A Bíblia em Assassin’s Creed: Como a franquia conta eventos de Gênesis a Apocalipse pela mitologia dos Isu

A franquia Assassin’s Creed da Ubisoft, além de abordar diversos elementos da história da humanidade, também mantém elementos da Bíblia dentro seu universo de ficção científica de forma consistente ao longo dos jogos.
Em vez de tratar as narrativas religiosas como uma lenda, a série apresenta os eventos narrados nas Escrituras com uma explicação alternativa, dentro da lore da franquia, baseada nos Isu, uma civilização avançada que existiu antes da humanidade da série.
Entre o confronto histórico entre Assassinos e Templários, a série transformou passagens do Gênesis, a vida de Jesus Cristo e o Apocalipse de João em eventos ligados a tecnologia antiga e conflitos entre liberdade e controle. Os jogadores descobrem esses detalhes principalmente por meio de puzzles, glifos e arquivos no Animus, que revelam memórias ancestrais e visões do passado.
Um dos pontos bem interessantes da série é o contraste entre a versão bíblica tradicional e a visão dos Isu. Enquanto a Bíblia descreve a história da humanidade antiga com foco no antigo povo hebreu, na vida de Jesus Cristo e na expansão da igreja primitiva pelo mundo conhecido através dos apóstolos, a lore de Assassin’s Creed atribui os famosos fatos sobrenaturais descritos nos textos a artefatos chamados Peças do Éden — dispositivos criados pelos Isu para manipular mentes e corpos humanos.
Essa camada adiciona profundidade à trama, conectando o conflito eterno entre Assassinos (defensores da livre vontade) e Templários (buscadores de ordem) a origens que vão, literalmente, desde o Jardim do Éden.
O Gênesis e a rebelião de Adão e Eva no Jardim do Éden
No livro de Gênesis, o primeiro da Bíblia, Adão e Eva são apresentados como os primeiros humanos, criados por Deus e colocados no Jardim do Éden, para cuidar do local e criarem, a partir dali, a humanidade.
Eles comem o fruto proibido da árvore do conhecimento, ganham consciência e são expulsos de lá como punição pelo pecado original, sendo narrado como a entrada do pecado no mundo, mas com a promessa de um salvador futuro, que iria restaurar a humanidade corrompida.
O texto original (Gênesis 2-3) foi encontrado e composto como conhecemos através dos séculos, com Moisés sendo creditado como o autor mais provável. E interpretações históricas judaico-cristãs tratam o episódio como o início da humanidade e da queda.
Não existem, no entanto, evidências arqueológicas diretas nem do Jardim e nem de Adão e Eva, com estudiosos veem o relato como mitológico, ligado a tradições antigas do Oriente Médio sobre criação e desobediência. Há, ainda, visões cristãs que entendem que, embora tenha existido um evento de queda da humanidade, Adão, Eva e o Jardim são uma alegoria, que representariam de forma dramática um evento real que ocasionou a corrupção da humanidade, criada de forma perfeita.
Mas em Assassin’s Creed, o Jardim do Éden era diferente: uma cidade construída pelos Isu, não um paraíso divino. Os Isu criaram os humanos como mão de obra escrava, modificando seu DNA para que obedecessem aos comandos das Peças do Éden. Adão e Eva, os primeiros híbridos entre Isu e humanos, resistiam naturalmente a esse controle por causa de sua biologia única.
Assim, Eva roubou uma Maçã do Éden (um dispositivo de controle mental que na lore cumpre o papel do fruto proibido), despertou Adão e liderou a fuga. Os dois tentaram escapar correndo e escalando estruturas da cidade, mas foram detidos por uma força desconhecida. Esse ato de rebelião deu início à Guerra entre Humanos e Isu e simboliza a busca pela livre vontade, se posicionando como de forma semelhante à “busca pelo conhecimento do bem e do mal”, mas mudando o foco de desobediência para confronto.
O momento exato aparece no vídeo “The Truth”, desbloqueado em Assassin’s Creed II pelos glifos deixados por Clay Kaczmarek (descendente de Adão). Al Mualim, mentor dos Assassinos no primeiro jogo, usa a história para explicar o poder de outra Maçã do Éden a Altaïr.
Os filhos de Adão e Eva, como Caim e Abel, também aparecem: Caim, que no texto bíblico matou o irmão por inveja relacionada as ofertas direcionadas para Deus, no game toma essa atitude para tomar a Maçã, tornando-se o primeiro “Templário” na lore. Tudo isso reforça que a Bíblia preservou memórias distorcidas de eventos reais na visão da franquia.
A trajetória da Mortalha do Éden através da Bíblia: de José do Egito a Davi e Golias

