Análise Arkade: Pancadaria brutal e técnica apurada dividem a atenção em Invincible VS

Os visuais não são dos mais cativantes. A animação 2D evidencia sérias restrições e está longe de estar dentre as principais do gênero, mesmo considerando o nicho de produções destinadas a um público adulto. E ainda assim, a adaptação dos quadrinhos de Robert Kirkman para o streaming contrariou todos os prognósticos e encontrou seu espaço de relevância.
O gênero de super-heróis de máscara, capa e cores chamativas já demonstra cansaço há anos e mesmo as sátiras já parecem ter se esgotado. Aliás, dividir plataforma (e até mesmo datas, como em 2026) com o sucesso The Boys não parecia ser das ideias mais promissoras, mas cá estamos nós celebrando o sucesso da agora grande franquia multimidiática. Ao sobreviver ao contexto caótico e desfavorável, chegou a vez dos videogames receberem a sua própria visão de…

“Só” mais um episódio
A versão animada, refletindo a base original, oferece uma estrutura seriada sofisticada para o gênero, mesclando aquilo que se convencionou chamar de “monstro da semana” (que nada mais é do que episódios pontuais com um caso que se inicia, desenvolve e finaliza em arcos curtos de um ou dois episódios); com a trama maior e a ameaça constante e crescente da invasão à Terra.
Se não é exatamente um formato original por si, já que é uma tendência do mercado de narrativas seriadas, a forma como cada nó se conecta com a trama geral é muito bem organizada, e mesmo eventos que parecem feitos para preencher lacunas retornam com consequências relevantes para o todo mais adiante.

O jogo, que chegou recentemente — aproveitando o hiato entre a recém encerrada quarta temporada e a próxima — porém, traz uma sensação um pouco diferente, de que de fato é um parênteses, uma ramificação sem consequências para o todo, até por se ambientar em um espaço-tempo bem anterior ao estágio atual do enredo, o que significa que sim, sabemos exatamente onde estarão estes personagens no fim da aventura.
Invincible VS, enquanto história, é portanto um grande filler, apostando em uma brecha multiversal (outro clichê herdado que a franquia abraça para tratar com seu humor peculiar) já estabelecida antes para criar um aventura no estilo “Mojoverso”, arco controverso das revistas dos X-Men que também teve sua adaptação para a série clássica animada.

No jogo, heróis e vilões são sequestrados por uma espécie alienígena conhecida como “Os Técnicos”. Estas criaturas, com o intuito de usar dados coletados destas figuras poderosíssimas com fins nefastos, implantam um dispositivo cerebral em cada sujeito capturado causando-lhes alucinações que fazem com que eles enxerguem, uns nos outros, inimigos a serem vencidos para se defenderem de um ataque inesperado.
Esta é, claro, uma ótima desculpa para confrontos entre personagens aliados em jogo de luta, e até para que inimigos mortais precisem se unir para enfrentarem um mal maior, um adversário em comum. A trama do game, portanto, retira protagonistas e antagonistas de seus lugares e leva-os para um outro plano que, claro, não trará nenhuma consequência para a narrativa ou o desenvolvimento do universo que já conhecemos.

Este artifício narrativo é uma muleta bastante comum sobretudo para roteiros que não querem lidar com as consequências do que ocorre em seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, consegue ser eficiente justamente por criar um espaço seguro de “e se”, quando embates improváveis se tornam possíveis sem mexer com o todo. Dito isto, para um jogo de luta, uma conveniência necessária.
Brutalidade profissional
Se tanto quadrinhos quanto animação não economizam esforços para a violência gráfica muito além do que qualquer outra iniciativa anterior, incluindo séries e filmes de maior prestígio, no mundo dos games é fácil reconhecer Mortal Kombat como uma marca que desde sempre brinca com os limites do grotesco, do absurdo e do gore. Não à toa, o próprio Omni-Man já deu as caras recentemente como um convidado no último jogo da NetherRealm.

