O que cada conversa misteriosa após os créditos na série Metal Gear Solid revela sobre a lore da franquia?

17 de maio de 2026

Quem joga os games da série Metal Gear Solid com um pouco mais de atenção para o enredo, termina a campanha principal e, ao esperar pelos créditos finais, se depara com uma sequência extra, como as famosas cenas pós-créditos que a Marvel popularizou anos depois em seus filmes: uma conversa por telefone ou diálogo entre personagens que revela detalhes ocultos da trama.

Essas cenas, presentes em praticamente todos os títulos da série de Hideo Kojima a partir de Metal Gear Solid e lançados pela Konami, servem para fechar pontas soltas, expor traições ou preparar elementos que aparecem em jogos posteriores. Elas fazem parte da complexa lore do jogo, que trabalha em uma história complexa de espionagem, clones e organizações secretas.

Assim, ao invés de encerrar tudo de forma normal com o fim das cutscenes, os finais dos pós-créditos, com suas conversas misteriosas onde apenas ouvimos a voz dos envolvidos, deixam pistas que incentivam revisitar o jogo ou conhecer mais a saga. A seguir, vamos juntos analisar cada uma dessas conversas, que amplificam ainda mais uma lore enorme e complexa como os da série Metal Gear Solid.

Em Metal Gear Solid (1998)

Depois dos créditos e do incidente em Shadow Moses resolvido, Revolver Ocelot faz uma ligação para o presidente dos Estados Unidos. Ele confirma que conseguiu os dados do Metal Gear REX, menciona que ninguém desconfiou de sua lealdade (exceto por Donald Anderson, que ele eliminou de propósito, coisa que no game fica no ar que havia sido um acidente) e avisa que o vírus FOXDIE já está ativado em Solid Snake.

No final com Meryl viva, revela ainda que o próprio Presidente é Solidus Snake, clone do projeto Les Enfants Terribles, e que uma mulher (a EVA) está sob vigilância. Essa ligação mostra cedo como Ocelot, que é basicamente um “agente sabonete” no game, atuando em múltiplas frentes e conecta o jogo a um conceito maior de manipulação genética que domina a série, e que iria evoluir no futuro.

Além disso, a conversa deixa clara que os Estados Unidos, através de seu atual presidente, tem outros interesses que não apenas a segurança nacional.

Em Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty (2001)

Após o jogador terminar um dos jogos com história mais confusa de todos os tempos (e que funcionou mesmo assim) Otacon entra em contato com Solid Snake para relatar a análise dos dados retirados do Arsenal Gear.

Ele descobre que um nome da lista do Comitê dos Patriots pertencia a um grande financiador deste grupo. Mas existe um pequeno e intrigante detalhe: todos os fundadores desse comitê já estavam mortos havia pelo menos cem anos. Snake reage com surpresa. Essa conversa é o prego final em um jogo que, em 2001, já falava de controle midiático, manipulação global e fake news, temas mais atuais do que nunca.

Isso não é só “uma surpresa”, é o primeiro grande abalo na percepção de realidade do jogador, mostrando que os Patriots já não são humanos, mas um sistema de IA (GW/AI) que controla o mundo via manipulação midiática e informação, enquanto a conversa cumpre o papel de questionar quem realmente controla os eventos, enquanto prepara terreno para Metal Gear Solid 4.

Em Metal Gear Solid 3: Snake Eater (2004)

Aqui a sequência é mais longa e envolve duas ligações de um jovem Revolver Ocelot, que desde cedo já se envolvia nesta completa lore, com seus objetivos sempre obscuros. Primeiro, ele fala com um superior da KGB, informa sobre a destruição de Groznyj Grad e do laboratório de Granin, justifica as perdas e sugere usar o conhecimento da operação para chantagem futura contra os americanos.

Depois de desligar, Ocelot liga para o diretor da CIA e revela ser agente duplo (ou triplo). Ele confirma que The Boss cumpriu a missão, que o Legado dos Filósofos está em mãos americanas, que o microfilme entregue aos chineses era falso e que metade do dinheiro ainda pode estar com os soviéticos.

Ainda menciona os blueprints de uma nova arma enviados para a CIA e deixa escapar que conhece Big Boss pelo nome verdadeiro: John. O diálogo reforça o histórico de traições de Ocelot e prepara a formação dos Patriots, que dominarão a lore pelos próximos 50 anos do universo.

Em Metal Gear Solid: Portable Ops (2006)

Após os créditos, Revolver Ocelot recebe uma ligação de seu “empregador”, ficando visivelmente surpreso ao descobrir a identidade da pessoa do outro lado da linha (Major Zero). Ele confirma que matou o Diretor da CIA (fazendo parecer suicídio), recuperou o Legado dos Philosophers completo e revela que o lançamento do míssil nuclear por Gene não fazia parte dos planos deles. Por fim, admite que Snake (Big Boss) foi usado como “plano de segurança” o tempo todo.