A Mortalha do Éden (Shroud of Eden), uma das Peças do Éden mais importantes da lore, também é representada em outros eventos narrados na Bíblia, antes de chegar a Jesus Cristo. Criada pelo cientista Isu chamado Consus como equipamento médico de campo durante a Guerra de Unificação dos Isu, ela funciona como um regenerador de matéria baseado em nanotecnologia. Capaz de curar ferimentos graves e restaurar o corpo a um estado saudável pré-definido, a Mortalha também abriga a consciência de Consus, que pode se comunicar ou possuir temporariamente quem a usa.
Na visão da franquia, essa mesma Mortalha (ou versões semelhantes) aparece reinterpretada na história de José, filho de Jacó, que recebeu uma delas do pai, representada como o manto de muitas cores descrito no Livro do Gênesis (Gênesis 37). O artefato teria sido usado para proteção ou cura, transformando o objeto simbólico da inveja dos irmãos de José em uma tecnologia Isu real.
Anos depois, por volta de 970 a.C., o futuro rei Davi vestiu a Mortalha durante o confronto com Golias. A vitória improvável do jovem contra o gigante filisteu, contada em 1 Samuel 17, ganha explicação na lore: o poder regenerador e protetor do artefato ajudou Davi a superar a desvantagem física. Davi havia rejeitado a armadura real do então rei de Israel, Saul, e enfrentou Golias, na lore da série, com a avançada tecnologia que rendeu a vitória contra os filisteus.
Esses detalhes vêm de análises de glifos em Assassin’s Creed II, do banco de dados de jogos posteriores e do material de Project Legacy, que mapeia o caminho da Mortalha ao longo da história. A Bíblia registra o manto de José e a luta de Davi contra Golias como eventos de fé e providência divina; a franquia os apresenta como uso prático de tecnologia antiga, preservada em mitos e tradições orais
Jesus Cristo e os milagres como tecnologia dos Isu

Passados milhares de anos, e eventos como a chegada e saída do Egito, ascensão e queda do povo hebreu na antiga Israel e o exílio na Babilônia, seguida pela expansão de Alexandre o Grande e depois do Império Romano, a Bíblia chega em Jesus Cristo, descendente do antigo Rei Davi, que segundo as Escrituras é o Deus que se tornou homem, para ser o salvador descrito em Gênesis.
A Bíblia apresenta Jesus Cristo como o Messias que veio como este salvador, pregando para multidões, realizando milagres (transformação de água em vinho, curas, ressurreição) e questionando os líderes judeus daquele tempo.
Como consequência, foi perseguido por estes lideres, e foi crucificado sob ordens de Pôncio Pilatos por volta de 30-33 d.C., ressuscitando três dias depois. Jesus, como indivíduo histórico, aparece em fontes confiáveis, como nos relatos de Flávio Josefo, um destes líderes judeus que após a queda de Jerusalém foi levado para Roma e de lá escreveu seu famoso relato que narra toda a história do povo hebreu, citando Jesus nestes textos como alguém que fez “feitos admiráveis” e um “mestre dos que buscam a verdade”.
Tácito, um historiador romano, também cita Jesus em seus relatos, falando dele como um pregador que foi executado por romanos, além de falar da perseguição de Nero aos primeiros cristãos. Mas as questões envolvendo milagres e a ressurreição são elementos que dependem da fé dos fiéis cristãos para terem crédito, pois embora estejam documentados em quatro evangelhos, não há evidências históricas ou arqueológicas sobre eles.
Na lore de Assassin’s Creed, Jesus também é retratado como uma figura história, mas dentro do universo da franquia ele agia através de uma Mortalha do Éden (Shroud of Eden), uma Peça do Éden criada pelo Isu chamado Consus. Essa mortalha, feita de nanotecnologia regenerativa, curava ferimentos graves e permitia efeitos que pareciam milagrosos, inclusive a transformação de água em vinho, segundo referências nos glifos.
A Ordem dos Antigos (predecessora dos Templários) notou o crescimento de seguidores de Jesus e orquestrou sua crucificação para recuperar o artefato. Os discípulos resgataram o corpo (baseados em relatos bíblicos que apontam que guardas foram subornados para dizer isso quando não viram o corpo de Cristo no sepulcro) e usaram a Mortalha na tentativa de revivê-lo.
No entanto, a lore deixa claro que as Mortalhas curam ou restauram, mas não ressuscitam mortos. Uma hipótese dentro do universo do jogo é que Jesus sobreviveu à execução e a tecnologia apenas cicatrizou os ferimentos, o salvando e fazendo com que se recuperasse três dias depois.
Esses detalhes vêm principalmente dos glifos de Assassin’s Creed II (Glyph #7) e são confirmados em entradas de banco de dados de jogos posteriores, como Unity e Syndicate. João Batista e o apóstolo Pedro também usaram outras Peças do Éden (bastões), reforçando a ideia de que a Bíblia registra o uso de tecnologia Isu como poder divino.
O Apocalipse de João e as visões do fim dos tempos

