Análise Arkade: Scott Pilgrim EX, um retorno cheio de atitude, pancadaria e rock n roll

Scott Pilgrim é aquele tipo de personagem que passeia por diferentes mídias sem perder sua identidade. Para muitos, o apreço vem dos quadrinhos criados por Bryan Lee O’Malley, repletos de referências à cultura gamer. Para outros, a porta de entrada foi o estiloso filme Scott Pilgrim vs. the World, dirigido por Edgar Wright, que traduziu toda a estética gamer à linguagem cinematográfica com muita energia e criatividade.
E, claro, há quem associe imediatamente o nome à pancadaria pixelada de Scott Pilgrim vs. the World: The Game, lançado originalmente pela Ubisoft em 2010. O jogo é um beat ’em up que virou cult, deu uma sumida das lojas digitais por anos e ressurgiu em 2021, em um relançamento que preservou intactos o charme da pixel art e a gloriosa e caótica pancadaria cooperativa — e você pode relembrar nosso review aí embaixo:
Não sei quanto sucesso fez este relançamento, mas uma coisa é fato: eu não esperava estar jogando um novo beat ‘em up retrô do Scott Pilgrim em pleno 2026 — até porque, perdeu-se o timing da série da Netflix, e não há nada novo do personagem sendo lançado. Ainda assim, aqui estamos, analisando Scott Pilgrim EX, mais um jogo que esbanja estilo e atitude!
Reunindo a banda
O mais curioso sobre Scott Pilgrim EX é que ele não é uma releitura da obra original, nem uma adaptação direta da animação da Netflix. Em vez disso, temos uma história completamente nova dentro desse universo, que traz de volta todos esses personagens que a gente adora.

A trama é inédita e assinada pelo próprio Bryan Lee O’Malley, o que já dá um peso autoral interessante ao projeto. Mas é importante alinhar expectativas: trata-se de uma história tão bobinha quanto um beat ’em up precisa ter — e isso é um elogio.
Em uma Toronto dominada por três facções rivais — veganos militantes, robôs descontrolados e demônios saídos de alguma dimensão alternativa — os amigos de Scott (e integrantes da Sex Bob-Omb) são sequestrados por um novo grupo de vilões. Como se isso não bastasse, os instrumentos musicais de todos eles também são roubados.

Assim, Scott, Ramona e outros rostos conhecidos — incluindo alguns ex-namorados que antes ocupavam o papel de vilões — unem forças para recuperar tanto os amigos quanto os instrumentos. E como eles vão fazer isso? Descendo a porrada em todo mundo, claro… mas também visitando lojinhas e explorando uma Toronto expansiva, repleta de caminhos interconectados.
Não é uma trama profunda — e, convenhamos, nem precisa ser. Ela cumpre seu papel de ser a motivação da porradaria, e faz isso com humor, ritmo e identidade, abrindo espaço para boas piadinhas e deixando que socos e pontapés sejam as verdadeiras estrelas do rolê!
Distribuindo socos
Em termos de gameplay, Scott Pilgrim EX entrega uma experiência que é simultaneamente familiar e renovada. Familiar porque o núcleo da pancadaria permanece muito similar ao que vimos no clássico Scott Pilgrim vs. the World: The Game.

A estrutura é tradicional do gênero: combate lateral, hordas de inimigos e muito espaço para experimentação. É possível quebrar objetos do cenário, arremessar itens contra adversários, improvisar combos e executar o famoso juggling — manter o inimigo no ar sem deixá-lo tocar o chão. A base é sólida, responsiva e satisfatória.
Mas há evolução. O elenco jogável foi expandido, e os novos personagens trazem mecânicas próprias que alteram o ritmo e a abordagem do combate. A estrutura é meio que a mesma, mas cada herói tem seu peso, sua cadência.

Somado a isso, temos um rico elenco de personagens de suporte — coadjuvantes que funcionam mais ou menos como strikers em um jogo de luta (ou a polícia em Streets of Rage) — são elementos que nos dão ainda mais possibilidades para expandir a pancadaria.

