Análise Arkade: Turbo Kid, um encontro do cinema cult com o metroidvania

17 de agosto de 2025

Turbo Kid é um jogo indie de 2024, que meio que continua a história de um filme indie de 2015. Agora, em 2025, ele chegou ao Nintendo Switch, e eu peguei uma carona nessa BMX para te contar tudo sobre o jogo!

Contexto e história

Turbo Kid (o jogo) foi desenvolvido pela Outerminds, em colaboração com os próprios cineastas do filme de 2015, justamente porque ele foi pensado para ser a continuação direta da trama original, que almeja transportar aquele universo pós-apocalíptico cheio de sangue, humor ácido e nostalgia para o mundo dos games.

O jogo (e o filme) ambientam-se em uma versão alternativa de 1997, onde a Terra tornou-se um deserto inóspito, dominado por gangues e figurões do crime. Neste cenário, surge nosso protagonista, um “nerdola” fã de quadrinhos que, montado em sua bike, torna-se uma espécie de super-herói, e vai ser a partir em uma jornada de sobrevivência e vingança contra um senhor da guerra tirano.

O game consegue capturar o espírito do longa, com inimigos grotescos, humor negro e uma estética oitentista “de VHS” bem forte. Essa fidelidade ao material original é louvável, mas sinto que ela comprometeu a chance do jogo viajar mais, extrapolar a proposta do filme e aprofundar melhor todo o rico universo que nos é apresentado.

Veja bem: o filme Turbo Kid mal passa de 1 hora e meia. Em um videogame, aquele mundinho que foi apresentado de forma apressada no filme pode virar um mundão de 20 e poucas horas. E, ainda que a duração do jogo passe das 10 horas, sinto que ele não se preocupa em expandir, aprofundar o universo que vimos no filme. É basicamente uma nova visita àquele universo, não uma expansão.

O universo de Turbo Kid, com toda sua mitologia pós-apocalíptica misturada a referências culturais dos anos 80, poderia render muito mais. O cenário está pronto para histórias paralelas, camadas adicionais de lore, construção de novos dramas e conflitos. Mas o jogo escolhe não ir por esse caminho, de modo que a rica ambientação acaba sendo apenas pano de fundo, quando poderia ser a estrela principal.

BMX, combate e exploração

A estrutura clássica de um metroidvania norteia toda a experiência de Turbo Kid: temos um mapa amplo, todo interconectado e cheios de atalhos, segredos e áreas que só poderão ser acessadas com equipamentos ou upgrades específicos. O mapa em si nem sempre é tão intuitivo, mas felizmente, navegar por ele acaba sendo prazeroso graças à implementação da BMX — nada mais justo, afinal, a bicicleta é um elemento central do filme Turbo Kid.

Felizmente, a Outerminds teve ótimas ideias para incorporar a BMX ao gameplay e à exploração. Depois de uma curta introdução em que vamos precisar recuperar nossos equipamentos, The Kid ganha a habilidade de convocar sua bicicleta praticamente a qualquer momento, e isso transforma (e agiliza) a maneira como exploramos e atravessamos o mapa.

O chão e o piso costumam se unir com bordas curvas, formando half pipes convenientemente posicionados que podem ser utilizados para ganhar altura, realizar manobras e até mesmo acessar áreas escondidas. Com alguns upgrades, a magrela passa a integrar até mesmo o combate. Essa integração da bike ao gameplay dá uma identidade imediata ao jogo, diferenciando-o de tantos outros metroidvanias que se apoiam em habilidades manjadas de locomoção.

Tipo assim

Mas não é só isso: o combate é outro elemento importante do jogo. Ele começa simples, com um blaster (que lembra muito o braço do Mega Man) básico, mas evoluindo conforme novas armas e habilidades são desbloqueadas. Não há uma grande variedade de armas, mas todas são legais de usar e têm bastante impacto — fique avisado que o jogo é bem sangrento e explícito na sua pixel art.

Apesar destes acertos, uma coisa que fica clara depois das primeiras horas é que falta um pouco de variedade nas situações apresentadas. Embora esteja em uma missão supostamente importante, Turbo Kid rapidamente vira o “garoto de recados”, que fica buscando coisas para os outros e levando itens do ponto A ao ponto B. Enfrentar os mesmos tipos de inimigos e refazer os mesmos tipos de desafios acaba tornando a experiência um bocado repetitiva e previsível.

Audiovisual

No quesito audiovisual, Turbo Kid consegue ser evocativo e nostálgico do jeito certo: a pixel art é muito charmosa e detalhada, carregando a vibe dos jogos dos anos 80 e 90, mas sem as limitações da época. O design dos personagens é muito expressivo. Há uma grande variedade de cenários e biomas: desertos devastados, bases militares, ruínas urbanas e áreas com uma pegada de fantasia pós-apocalíptica.

Apesar da qualidade, é difícil dizer que o jogo impressiona dentro de um nicho lotado de exemplos melhores. Títulos como Blasphemous 2 e mesmo títulos que não são metroidvanias, como o recente Bionic Bay, mostraram como a pixel art pode ser não só nostálgica, mas também surpreendente. Turbo Kid em comparação, é competente, mas não é particularmente ousado. As animações, por exemplo, carecem de dinamismo, e os cenários passam uma sensação estática demais — mais elementos móveis ou efeitos de parallax seriam bem-vindos para tornar o visual mais rico.

Na trilha sonora, no entanto, não há do que reclamar. A banda Le Matos, responsável também pela música do filme, entrega uma seleção fantástica de sintetizadores e batidas eletrônicas que são o puro suco dos anos 1980.

É um daqueles casos em que a música eleva a experiência, trazendo tensão, ritmo e até uma certa melancolia, em momentos pontuais. Os efeitos sonoros cumprem seu papel e ajudam a dar peso às batalhas e à exploração, mas é a trilha que realmente brilha e se torna um dos grandes diferenciais do jogo.

Conclusão

Turbo Kid é um jogo que cumpre o esperado de um metroidvania 2D, mas não vai muito além disso. Ele tem algumas ideias diferentes interessantes, como a presença da bicicleta e da forma como ela transforma nossa locomoção pelo mundo. A trilha sonora é impecável, e a pixel art é super charmosa. Mas, ainda assim, este universo podia (e merecia) render mais.

Fico com a impressão de que o jogo não atinge seu potencial porque faltou um pouco de ousadia em sua concepção. Ousadia em inovar, em aprofundar este universo tão nostálgico e interessante, em criar situações que não transformem o herói em um simples garoto de recados, em manter a jornada interessante e variada ao longo de toda sua duração.

Turbo Kid é um jogo que entretém, mas raramente surpreende. Falta aquele tempero, aquele algo a mais. E, em um gênero tão abarrotado de opções quanto o dos metroidvanias 2D, ter este “algo a mais” é o que separa um jogo ok de algo realmente memorável.

Turbo Kid está disponível para PC e Nintendo Switch (versão analisada). O game possui menus e legendas em português brasileiro.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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