Barão Vermelho e Ace Combat 8: Wings of Theve – o que as duas lendas de guerra dizem sobre propaganda, moral e sua utilidade em dias difíceis
Especial compara Ace Combat 8: Wings of Theve e o Barão Vermelho para mostrar como lendas de guerra moldam propaganda e moral.
Ace Combat 8: Wings of Theve tem uma coisa muito em comum com o Barão Vermelho: o mecanismo de transformar lendas em uma propaganda de guerra para aumentar o ânimo de um país cansado. Embora a Project Aces não tenha feito nenhuma citação a Manfred von Richthofen e o game não falar do lendário piloto, ambos os casos compartilham a mesma ideia.
Nos dois casos, um piloto de avião de guerra vira um personagem público para sustentar o moral de quem está longe do combate, e se tornam símbolos de um conflito. A comparação é uma leitura histórica, em um texto que, prometo, não trará spoilers, com informações envolvendo o game retiradas apenas dos materiais de pré-lançamentos, incluindo o prólogo, que está disponível no YouTube.
O herói nacional que o Império Alemão precisava

Richthofen virou herói nacional no momento em que a Alemanha mais precisava de um. A enciclopédia acadêmica 1914-1918-Online explica bem sobre a exaustão e o cansaço de guerra generalizados, com protestos de fome e greves gerais em Berlim, Leipzig e Hamburgo já em abril de 1917 e de novo em janeiro de 1918.
A “guerra que iria acabar com todas as guerras” foi encarada por muita gente como um conflito curto, mas se arrastou por mais de quatro anos. Nas trincheiras, doenças, ratos e morte pioravam a situação de soldados de todos os lados, e o “inverno dos nabos” de 1916-1917 reduziu o consumo de alimentos a cerca de metade do normal, segundo a 1914-1918-Online, o que transformou o desgaste do front em insatisfação popular. Nesse cenário, o céu era um dos poucos lugares onde a Alemanha ainda registrava vitórias claras.

Em janeiro de 1917, depois do 16º abate, Richthofen recebeu a Pour le Mérite, medalha que provavelmente serviu também como estímulo de moral ao comando, e assumiu a Jasta 11. No “Abril Sangrento”, durante a Batalha de Arras, o esquadrão reivindicou 89 aviões britânicos abatidos. A Warfare History Network conta que os britânicos tinham 365 aeronaves na frente de Arras contra 195 alemãs, e a imprensa alemã noticiou o desempenho com destaque. O resultado não resolvia os problemas da Alemanha na guerra, mas bastou para a máquina de propaganda usar o episódio e alavancar a moral de soldados e civis.
A 1914-1918-Online resume o efeito: a contagem de vitórias dava uma sensação de vitória mensurável, enquanto a guerra como um todo andava no sentido oposto. O livro “Der rote Kampfflieger” completou o trabalho. Segundo o catálogo do Projeto Gutenberg ligado à Universidade de Oxford, foi escrito por ordem do setor de propaganda da Força Aérea, enquanto ele se recuperava de ferimentos de julho de 1917, e depois renegado pelo próprio Richthofen. A Encyclopedia.com acrescenta que o livro foi distribuído à infantaria alemã para incentivar a coragem.
O mito também ganhou rumores. A Time, em uma matéria de 1925, lembrou que jornais alemães afirmavam, durante a guerra, que o governo britânico havia colocado £ 5.000 pela cabeça dele. Algo que, atualizado, convertido e corrigido pela inflação daria algo em torno de R$ 3,1 milhões.
A FCU no auge da lenda do Wings of Theve

O auge da lenda em Ace Combat 8 ocorre com o país já quase perdido. Segundo a história contada pela Bandai Namco, em julho de 2029 a Federação de Central Usea (FCU) sofreu uma invasão relâmpago da República de Sotoa, com a marinha destruída e o velho porta-aviões Endurance abarrotado de refugiados. O texto oficial de apresentação resume a lógica: na hora mais escura, a FCU precisava de um herói para sustentar o moral das tropas e servir de símbolo de esperança, e assim surgiu o Wings of Theve.
O nome vem da cidade de Theve, a capital da FCU, justamente a que caiu. A lenda carrega o nome de um lugar que já não existe sob controle da Federação, mas que eles farão de tudo, com o mito e a força dos que restaram, para recuperar.
Aviso de spoiler: o parágrafo a seguir revela o desfecho do prólogo. Mas só do prólogo, não precisa se preocupar.

