Análise Arkade – 007: First Light convence com uma legítima história de James Bond e “pitadas” de Hitman

James Bond é um personagem que tem muita história pra contar. Nascido nos livros de Ian Fleming em 1953 e brilhando nas telas desde 1962, o espião soube se adaptar tanto nos enredos quanto nas mídias que evoluíram ao longo dos anos.
Concebido em um momento de Guerra Fria, o personagem avançou com as tecnologias, lidou com o mundo pós-URSS e continua vivo no imaginário popular, sempre se atualizando. Nos games, seu primeiro título chegou em 1983, pelas mãos da Parker Brothers, para o lendário Atari 2600.
Mas a história de 007 nos videogames é vasta e cheia de altos e baixos. Entre vários jogos medianos, destaca-se GoldenEye 007, um dos mais influentes de todos os tempos — tão famoso que ofuscou até o filme que o inspirou. Após anos de hiato, chegou a hora de um novo capítulo do agente com licença para matar nos games.

Quem recebeu a missão foi a IO Interactive, e com razão: os dinamarqueses por trás de Hitman entregaram um jogo que, apesar das diferenças, compartilha muitos elementos com a franquia de assassinatos. Isso respondeu perfeitamente à pergunta: e se James Bond fosse o agente em missões tão exclusivas?
A resposta chegou em 27 de maio de 2026 para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC, com o game recebendo status de “um dos melhores jogos licenciados de todos os tempos”. Um feito notável, já que muitos títulos baseados em licenças, inclusive de James Bond, decepcionaram ao longo dos anos.
Para não ficar preso demais aos filmes e livros, a IO Interactive optou por um caminho diferente: mostrar como James Bond se tornou o agente que conhecemos. Você não controla um 007 já pronto, cheio de gadgets e lábia. O jogo apresenta um Bond recém-saído das Forças Armadas britânicas, nos seus primeiros dias no MI6.

Aqui, acompanhamos um “diamante bruto” no início do processo de lapidação. O MI6 viu potencial no jovem soldado, mas também os riscos de um agente impulsivo e convencido. Isso resulta em uma narrativa que vai além do que os jogos de Hitman ofereciam.
Como a IO seguiu um “caminho de filme”, o título mostra todo o processo: desde o evento que motivou sua convocação, passando pelo treinamento em Malta até as primeiras missões. Alguns criticaram por ser “trilhado demais”, mas se The Last of Us Part II e God of War (2018) ganharam prêmios com seus “trilhos”, James Bond também pode ter um jogo assim. E funciona bem neste contexto.
Nos “momentos Hitman” do jogo, temos liberdade. Mas vamos falar primeiro da campanha “cinematográfica”, já que o jogo é, acima de tudo, uma aventura narrativa inédita — com a diferença de que você controla Bond pelos cenários. E o termo “cinema” faz sentido aqui, graças ao bom trabalho de imersão, tanto pra equilibrar o gameplay, quanto para a questão artística geral.

Patrick Gibson dá voz e rosto ao Bond jovem. Ele transmite bem a mistura de carisma natural com a inexperiência que ainda precisa ser lapidada. O mentor John Greenway (dublado por Lennie James) rouba várias cenas. A relação entre os dois começa tensa e ganha camadas ao longo da campanha. M, Moneypenny, Q e outros nomes conhecidos aparecem de forma orgânica, com ar de novidade — embora os fãs já os conheçam bem.
Mesmo com o tom cinematográfico e os “trilhos” da história, o gameplay pega o DNA de Hitman e adapta para a fantasia de Bond. Quem jogou os Hitman mais recentes vai reconhecer: níveis grandes, várias rotas para os objetivos.
Dá pra seguir o caminho silencioso, usando o ambiente e os gadgets para distrair guardas, ou partir pro confronto direto. O combate corpo a corpo tem mais peso, com brigas cruas que aproveitam o cenário — parecido com Splinter Cell: Blacklist. Nos tiroteios, as armas têm personalidade e existe uma mecânica legal de jogar a pistola vazia e pegar a do inimigo.

Os equipamentos de Q são dos pontos mais divertidos — e deixaram o Agente 47 com inveja. O Q-Watch faz de tudo: laser para abrir fechaduras ou cegar inimigos, hacks simples, distrações à distância. A caneta que vira míssil aparece em momentos chave e dá aquele gosto de “agora resolveu”.
O lado negativo: os gadgets têm carga limitada, o que força um planejamento melhor. Alguns acham isso chato no início, mas faz parte do desafio de se sentir um agente de verdade.
A campanha principal dura cerca de 17 a 18 horas, dividida em 17 capítulos que lembram mais uma série de TV bem produzida do que um jogo linear. Os cenários variam bastante: infiltração em um centro de pesquisa na Islândia, missões no prédio do MI6 em Londres, treinamento em Malta, uma festa de gala na Inglaterra, um resort no Vietnã e uma instalação secreta na Antártica. Cada local tem clima e abordagens próprias.

Visualmente, o jogo está caprichado. Roda liso na maioria das plataformas, com suporte a path tracing e DLSS no PC, que deixam iluminação e reflexos ainda mais impressionantes. A trilha sonora acerta em cheio: o tema principal (com Lana Del Rey) e o uso inteligente do clássico stinger de Bond só nos momentos certos são suficientes, assim como algumas partes onde dirigimos carrões, que somam na experiência.
Apesar da alma de Hitman, o jogo tropeça um pouco ao tentar “fazer igual, mas não copiar” — o que é permitido. O stealth não chega à liberdade total dos Hitman puros; os disfarces, quando aparecem, são mais limitados a sequências específicas.
Contra vários inimigos ao mesmo tempo, o combate corpo a corpo (mais cinematográfico e mano a mano) pode ficar confuso, distante da pancadaria em grupo dos jogos Batman: Arkham. A câmera aperta em lutas muito próximas e a IA nem sempre reage de forma brilhante. Nada que quebre a experiência, mas são pontos a se registrar.

Após jogar, dá pra dizer sem medo: 007: First Light entrega a sensação de ser James Bond — e faz isso até melhor que GoldenEye 007 em alguns aspectos. Não é uma comparação para desmerecer o clássico da Rare, mas para destacar que o novo jogo aprofunda mais a parte “agente secreto”, além dos tiroteios do Nintendo 64.
Além de brigas e trocas de tiros, você planeja, improvisa, investiga ambientes, procura brechas, usa o que tem à mão e vive uma história que constrói o personagem gradualmente. E pra quem quer mais liberdade, o estúdio já soltou um roadmap de conteúdo pro primeiro ano — o jogo vai ganhar mais coisas com o tempo.
Se você curte Hitman, jogos de espionagem com história boa ou estava com saudade de um James Bond que respeite a essência da franquia (mesmo com um pouco de trilho cinematográfico, que não prejudica), essa é uma das melhores opções dos últimos anos. A IO Interactive trouxe a licença de volta de forma fresca e competente.
Dá pra recomendar sem peso na consciência para fãs de Hitman, de James Bond e de bons jogos de espionagem. Não é a aventura definitiva (e o jogo nem pretende ser), mas honra muito bem o legado de 007.
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