O Apocalipse de João (ou Livro da Revelação), escrito por volta de 95 d.C. durante as perseguições romanas contra os primeiros cristãos, descreve as visões de fim do mundo pela ótica do apóstolo, a ascensão da besta, o número 666 (que há uma interpretação de que seja uma referência escondida a Nero) e o julgamento final. O livro, por narrar eventos futuros, é interpretada por cristãos como profecia futura e garantia do fim de todo o mal na humanidade.
Em Assassin’s Creed, as conexões são mais indiretas, mas aparecem nos mesmos glifos de Assassin’s Creed II. Mensagens deixadas por Clay Kaczmarek incluem referências diretas a Apocalipse 22:13 (“Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim”) e 13:16-18 (a marca da besta e o 666), ligadas ao controle global que os Templários buscam via Abstergo.
Esses números aparecem nas paredes do quarto do Animus, sugerindo que a “besta” simboliza o domínio tecnológico e a perda de liberdade, os temas centrais da franquia.
A catástrofe que destruiu os Isu (um flare solar previsto por figuras como Minerva) faz referência as visões de destruição em massa do Apocalipse. A lore sugere que as profecias bíblicas são, na verdade, as memórias coletivas dessas questões envolvendo os Isu, adaptadas ao contexto religioso. Não há um “Assassin’s Creed Apocalipse” na franquia (apesar de vivenciarmos um pouco do Ragnarok viking em Valhalla), mas o tema de fim dos tempos sob a ótica cristã permeia a narrativa moderna da série, especialmente em Desmond Miles e as previsões de 2012.
Contexto da realidade dentro da ficção

A Ubisoft construiu a lore ao longo de quase 20 anos, usando os Isu para explicar mitos de várias culturas, envolvendo não só as questões envolvendo os cristãos, mas também gregos, egípcios e nórdicos, entre vários outros povos ou grupos históricos.
Os próprios jogos da série apresentam estes temas em elementos secundários (Assassin’s Creed II é o principal repositório de glifos), DLCs como The Lost Archive e materiais complementares como o banco de dados e romances. Não há declarações públicas de desenvolvedores citando intenção direta de “explicar a Bíblia”, mas uma análise sobre a série notam que Assassin’s Creed reinterpreta mitos religiosos como tecnologia avançada, mantendo neutralidade ao tratar fé como perspectiva humana sobre fatos Isu.
Para o jogador, isso cria camadas: a Bíblia continua sendo o registro histórico-cultural, enquanto Assassin’s Creed oferece uma lente científica-ficcional. Adão e Eva deixam de ser humanos caídos e viram os primeiros Assassinos. Jesus Cristo usa tecnologia antiga para se curar. O Apocalipse ganha tom de aviso contra controle tecnológico baseado em um caos que já aconteceu com outra civilização. O resultado é uma narrativa bem interessante que convida a refletir sobre livre arbítrio, poder e memória coletiva, que respeita e não busca alterar a fé de ninguém, mas que enriquece o universo dos jogos.
Se você joga a série, vale voltar aos glifos de Assassin’s Creed II ou explorar os bancos de dados mais recentes. A mitologia dos Isu não substitui a Bíblia, mas mostra como a franquia usa história real para construir a sua própria.
Fontes consultadas:
- Adam – https://assassinscreed.fandom.com/wiki/Adam
- Eden – https://assassinscreed.fandom.com/wiki/Eden
- Jesus of Nazareth – https://assassinscreed.fandom.com/wiki/Jesus_of_Nazareth
- History of the Pieces of Eden – https://assassinscreed.fandom.com/wiki/History_of_the_Pieces_of_Eden
- Biblical Allusion: Assassin’s Creed – https://nikkipruitt182.wordpress.com/2013/11/13/biblical-allusion-assassins-creed/
- ‘The poor carpenter’: Reinterpreting Christian Mythology in the Assassin’s Creed Game Series – https://www.academia.edu/26652504/_The_poor_carpenter_Reinterpreting_Christian_Mythology_in_the_Assassin_s_Creed_Game_Series
- The Story of the Shroud in 12 acts – Part 1 – https://www.accesstheanimus.com/The_Story_of_the_Shroud_in_12_acts_Part1.html
- Assassin’s Creed Ignoring Its Adam and Eve Lore is Saddening – https://gamerant.com/assassin-creed-adam-eve-lore-isu-mythology-genesis-ignored/
- Josephus and Jesus: New Evidence for the One Called Christ – https://academic.oup.com/book/60034/chapter/513641146
- Ancient historical evidence on the death of Jesus Christ on the cross – https://www.academia.edu/36422346/Ancient_historical_evidence_on_the_death_of_Jesus_Christ_on_the_cross
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