Essa cena é uma das mais importantes da saga: é o momento que oficializa o nascimento dos Patriots como organização secreta. Mostra Ocelot já trabalhando diretamente para Zero logo após os eventos de 1964 e como a manipulação em larga escala começou a ser construída.

Em Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots (2008)

Em um tom mais calmo e reflexivo, já que este game simboliza o fim da saga em sua linha do tempo, Otacon oferece cigarros a Solid Snake, que decide parar de fumar. Snake comenta que quer ver o novo mundo que ajudou a criar, mesmo com o pouco tempo que lhe resta. Otacon pede para acompanhar esses dias finais, citando também que não quer comer sozinho as refeições preparadas por Sunny. No fim, Sunny chama todos para ver os ovos que ela preparou.

Diferente das ligações frias de espionagem, essa cena fecha o arco de Snake com rotina, ovos fritos, paz e companheirismo após décadas de guerra.

Em Metal Gear Solid: Peace Walker (2010)

Aqui temos duas conversas pós-créditos. Após o Capítulo 4, Kazuhira Miller chega ao local onde Big Boss está e tenta convencê-lo a voltar para a Mother Base, dizendo que todos estão esperando por ele. Big Boss recusa, cita a mensagem final da Boss (“nunca largue sua arma”) como uma traição e declara que seguirá um caminho diferente. No final, ele afirma: “A partir de agora, me chamem de Big Boss”.

Após o Capítulo 5 (o true ending), há uma segunda conversa que reforça a virada definitiva de Big Boss para a criação de Outer Heaven. Além disso, ao completar todas as Extra Ops, desbloqueia-se o Secret File “The Phone Call”, uma ligação grampeada de Kaz revelando mais camadas de conspiração com a CIA e Cipher.

Essas cenas marcam o exato momento em que Big Boss decide se tornar o “vilão” da série, mostrando o nascimento simbólico da Outer Heaven como evento que marcou essa virada, e que foi explorada nos jogos originais de MSX..

Em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain (2015)

Após a missão Truth, Kazuhira Miller aparece visivelmente abalado ao descobrir que Venom Snake não é o verdadeiro Big Boss. Ocelot explica que o Big Boss real está na África do Sul criando a Outer Heaven.

Miller decide então fortalecer Venom Snake e treinar os filhos para, no futuro, confrontar o verdadeiro Big Boss. Ocelot avisa que, quando chegar a hora de escolher lados, ‘cada um apoiará um dos filhos’ e eles terão que se enfrentar.

E de fato esse dia chegou em Metal Gear Solid 1, no ano de 2005, em uma série de eventos que transformou Miller em uma das peças mais importantes da trama do game, e da busca dos objetivos da FOX HOUND do game.

Essa conversa deixa claro o papel de Venom como “fantasma”, servindo para um objetivo ainda maior por parte do Big Boss original, e fecha o ciclo da série mostrando como as divisões internas da Diamond Dogs guiaram a lots do jogo nos anos posteriores.

E o Ghost Babel, o Metal Gear Solid para o Game Boy Color?

Não, o game não tem uma conversa pós-créditos, mesmo que fosse apresentada apenas por textos, já que o Game Boy Color não poderia trazer recursos como conversas em áudio. Mas o motivo é ainda mais simples: o jogo não é canônico.

A versão portátil não faz parte da saga original, sendo lançado apenas para suprir a demanda por versões portáteis de grandes jogos para o GBC, algo comum naqueles dias. Para fazer o game funcionar, ele trabalha com uma versão alternativa após o primeiro Metal Gear, de MSX, e por isso, ignora Metal Gear 2, o incidente de Shadow Moses e tudo o mais que a franquia apresenta, no passado e no futuro.

O jogo foi feito pela Konami Computer Entertainment Japan (KCEJ) em colaboração com a desenvolvedora Tose e, embora tenha Hideo Kojima creditado como produtor, a supervisão foi superficial, apenas para garantir que o mínimo envolvendo a franquia estivesse dentro dos conformes, mas ele não escreve a história e com isso, também não acrescenta pós-créditos, o que não seria necessário num jogo em uma lore alternativa.

O jogo tem o seu brilho próprio, uma história satisfatória para justificar sua existência (uma missão nova de Snake contra um Metal Gear diferente), mas sem qualquer ligação com os Patriots, Ocelot, Zero, Les Enfants Terribles ou Outer Heaven. Por isso, não avança nem fecha nada da lore da franquia.