O prólogo, que se passa em 31 de outubro de 2029, mostra como isso funciona por dentro. Um agente de mídia chamado D.D. explica que o Wings of Theve é um símbolo de propaganda, e o piloto Jan “Rex” Cope admite que a fama dele é, em boa parte, exagero da mídia. Cope sai de cena ainda no prólogo, depois de ser derrubado em uma emboscada inimiga, e a FCU trata a sua morte como um segredo absoluto, porque não pode perder o símbolo. Em meio a essa situação delicada, o jogador herda o nome e o indicativo “Rex” no comando do Joker Flight, com a pressão de defender o país e manter viva uma lenda, o que exige um desempenho acima da média.
A construção do mito é parecida, mas o método muda. No caso do Barão Vermelho, ela passou pelo setor de propaganda, pela imprensa, por um livro e por cartões-postais. No Wings of Theve, o legado é amplificado pelas redes sociais, em um ciclo de propaganda voltado a levantar o moral dos cidadãos deslocados. Em qualquer época, quando uma lenda é criada e amplificada, fica difícil separar o que é fato do que é exagero.
As duas lendas lado a lado
| Barão Vermelho (1917-1918) | Wings of Theve (2029) | |
| Quem produziu | Setor de propaganda da Força Aérea alemã | Equipe de mídia a bordo do Endurance |
| Meio | Livro, imprensa, cartões-postais | Redes sociais |
| Base real | 80 vitórias creditadas | Fama que o próprio Cope diz ser exagerada |
| Risco | A morte abalar o moral | A verdade vazar e desmontar o símbolo |
A última linha é o dado menos óbvio da comparação. Richthofen era um ás real, e a propaganda aumentou uma reputação que já existia e que era reconhecida até pelos inimigos. O funeral mostra isso: foi conduzido com honras militares por australianos, com a presença de um capelão da RAF. O Wings of Theve, no entanto, começa como uma casca, e a missão do jogador é dar substância a ela.
Quem viveu a Primeira Guerra

Para os alemães, a queda do símbolo foi um evento nacional. Quando os restos mortais do Barão Vermelho foram levados da França para a Alemanha, em 1925, a Time lembrou que a morte dele teve mais destaque nas notícias do que as ofensivas alemãs de primavera de 1918, que aconteciam na mesma região do Somme. Do outro lado, os aliados tentaram transformar o fato em arma política. Pilotos da RAF jogaram cápsulas com a notícia e fotos do funeral sobre o Jagdgeschwader I, a ala de caças alemães cujo comandante foi o próprio Richthofen, confirmando os temores dos oficiais alemães. A imprensa britânica da época, segundo o British Newspaper Archive, destacou o golpe de propaganda que a morte representava.
O enterro, em 22 de abril de 1918, foi conduzido pelo Esquadrão nº 3 da Australian Flying Corps, com honras militares completas no cemitério de Bertangles e, como já dito, a presença de um capelão da RAF.

A causa da morte foi debatida por décadas. O crédito oficial foi dado ao capitão Roy Brown, mas a 1914-1918-Online afirma que pesquisas posteriores indicam, quase conclusivamente, um único projétil disparado do solo, provavelmente por uma unidade australiana.
O mito, porém, sobreviveu ao homem. O corpo foi levado à Alemanha em 1925, e a Time observou que o país não tinha um “soldado desconhecido” e parecia querer erguer Richthofen como figura central do heroísmo de guerra. Na era nazista, a autobiografia foi reeditada com introdução de Hermann Göring, que, segundo a HistoryNet, chegou a comandar o próprio Jagdgeschwader I depois da morte de Richthofen. A mesma figura serviu a três regimes: o Império Alemão, que caiu em 1918; a República de Weimar, sob a qual aconteceu o reenterro; e o Terceiro Reich, que se instalou depois que Adolf Hitler foi nomeado chanceler, em 1933, e que durou até 1945.
Quem vive os conflitos de Ace Combat

Para quem está dentro do mundo de Strangereal, o efeito é prático. Na história do jogo, em uma missão de retomada de território que se transforma em emboscada, as tropas em solo gritam no rádio pedindo socorro ao Wings of Theve. A lenda funciona como promessa de ajuda, e a pergunta que a história levanta é quanto a crença vale quando a ajuda precisa chegar de verdade.
O paralelo com 1917 é direto. Quem estava na trincheira alemã acreditava em um herói que mal via, e quem está nos navios da FCU depende de um nome que a equipe de mídia sabe ser construído e cuja fama passa longe da realidade. Nos dois casos, o símbolo sustenta o moral enquanto existir, e quem o mantém precisa decidir quanto da verdade pode vir à tona.
Por que a comparação ajuda a entender melhor o game

Conhecer a história de Richthofen muda a leitura do jogo inteiro. A pergunta de fundo é o que um país faz quando a esperança depende da imagem de uma pessoa, e a história real tem uma resposta incômoda: o mito continuou sendo usado depois que o homem morreu.
Fontes consultadas
- Bandai Namco (páginas oficiais de Ace Combat 8: Wings of Theve) e PlayStation Blog (25/09/2026)
- Prólogo do game, disponível no YouTube.
- 1914-1918-Online, sobre “Richthofen“, “Alemanha” e “Comida e Nutrição“
- Projeto Gutenberg / Universidade de Oxford (ficha de “Der rote Kampfflieger“)
- Time (1925), HistoryNet, British Newspaper Archive e Warfare History Network
- Australian War Memorial (via Anzac Portal) e RAF Museum
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- Plataformas
- PlayStation, Xbox, PC
- Lançamento
- 2 de outubro de 2026
- Desenvolvedora
- Bandai Namco Aces
- Publicadora
- Bandai Namco Entertainment
- Gênero
- Simulador de combate áereo




