Melhores do Ano Arkade 2025: Dispatch

28 de dezembro de 2025

Quem diria que, em pleno 2025, um adventure episódico no molde clássico dos jogos da Telltale Games surgiria como uma das maiores surpresas do ano. Dispatch não apenas resgata esse formato, como prova que ele ainda tem muito a oferecer quando colocado nas mãos certas. Não por acaso, o jogo garante seu espaço na nossa lista de Melhores Jogos do Ano aqui da Arkade!

Dispatch tem uma premissa que já chama atenção: o jogo se passa em um mundo onde super-heróis são agenciados e contratados, quase como funcionários terceirizados do combate ao crime. A comparação com The Boys é inevitável, tanto pelo tom quanto pela forma como o jogo desmistifica a ideia de heroísmo. Nesta distopia super-poderosa, assumimos o papel de Robert Robertson, herói “aposentado” que, impossibilitado de sair às ruas para combater o crime, passa a coordenar uma equipe improvável de ex-vilões tentando se reinventar como heróis — uma dinâmica bem Esquadrão Suicida.

Mas, apesar da premissa curiosa, o que realmente faz Dispatch brilhar não é nem o universo em si, e sim os personagens que o habitam. O jogo entende que, em uma experiência narrativa, relações importam mais do que qualquer coisa. E nesse aspecto, Dispatch acerta em cheio, criando conflitos e situações que demandam respostas rápidas, e deixam o jogador naquela “sinuca de bico” que mexe com as emoções.

Ainda que o jogo tenha uma história bem amarradinha, há inúmeras bifurcações, e as decisões que tomamos ao longo da campanha têm peso narrativo. Não apenas porque mudam eventos futuros, mas porque afetam diretamente a forma como os personagens nos enxergam e se relacionam entre si. Quando a mensagem “fulano vai se lembrar disso” aparece na tela, a gente já se sente mal: nossas escolhas deixam marcas que serão levadas em consideração, alterando a dinâmica do grupo, abrindo (ou fechando) caminhos narrativos e criando consequências que nem sempre são imediatas. Isso gera uma tensão constante, porque sabemos que nada passa despercebido.

Nada disso seria tão impactante sem personagens marcantes — e, felizmente, Dispatch também acerta nisso. Os personagens são excelentes, carismáticos e cheios de personalidade — um baita trabalho de escrita que ganha ainda mais força graças a um trabalho de atuação e dublagem impecável, com direito a nomes famosos (como Aaron Paul, de Breaking Bad) e grandes estrelas da dublagem de games (Laura Bailey, Erin Yvette, Alanah Pearce) entregando interpretações memoráveis, interações naturais e conversas que faz com que a gente torça e se importe com aqueles personagens.

O audiovisual reforça ainda mais esse envolvimento. Dispatch é lindíssimo: jogá-lo é como assistir a um desenho animado interativo de alto orçamento, com direção de arte estilizada, animações expressivas e um cuidado estético que eleva a apresentação como um todo.

E, claro, não poderíamos esquecer do mini-game que dá nome ao jogo — que é justamente o ato de despachar os heróis para missões. Tudo acontece por meio de uma interface computacional minimalista, mas o resultado é surpreendentemente divertido. Há raciocínio envolvido, decisões estratégicas, sucessos, fracassos… é simples e viciante. É até fácil enxergar o potencial deste mini-game em uma experiência procedural ad infinitum. O que não é o caso aqui: o jogo sabe onde está seu foco. Esse sistema existe para complementar a narrativa, não para roubar a cena. Dispatch é, acima de tudo, um jogo narrativo, interessado em contar uma boa história.

E que história. A parceria do AdHoc Studios com o pessoal da Critical Role — trupe conhecida por suas campanhas de RPG emocionantes — fez muito bem ao jogo (primeiro do estúdio!). A qualidade narrativa é do nível dos tempos áureos da Telltale Games — de onde saíram muitos dos profissionais do AdHoc Studios — e esta herança que se faz presente em cada diálogo, cada conflito. Fazia tempo que um jogo episódico não me prendia dessa forma.

Quando cheguei ao final, fiquei satisfeito com o desfecho que vi, mas também com aquela sensação clássica e poderosa dos bons jogos narrativos: o famoso “e se?”. E se eu tivesse feito outras escolhas? E se tivesse me aproximado mais de outro personagem? Como a história teria se desenrolado? A vontade de rejogar não vem por obrigação, mas por curiosidade genuína. Felizmente, Dispatch é bom o suficiente para justificar uma segunda jornada.

Por tudo isso, Dispatch foi uma grata surpresa em 2025. Um jogo que resgata um formato meio esquecido, prova sua relevância e entrega uma narrativa envolvente, personagens memoráveis e escolhas que realmente importam. E é por tudo isso que ele figura, com mérito, na nossa lista de Melhores Jogos do Ano.

Relembre nossa análise completa (sem spoilers) de Dispatch.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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