Linha do Tempo das Cenas Pós-Créditos de Metal Gear Solid

Vamos resumir tudo o que conferimos juntos? Pois aqui está uma linha do tempo cronológica da lore (ano em que os eventos acontecem no universo do jogo), com um breve resumo de cada cena pós-créditos (ou equivalente). Todas são canônicas e servem para conectar a saga.

  • 1964 – Metal Gear Solid 3: Snake Eater: Um jovem Revolver Ocelot faz duas ligações: primeiro para a KGB (relata a destruição de Groznyj Grad e sugere chantagem futura contra os EUA) e depois para o diretor da CIA (revela ser agente triplo, confirma que The Boss cumpriu a missão, o Legado dos Philosophers está com os americanos, o microfilme entregue aos chineses era falso e chama Big Boss pelo nome verdadeiro: John).
  • Objetivo: planta as sementes da formação dos Patriots.
  • 1970 – Metal Gear Solid: Portable Ops: Ocelot recebe uma ligação surpresa de seu verdadeiro empregador: Major Zero. Confirma que matou o Diretor da CIA (disfarçado de suicídio), recuperou o Legado dos Philosophers completo e revela que Big Boss foi usado como “plano de segurança” o tempo todo.
  • Objetivo: oficializa o nascimento dos Patriots como organização secreta.
  • 1974 – Metal Gear Solid: Peace Walker: Aqui temos duas cenas:

1. Após o Capítulo 4 – Kaz tenta convencer Big Boss a voltar para a Mother Base; ele recusa, cita a traição da mensagem de The Boss e declara: “A partir de agora, me chamem de Big Boss”.

2. Após o Capítulo 5 (true ending) + Secret File “The Phone Call” (desbloqueado nas Extra Ops) – ligação grampeada de Kaz revela conspiração com a CIA/Cipher.

Objetivo: marca o momento em que Big Boss decide criar a Outer Heaven e se tornar o “vilão” da saga.

  • 1984 – Metal Gear Solid V: The Phantom Pain: Após a Missão 46 (Truth), Kaz descobre que Venom Snake é apenas um “fantasma”. Ocelot revela que o Big Boss verdadeiro está na África do Sul criando a Outer Heaven. Kaz decide fortalecer Venom e “treinar os filhos” para confrontá-lo no futuro. Ocelot avisa: “Quando chegar a hora, cada um apoiará um dos filhos”.
  • Objetivo: explica a divisão interna da Diamond Dogs e prepara os eventos de 2005, além de criar elos com os jogos originais de MSX.
  • 2005 – Metal Gear Solid (1998): Ocelot liga para o Presidente dos EUA (Solidus Snake). Confirma os dados do REX, a morte intencional de Donald Anderson e que o vírus FOXDIE já está em Solid Snake. No final com Meryl viva (o canônico), revela que o próprio Presidente é clone do projeto Les Enfants Terribles e que EVA está sob vigilância.
  • Objetivo: mostra Ocelot trabalhando em múltiplas frentes e em algo muito maior do que Shadow Moses
  • 2009 – Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty: Otacon liga para Solid Snake com a análise dos dados do Arsenal Gear: um nome da lista dos Patriots pertence a um grande financiador, mas todos os fundadores do comitê já estão mortos há mais de 100 anos.
  • Objetivo: revela que os Patriots não são mais humanos, mas um sistema de IA que controla o mundo via informação.
  • 2014 – Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots: Em uma cena calma e reflexiva, Otacon oferece cigarros a Snake, que decide parar de fumar. Os dois conversam sobre o “novo mundo” que ajudaram a criar, companheirismo e as refeições preparadas por Sunny. No final, Sunny chama todos para ver os ovos que cozinhou.
  • Objetivo: fecha o arco de Solid Snake com paz, rotina e companheirismo após décadas de guerra.

Essa linha do tempo mostra como Kojima conectou toda a saga através de diálogos curtos e enigmáticos: cada cena pós-créditos é um “nó” que une passado, presente e futuro da lore.

Por que essas conversas são recorrentes na série

Hideo Kojima usou esse recurso para manter a história conectada ao longo de décadas, mesmo com lançamentos espaçados e uma linha do tempo que não é linear. Muitas vezes, as ligações envolvem Ocelot ou Otacon, personagens que funcionam como pontes entre jogos. Elas não são obrigatórias para entender o enredo principal, mas enriquecem quem presta atenção e incentiva discussões entre fãs sobre as múltiplas camadas de conspiração.

Se você jogou algum título e pulou os créditos, vale voltar para conferir. Elas transformam o final de cada jogo em uma porta para o próximo capítulo da lore.

Fontes consultadas

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Junior Candido

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