Análise Arkade: Ruffy and the Riverside dá uns tropeços, mas esbanja carisma e criatividade

Ruffy and the Riverside é um jogo que chama atenção logo de cara pelo seu visual único e por uma mecânica de “copia e cola” de texturas que tem muito potencial. Mas será que isso dá um bom jogo? Vamos descobrir!
Misturando cenários tridimensionais com personagens em 2D que parecem feitos de papel — no melhor estilo Paper Mario –, Ruffy and the Riverside se destaca com facilidade em meio a tantos jogos monocromáticos e sem vida que a gente vê por aí.
Felizmente, Ruffy and the Riverside não é só um rostinho bonito: o jogo apresenta uma história bonitinha, personagens cativantes, diálogos bem-humorados e uma mecânica central criativa que serve como espinha dorsal da jogabilidade. Mas antes de nos aprofundarmos nisso tudo, vale falar da trama que amarra tudo isso.
Um herói nem tão heroico
Ruffy, o nosso protagonista, vive numa cidadezinha pacata e trabalha em um ateliê de pintura. Nada muito épico, exceto pelo fato de que ele possui uma habilidade especial: a capacidade de trocar elementos do cenário ao seu redor. Só que esse dom vem sendo pouco aproveitado… até que o Sr. Eddler, uma velha toupeira, fascinada por pedras preciosas, aparece e o convida para explorar o mundo.

No início desta jornada, eles acabam despertando sem querer uma criatura ancestral maligna, o temido Groll. Uma vez livre, Groll toca o terror na cidade e destrói o famoso letreiro de Riverside – que é tipo aquele de Hollywood, saca? – estrutura simbólica, mas também vital, já que está conectada ao núcleo do mundo.
Com a destruição desse letreiro, todo o equilíbrio da realidade é comprometido e a vida de todos está em risco. Mas, quem sabe Ruffy, com sua misteriosa habilidade swap, não pode restaurar o letreiro e, com isso, salvar o dia (e a cidade)?

É uma história muito simpática, com aquele jeitinho de cautionary tale, aquelas fábulas com lição de moral ao final. Mas o que realmente faz a trama de Ruffy and the Riverside brilhar é o carisma dos personagens e a leveza dos diálogos. Temos aqui um jogo bem-humorado, cheio de sacadinhas criativas, piadas e trocadilhos.
Ainda que a estrutura narrativa siga a clássica jornada do herói — com Ruffy partindo de uma vida comum rumo ao desconhecido –, o jogo adiciona camadas de inocência que tornam tudo mais emblemático. Ruffy é um protagonista inseguro, que não sabe se é mesmo “o escolhido”, e acaba se envolvendo em mil confusões tentando ajudar todo mundo.
Trocando as texturas do mundo
Ruffy and the Riverside é, essencialmente, um jogo de aventura e plataforma com um foco bem generoso em puzzles. A progressão segue uma estrutura semi aberta: no início, temos uma área relativamente contida para explorar, mas conforme avançamos na história, o mapa se expande, revelando regiões inéditas e novos desafios. É aquele tipo de jogo que te recompensa pela curiosidade, pelo desvio de rota, pela exploração cuidadosa.

Boa parte dos desafios do jogo se apresenta na forma de quebra-cabeças espalhados pelo cenário. Alguns exigem mais atenção visual, outros pedem lógica, experimentação e leitura de padrões. Mas muitos (muitos mesmo) giram em torno da grande estrela do gameplay: a mecânica de swap. É essa habilidade que define a identidade do jogo.
A ideia é simples, mas engenhosa: podemos copiar a textura de um elemento do cenário e colar essa textura em outro ponto do ambiente, alterando assim a funcionalidade daquela área. Por exemplo: há um caminho de lava intransponível, mas ali perto há uma pedra de gelo. Ao copiar o gelo e aplicá-lo na lava, aquela superfície se transforma em gelo sólido, permitindo que você atravesse sem tomar dano. Ou então: há uma cachoeira impedindo a passagem, mas nas redondezas existe uma trepadeira escalável. Ao aplicar a textura da planta na água corrente, a cachoeira se torna uma parede de folhagens — e, magicamente, você pode escalá-la.

É um sistema que estimula a criatividade, porque muitas vezes a solução não é explícita. Você precisa observar o cenário, testar possibilidades e pensar fora da caixa. Vou deixar um exemplo (sem spoilers) que mostra essa aplicação na cachoeira, de forma prática:
Essa mecânica é tão central que acaba moldando toda a filosofia de design do jogo. Os cenários são feitos para provocar o olhar curioso, recompensar a experimentação e incentivar o jogador a brincar com possibilidades. O swap não serve apenas como um truque visual, ele é, de fato, a chave para resolver puzzles, acessar novas áreas, ajudar NPCs e desbloquear segredos.
2D no 3D
Outro elemento que se destaca no gameplay é uma sacada que lembra bastante Super Mario Odyssey — que é uma baita referência de respeito. Por ser ambientado em um mundo 3D habitado por personagens 2D, Ruffy and the Riverside aproveita essa dualidade estética para criar momentos em que o jogador pode literalmente “entrar” em paredes.

