Savatage retorna como fênix com show épico em São Paulo, após dez anos longe dos palcos

22 de abril de 2025
Reinaldo Canto / Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Após dez anos (ou vinte, se estiver pensando em shows fora de festivais), “minha Nossa Senhora, o impossível aconteceu Meu Deus do Céu”! O Savatage estava de volta aos palcos, para reencontrar seus fãs fiéis, que aguardaram pacientemente por este momento.

Afinal, foram 10 anos sem shows completos, e duas décadas sem apresentações fora de festivais.

A fidelidade dos fãs do Savatage é algo incontestável. Apesar da perda de Criss Oliva nos anos 90, da resiliência do grupo em se manter ativo com mudanças constantes na formação e dos recentes problemas de saúde de Jon Oliva, que impediram a presença do cantor neste momento tão aguardado, os fãs estavam lá. No Espaço Unimed, na última segunda-feira, 21 de abril, eles compareceram com camisetas da banda, ansiosos pelo primeiro show completo do grupo em décadas.

A banda havia cravado seu retorno oficial no Monsters of Rock, com uma apresentação de destaque. No entanto, era necessário um show mais intimista, reunindo apenas os fãs fiéis que conhecem a obra do Savatage e reconhecem que, apesar de não receberem o devido destaque na comunidade do heavy metal, o grupo é uma das maiores bandas do gênero em todos os tempos.

Antes do reencontro, os presentes puderam apreciar mais uma apresentação de qualidade do Opeth. A banda sueca, que também esteve no evento do último sábado, foi novamente surpreendida com a calorosa recepção do público. Mikael Åkerfeldt, vocalista da banda, interagiu bastante com a plateia, brincando que eram ‘apenas uns Gremlins no meio dos Monstros do Rock’ e declarando que seu objetivo era ‘deixar todos surdos antes do Savatage’.

Mas o fã do Savatage, maioria óbvia no local nesta noite, reconhece um som de qualidade, bem construído e executado. E foi com este respeito que o Opeth tocou, sendo ovacionado pelo público e tendo suas músicas, especialmente as mais populares, como The Leper Affinity, cantadas por todos que conheciam o trabalho da banda.

O Opeth, de fato, não toca para que cabeças sejam chacoalhadas e gritos sejam entregues ao palco, mas é admirado por quem gosta de uma música bem feita. E foi o que aconteceu nesta apresentação, com um público que não é o seu valorizando cada nota e aplaudindo cada música tocada pelo grupo. Se a banda foi bem tratada no Monsters, na apresentação de ontem o respeito foi ainda maior.

Mas, com o adeus dos suecos, enfim o reencontro começou. E em grande estilo, com The Ocean e Welcome sendo não só apreciadas, como cantadas a plenos pulmões, tanto por Zak Stevens como pelo público presente. O reencontro, apesar de esperado, aconteceu com algumas dificuldades. Jon Oliva, o grande nome em tudo o que envolve o Savatage, não estava presente, por causa de seus problemas de saúde, mas afirmou estar se esforçando para retornar aos palcos o mais rápido possível.

Assim, a saída encontrada pela banda para suprir a ausência de um nome tão essencial foi apostar em dois tecladistas: Paulo Cuevas e Shawn McNair. A música do Savatage é, de fato, complexa e bem teatral, ainda mais com o show deixando claro que as próximas apresentações da banda terão um pouco de Trans-Siberian Orchestra, projeto paralelo da banda, que intensificou os elementos teatrais e emocionais do show.

Por isso, dois tecladistas foram necessários para fechar a lacuna deixada por Jon, permitindo que Zak cumprisse seu papel de frontman, apoiado por bons arranjos de teclado e pelos backing vocals dos músicos de apoio.

Isso garantiu que, dentro do contexto possível, a intensidade do Savatage na apresentação, mesmo sem Jon Oliva, fosse exatamente a mesma aguardada pelos fãs. A banda demonstrou respeito pelo público desde o início, engatando Jesus Saves, outra música cantada a plenos pulmões e com muitas cabeças chacoalhadas.

O setlist, como não poderia ser diferente em um show de retorno, viajou pela história da banda, trazendo inúmeros clássicos, todos bem interpretados pela voz de Zak, que cumpriu com louvor a missão de cantar ‘sozinho’ neste show histórico. Outros clássicos que fizeram a alegria dos presentes foram Taunting Cobras, Turns To Me e The Storm.