Encontrar uma identidade própria sem parecer emular o que já está sedimentado parece ser um desafio enfrentado pela equipe de desenvolvimento de Invincible VS — cujos alguns membros trabalharam na mais recente interação de Killer Instinct, outra marca que jamais se furtou do uso da carnificina em tela para causar impacto e estabelecer sua própria leitura de jogos de luta.
O jogo, pautado em uma dinâmica intensa de combos e de um modelo defensivo baseado na quebra e no contra-ataque, parece herdar muito de seus preceitos do próprio Killer Instinct de 2013. Este novo jogo valoriza a agressividade e a precisão do encadeamento de ataques seguidos, mas são os sistemas de virada que lhe trazem uma profundidade impar diante outras opções do gênero.

Isso fica ainda mais evidente quando arriscamos os níveis mais difíceis contra a CPU tanto no Modo Arcade quando no de História, onde a máquina não tem qualquer receio de usar sequências matadoras sem espaço para respiro. Estes modos se provam uma necessária passagem para quem quer realmente se aventurar pelo modo multiplayer on-line, lugar que realmente separa homens de viltrumitas.
A boa notícia para quem pretende se arrebentar contra os melhores jogadores do mundo é que o sistema de rollback netcode se provou altamente estável, sem qualquer lag de imput relevante na comparação com o jogo offline. O problema disso é que é cada vez mais difícil jogar a culpa na latência por cada surra tomada, e claramente todas as derrotas humilhantes pelas quais passei foram responsabilidade da minha falta de competência.

As mecânicas de sequência se tornam ainda mais potentes ao dominarmos as melhores características do sistema 3×3, não só pela troca como medida de desespero quando se está tomando um vareio, mas principalmente para manter uma sequência boa ou criar uma ruptura de abertura para a virada de mesa.
Se o modelo não é exatamente novo, com basicamente os mesmos comandos de um Marvel vs. Capcom ou um dos vários jogos de luta em arena, como os da série Naruto: Ultimate Ninja Storm (é possível chamar uma ajuda pontual ou alternar de vez com um companheiro), aqui ele se mostra ainda mais decisivo para o destino das batalhas e, não raro, é o fator diferencial para decidir uma contenda equilibrada.

Por outro lado, a aparente acessibilidade do jogo, com combos simples automatizados e golpes especiais mapeados para o controle sem a necessidade de se memorizar receitas, parece se desfazer assim que adentramos espaços verdadeiramente competitivos que mostram que só com o pacote inicial de habilidades não dá para ir mais longe do que aquelas brigas com um amigo naquele domingo preguiçoso. É fácil entrar e começar a fazer um barulho, mas se manter realmente dominante vai dar muito trabalho.
Entre as HQs e a Animação, um meio termo
Por mais que traga vários pontos fundamentais que remetem diretamente ao que pode ser assistido na Prime Video — incluindo a ótima presença do elenco de vozes original, dentre eles J.K. Simmons como o bigodudo Nolan Grayson — os visuais de Invincible VS se aproximam muito mais das melhores fases das páginas dos quadrinhos do que da versão animada.

A reconstituição em três dimensões deste mundo ajuda muito a emular melhor a volumetria e o sistema de sombras e texturas que tanto fazem falta em sua adaptação audiovisual mais chapada de cores flat. O game abusa da profundidade de modelos e cenários, mesmo funcionando bem com o filtro que lhe confere uma aparência tradicional na batalha que, sim, funciona como um típico 2.5D.
Tudo isso para manter a sensação visceral de combates que não economizam no sangue e, muito menos, no impacto de golpes mais poderosos. Os ataques têm peso, e transmitem a brutalidade que se espera do alto nível de poder destes personagens. A sonoplastia, por sua vez, não economiza nos efeitos nojentos e nos tons graves de cada porrada bem dada.

Por outro lado, a ambientação acaba não acompanhando o ótimo trabalho artístico desempenhado em primeiro plano, e muitos dos cenários e espaços onde a ação de desenrola se provam genéricos, estáticos e sem qualquer carisma. Além de parecerem realmente só planos de fundo temáticos para os combates, são insossos, e caberiam a qualquer outro jogo tamanha a sua falta de identidade para com o projeto geral.
Esta experiência audiovisual acaba se provando dos quesitos mais controversos do game, já que para cada modelo fiel às origens, há cenários extremamente esquecíveis; para cada bom desempenho na interpretação competente do elenco, há canções funcionais, mas nada marcantes.