Em resumo, o que Scott Pilgrim EX faz muito bem é equilibrar profundidade e acessibilidade. Ele possui movimentos especiais, combinações mais elaboradas e camadas estratégicas para quem deseja se aprofundar. Mas, ao mesmo tempo, é extremamente fácil simplesmente pegar o controle e sair distribuindo socos e pontapés. Mecanicamente, é um jogo complexo em sua simplicidade, o que faz dele um beat ‘em up que tem tudo para agradar aos fãs do gênero.
Visitando lojinhas
Aliás, ele nem é “só um beat ‘em up”, pois foge da linearidade padrão e do sistema de fases típico do gênero. Scott Pilgrim EX adota uma estrutura mais aberta, que dialoga tanto com o título original quanto com algo na linha de River City Girls, por exemplo.

Temos um mapa de Toronto relativamente expansivo, com muitos ambientes distintos e um bom número de portas trancadas, atalhos e áreas secretas. Não existe uma ordem rígida de progressão: a cidade está lá para ser explorada, e você decide por onde começar — dica: se ficar perdido, siga a direção do letreiro “Go!” que sempre te leva para o caminho certo.

Essa liberdade reforça um aspecto (leve) de RPG que já existia no jogo de 2010. Aqui, coletamos moedas derrotando inimigos e completando tarefas, que então vamos trocar em diversas lojinhas espalhadas pelo mapa. Elas vendem desde itens de cura até discos de vinil e acessórios que fortalecem atributos específicos dos personagens.

Além disso, conforme resgatamos os integrantes da banda e aprendemos riffs “mágicos”, vamos ganhando acesso a novas áreas — com direito a rasgos na realidade que cruzam o espaço-tempo, e nos permitem visitar o passado ou o futuro alternativos de alguns lugares.
Audiovisual
No departamento audiovisual, Scott Pilgrim EX é um verdadeiro deleite. Se o jogo de 2010 — produzido por uma Ubisoft de outra era — já havia sido amplamente elogiado por sua pixel art carismática, aqui o bastão passa para a Tribute Games, estúdio que vem se consolidando como especialista em beat ’em ups retrô. Basta lembrar seus trabalhos recentes em Marvel Cosmic Invasion e Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge para entender o nível.

E eles mandaram bem mais uma vez. O resultado é simplesmente excelente: uma pixel art minuciosa, vibrante e cheia de personalidade. Os cenários são densos, repletos de elementos animados que dão vida às ruas de Toronto e às áreas mais surreais que surgem ao longo da campanha. A variedade de inimigos é boa, e as animações são fluidas e expressivas, reforçando o impacto dos golpes e o humor visual característico da franquia.
Como se a obra original já não fosse viajada o suficiente, a temática interdimensional deste novo game permitiu que os artistas fossem além de simples paisagens urbanas, explorando ambientes mais abstratos e até absurdos — sempre com coesão estética e capricho em cada detalhe.

Na parte musical, temos outro acerto: a banda Anamanaguchi retorna para assinar a trilha, entregando um novo conjunto de faixas que mistura rock, chiptune e batidas eletrônicas com força e estilo. São músicas energéticas, marcantes e absolutamente alinhadas ao universo de Scott Pilgrim. Não há outra banda que combinaria tanto com este novo game, e é uma satisfação termos a Anamanaguchi retornando, tantos anos depois.
Por fim, vale ressaltar que o jogo chega localizado em português brasileiro. Não há dublagem — algo compreensível dentro da proposta –, mas a tradução cumpre bem seu papel ao tornar a experiência mais acessível para o público brasileiro.
Conclusão
Scott Pilgrim EX não reinventa a roda. E, sinceramente, nem precisava. Ele sabe exatamente quem quer agradar, e entende perfeitamente o que precisa fazer para isso.

O que temos aqui é um beat ’em up retrô delicioso, que combina gameplay ágil e responsivo, com uma pixel art maravilhosa e uma trilha sonora feita sob medida. Tudo isso sem contar a satisfação que é reencontrarmos alguns dos personagens mais queridos da cultura pop.
Somando tudo isso ao talento já comprovado da Tribute Games na produção desse tipo de experiência, o resultado não poderia ser diferente: um beat ’em up imperdível para quem é fã do gênero — e, principalmente, para quem é fã da turma do Scott Pilgrim e já se divertiu distribuindo sopapos com eles lá em 2010.

Se você se encaixa nesse perfil, pode vir sem medo. Scott Pilgrim EX tem tudo o que você precisa para se divertir de montão — seja em modo solo, ou com amigos no cooperativo.
Scott Pilgrim EX chega hoje (03/03), com versões para PC, PS4, PS5 (versão analisada), Xbox One, Xbox Series X|S, Nintendo Switch e Nintendo Switch 2.