia, mesmo com câmeras fixas a movimentação do game é livre, assim como nos recentes remasters de clássicos da Capcom, como Resident Evil Remake, 0 e Code Veronica, Onimusha: Warlords e Onimusha 2: Samurai’s Destiny, o que torna tudo bastante simples e intuitivo.

O problema é que o game oferece pouco desafio. Encontrar monstros é algo bem raro, e há alguns cujo encontro realmente causa uma boa tensão. E o foco é bem maior nos puzzles, o que é algo muito bom. Um game de terror sem puzzles sempre parece que tem algo importante faltando. Mas, não há tanto desafio assim, o que consequentemente prejudicou, ao menos para mim, a imersão em seu terror.
Mecanicamente o gameplay é bastante competente. Roman já é um homem mais velho e sem experiência em lutas e combate, então seus ataques são mais lentos e erráticos, e usar armas de fogo causa muito coice com os disparos. E felizmente essa limitação física de Roman não o prejudica, sendo até bem simples escapar de ataques de monstros e atacá-los novamente.

Os cenários de Post Trauma são pequenos e levemente labirínticos. Por conta disso, não há nenhum mapa que podemos acessar ao abrir o menu para sabermos onde estamos. A menos que o local possua um mapa desenhado em alguma parede, você precisará usar a memória para lembrar onde ir. Mas em geral se localizar é bem fácil.
Assim, ainda que Post Trauma tenha um gameplay bem construído e um uso muito bom de câmeras fixas, pelo menos comigo não supriu minha “sede de nostalgia” ao jogar, pois a cadência de gameplay entre descobrir o layout dos cenários e ter que ir pra cima e pra baixo pra achar o lugar certo para usar um item, por exemplo, é muito rápida, em parte por conta dos mapas não serem extensos, nem mesmo como a mansão Spencer da versão original de Resident Evil. E pela falta de monstros para aumentar a tensão do ambiente. E falando em Resident Evil, o game conta com saves manuais em Save Rooms!
Audiovisual

Visualmente, Post Trauma é incrível, ainda que não atinja o nível mostrado originalmente em seus trailers lá em 2022. Seus cenários são realmente incríveis, com bastante “vida”, por assim dizer, ou tentando contar uma história de lugares que um dia foram normais e agora não são mais. Pessoalmente, acho a área inicial do game, o metrô abandonado, magnífica. O local é escuro, cheio de lixo, detritos, pichações e massas de carne e sangue subindo pelas paredes, ao lado de sacos e mais sacos pretos de corpos espalhados por todo lugar.
O design dos monstros é bem legal, com muitos monstros sendo corpos de pessoas fundidos numa massa quase amórfica e assustadora, com todos os monstros sendo versões deformadas e grotescas de pessoas. Diferente de Silent Hill, em que cada criatura tem um significado para sua aparência, Post Trauma parece não levar muito isso em conta. É claro que há um significado para o que vemos, mas ele não é muito aprofundado ao longo da jogatina. Mas, algo bem legal é que toda vez que um monstro se aproxima um filtro estático cobre a tela, imitando interferência de sinal de antena em antigas TVs de tubo, o que ajuda muito na ambientação.

O game passa sua maior parte do tempo no silêncio, apenas com sons ambientes criando uma atmosfera muito bem feita. Há músicas bem tenebrosas no game, que tocam em momentos chave, principalmente durante encontros com monstros, mas as músicas, apesar de boas, não são muito marcantes. O início do game, em que estamos presos dentro de um trem, tem uma atmosfera muito poderosa. Isso é algo que Post Trauma acerta em cheio, sua atmosfera. É uma pena que isso acabe um pouco prejudicado pela forma como o game acaba funcionando.
Conclusão

Repetindo algo que disse no meu review de Scorn lá em 2022, Post Trauma é muito bom, mas parece que não ousou em tudo o que poderia. Sua história é em sua maior parte bastante confusa, o que não é problema pra mim, pois como mencionei, histórias em que o protagonista não tem a mínima ideia do que está acontecendo me atraem. O problema está na hora de criar conexão entre o mundo e seus personagens.
Sem dúvida alguma a ambientação de Post Trauma é excelente, os monstros são muito bem feitos. E há ainda duas histórias sendo contadas ao mesmo tempo. Alternamos entre o controle de Roman, em terceira pessoa, e de outro personagem, em perspectiva em primeira pessoa. O problema é que as histórias não se conectam tão bem, e o efeito que elas deveriam causar, que é o de criar confusão e curiosidade, em mim causaram mais estranheza.
Ainda assim, Post Trauma é um game que vale a pena se conferir, principalmente por ser um game baratinho (pelo menos para PCs). Esse é um game que há muito tempo eu vinha acompanhando, mas que infelizmente não satisfez o meu hype. E sei o quão perigoso o hype pode ser. Ainda assim, é um game bom, só não é o melhor que poderia ter sido.
Post Trauma está disponível para PC, Playstation 5 e Xbox Series X/S.
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