O saldo artístico ainda é positivo muito mais pela escolha em aprofundar o design gráfico para além do que a animação fez do que por outros pontos menos brilhantes. Possivelmente, a produção do jogo precisou fazer escolhas e focou em alguns aspectos em detrimento de outros, trazendo para o primeiro plano aquilo que realmente parece importar.
Intenso, mas um pouco vazio
Invincible VS é, inegavelmente, bastante competente em sua essência, com mecânicas requintadas, e visuais com mais acertos que deslizes, além de contar com uma narrativa conveniente, mas funcional. Tudo isso, porém, parece muito contido e nuclear, de uma forma que pode se tornar finito muito rapidamente.

A quantidade de personagens iniciais não é das menores, mas em sistemas de 3×3, acaba se esgotando muito rapidamente, mesmo com o esforço de criar distinções significativas para um grupo de combatentes da mesma espécie do Omni-Man. Méritos, aliás, para inclusão da Ella Mental e seus poderes diversificados e visualmente surpreendentes.
Já em seus modos centrais, o arcade tem algumas gradações de longevidade e dificuldade que maquiam a limitação inerente ao formato, com finais individuais tal como MK tem feito há algumas gerações, mas sem grande impacto no plano maior. Terminar runs com seus personagens favoritos pode ser interessante nas primeiras vezes, mas não demora para enjoar mesmo considerando o curto elenco.

Já a história da qual falei lá no princípio desta análise é extremamente curta e pode ser terminada em uma única sessão de pouquíssimas horas, o que decorre dos poucos personagens disponíveis. Afinal, não são tantas desculpas assim para que o Invencível enfrente a Eve Atômica porque um ou outro está confuso.
O modo treino é um protocolo quase burocrático a ser cumprido, e acaba antes de começar a exigir aquilo que define o jogo, que são os combos mais poderosos. Faltam modos como um Sobrevivência ou Desafios que, se não seriam nada originais, ao menos criariam algumas boas desculpas para se continuar investindo tempo e dedicação ao jogo.

Possivelmente, ao longo da vida útil do jogo, a chegada de novos personagens possa também alimentar os sistemas presentes do jogo para lhe garantir uma vida útil mais alongada. Tal como está, é um prato cheio para quem gosta de se especializar para ambientes mais competitivos, sobretudo no multiplayer, mas é uma viagem de poucas entradas para os porradeiros mais descompromissados.
Conclusão
Não há dúvidas de que Invincible VS seja um ótimo jogo de luta, oferecendo mecânicas robustas e bastante sólidas já em seu lançamento. É impactante e parrudo, mas principalmente profundo para quem se permitir dedicação, treino e um pouco de resiliência, um grande mérito considerando tanto gênero quanto o escopo da produção.

O elenco é restrito, porém, e reflete um momento anterior ao atual estado deste universo, quando novos personagens já foram apresentados e se tornaram bastante relevantes para o conjunto da obra. Já sabemos que alguns deles chegam mais tarde, como DLC (o caso do Imortal e da Universa), mas há outros tantos que seriam muito bem-vindos para oferecer mais diversidade diante dos vários lutadores atuais.
A dificuldade de domínio é, claro, relativa, porque depende dos objetivos de cada jogador. Para zerar o modo arcade com diferentes personagens nos níveis normais de dificuldade, o domínio básico dos sistemas agressivos e de alguns mecanismos de defesa podem ser suficientes, mas para entrar em níveis mais altos de competitividade, há que se ter mais dedicação e, assim, cumprir a máxima de ser fácil de aprender, mas difícil de dominar.

Em resumo, Invincible VS se prova muito acima da média de diversos produtos licenciados lançados nas últimas décadas. É respeitoso com o material original e, ao mesmo tempo, não abandona a excelência de uma jogabilidade equilibrada para buscar uma pretensa simplificação do acesso. Se seu maior problema é ter menos deste universo do que gostaríamos, é fácil dizer que o jogo segue um bom caminho para conseguir seu lugar no coração dos fãs.
Invincible VS foi lançado em em 28 de abril de 2026 para Playstation 5, Xbox Series e PC, infelizmente sem a ótima dublagem brasileira da animação, mas com as vozes originais em inglês e localização para o nosso português em menus e legendas.