Tudo isso embalado não só pela apresentação primorosa de Zak, como também por Chris Caffrey (guitarra), Al Pitrelli (guitarra), Jeff Plate (bateria) e Johnny Lee Middleton (baixo), que, junto dos dois tecladistas, trouxeram grande força e potência em praticamente todas as músicas, cantadas em uníssono pelos fãs. A banda mostrou amar o que faz e amar o momento, o que deixou tudo mais especial, pois era notória a entrega de todos os músicos para uma noite especial.

Handful of Rain e Chance também foram destaque em um show mágico, daqueles que parecem eternos, o tempo passa e parece que nunca vai acabar. Gutter Ballet e Edge of Thorns mantinham o encanto, garantindo um reencontro perfeito, do jeito que o fã sonhava. Mesmo sem Jon em seu piano, no palco.

Mas Oliva ainda apareceria no show, pelo menos no telão. O lendário cantor surgiu iniciando a épica música Believe. Os fãs, com celulares ligados, assistiram emocionados, sentindo a alma musical do grande nome do Savatage, mesmo sem sua presença física no palco. Após cantar a primeira parte, a banda explodiu com a sequência da canção, que ainda rendeu homenagens ao falecido guitarrista Criss Oliva, considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos, e um dueto final com Zak cantando com Jon, como deveria ter acontecido.

Believe é uma música de letra forte e de grande identificação com o público. Além de falar sobre esperança em meio a adversidades, ela tem uma forte conexão com Criss, pois foi lançada cerca de dois anos antes de sua morte em um acidente de carro. Por isso, carrega uma emoção ainda mais profunda do que originalmente planejado, e foi exatamente isso que ela trouxe na primeira despedida da banda, nesta noite mágica.

Mas o Savatage voltou para o bis. E com mais uma surpresa: Power of the Night, que não era tocada pela banda desde 2003, e que trouxe um clima de energia até os instantes finais do show. Bater cabeça também faz parte de um show da banda, e foi isso o que aconteceu. E a despedida veio com Hall of the Mountain King, que garantiu, de fato, um reencontro especial, histórico e antológico entre fãs e banda.

O Savatage é uma banda que, se não é lembrada por muitos como uma banda de elite do heavy metal, tem em seus fãs a certeza de que são lendários no gênero. Como a banda, em sua história, nunca se importou em seguir conceitos, mesmo dentro do metal, e fazer sua música do seu jeito, sem se importar com prêmios, MTV ou discos de platina, garantiu uma base de fãs extremamente fiel, que entende a música da banda, reconhece a sua história e, com certeza, estava ali presente ontem, vivendo um momento único, raramente visto na música, ainda mais hoje em dia, com conexões, incluindo musicais, tão descartáveis.

O Savatage estava fora dos palcos há dez anos, e por isso, não mantinham redes sociais ativas, não estavam nas bocas dos grandes influenciadores e estavam fora das ‘trends’ musicais nos últimos anos. Mas os fãs seguiram alimentando o legado da banda e, junto de músicos que realmente amam o que fazem, e que demonstraram isso entregando tudo neste show, provaram que fidelidade é importante, e que, no fim, quem mantém o legado de uma banda viva são os fãs apaixonados, e não ações de marketing.

Assim, os fãs receberam um presente em forma de um show épico de uma hora e quarenta e cinco minutos, e agora podem voltar a dizer, com orgulho, que o Savatage está de volta! A banda volta a se apresentar em junho, em uma turnê na Europa, onde os fãs já sabem o que esperar, após esta visita, que para nossa sorte teve o Brasil como escolha por parte da banda, para este reencontro tão especial.

Setlist do Savatage – 21 de abril em São Paulo

  1. The Ocean
  2. Welcome
  3. Jesus Saves
  4. Sirens
  5. Another Way
  6. The Wake of Magellan
  7. Strange Wings
  8. Taunting Cobras
  9. Turns to Me
  10. Dead Winter Dead
  11. The Storm
  12. Handful of Rain
  13. Chance
  14. This Is the Time (1990)
  15. Gutter Ballet
  16. Edge of Thorns
  17. The Hourglass
  18. Believe (com Jon Oliva iniciando a música no telão, e homenagens a Criss Oliva)

Bis

  1. Power of the Night
  2. Hall of the Mountain King

Setlist via setlist.fm

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Junior Candido

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