Normalmente, você resolve um pequeno puzzle ou enigma no ambiente principal que destrava um portal para dentro de uma parede específica, que contém uma “fase” visível e jogável. Ao atravessar esse portal, a perspectiva muda: o jogo se transforma temporariamente em uma experiência 2D, com um pequeno desafio ou quebra-cabeça para resolver ali dentro.
Tipo assim:
Esses segmentos são geralmente curtos e simples, e a recompensa nem sempre é algo significativo — muitas vezes, o prêmio é uma borboleta, que você entrega para um NPC que está tentando catalogar todas as espécies de borboletas do mundo.
O charme está na execução. Mesmo que o prêmio não valha muito, a elegância do design, aliado à ideia de transformar uma parede comum em um novo espaço jogável, é criativa e instigante. É mais uma camada de interação que reforça o espírito curioso e inventivo do jogo — e mostra como os desenvolvedores souberam tirar o máximo da proposta visual para enriquecer a jogabilidade.
Burocracias pentelhas
Mas nem tudo são flores em Ruffy and the Riverside. Apesar de ser extremamente criativo nos puzzles e na mecânica de swap, o jogo às vezes tropeça em sua própria ambição, tornando tarefas simples desnecessariamente burocráticas. Um exemplo claro é o processo para conseguir surfar em trilhos — algo que parece simples, mas se transforma numa verdadeira odisseia. Para podermos usar os trilhos, precisamos estar montados num veículo específico: um rolo de feno. Até aí, tudo bem. Mas acontece que não temos um desses.

Aí começa a saga: descobrimos que há uma fazenda próxima onde você talvez consiga um rolo de feno… porém, a entrada é restrita a pilotos de corridas de rolos de feno (!). Para poder entrar sem ser um piloto, você precisa salvar o campeão do ano anterior. Felizmente, ele está em uma situação de vida ou morte naquele exato momento. Depois de resolvermos isso, finalmente ganhamos acesso à fazenda, mas ainda falta conseguir o rolo de feno — que está visível, mas protegida por um segurança. A única forma de pegar o rolo é à noite, quando o segurança estiver dormindo… mas simplesmente parou de anoitecer, ou seja, ele não vai dormir tão cedo.
Então, voltamos para a cidade principal, damos um jeito de fazer anoitecer, retornamos à fazenda, roubamos o rolo, mas para sair de lá com ele, precisamos primeiro vencer a tal corrida de rolos de feno, que vai acontecer no dia seguinte. A primeira tentativa é um inevitável fracasso (os outros pilotos têm rolos de feno muito melhores), e só serve para o jogo nos dizer que, se quisermos vencer, vamos ter que usar “trapaças estratégicas” com a mecânica de swap — tipo alagar trechos da pista ou deixá-los lamacentos. Assim temos uma chance de vencer e, enfim, ganhar o direito de levar o rolo de feno embora para continuar o que era, em teoria, uma missão simples.

Tudo isso não chega a ser demorado, mas é trabalhoso de um jeito pentelho. A sensação que fica é que o jogo criou obstáculos em excesso para ter “mais recheio”, e isso pode cansar um pouco, especialmente quando o prêmio final é algo tão trivial quando comparado ao esforço envolvido. É divertido até certo ponto, mas sinto que o jogo se perde em suas próprias etapas, o que acaba tirando um pouco da leveza da experiência.
Audiovisual
No que diz respeito ao audiovisual, Ruffy and the Riverside é exemplar. Muito pelo contrário: é um jogo lindíssimo. Como já mencionamos, ele lembra bastante Paper Mario, com sua mistura de cenários 3D e personagens 2D que parecem recortados de papel.

O resultado é um visual único, vibrante e extremamente charmoso, que faz o jogo se destacar imediatamente no meio de tantos títulos cinzentos ou genéricos que vemos hoje em dia. É um daqueles casos em que a direção de arte por si só já “vale o ingresso” — e aqui, ela é um show à parte.
O design dos personagens acompanha a qualidade do mundo, com uma estética 2D aplicada de forma criativa sobre ambientes tridimensionais. Todos têm muito carisma, tanto em aparência quanto nos diálogos. No entanto, uma escolha que me parece um pequeno tropeço é o design do próprio Ruffy, nosso protagonista.

Acontece que ele é, basicamente, um urso usando uma touca — idêntico a vários outros NPCs espalhados pelo mundo. Isso compromete a identidade do personagem principal, que não se destaca na multidão. Para um jogo que claramente tem a vibe de um “jogo de mascote”, esse detalhe enfraquece um pouco o impacto do protagonista.
A trilha sonora também cumpre bem seu papel, embora peque um pouco pela repetição. A música que toca na tela inicial, por exemplo, é reciclada em várias situações ao longo da aventura, aparecendo sempre que você completa uma tarefa, seja ela importante ou não. É uma boa música, mas se repete mais do que deveria. No geral, as composições são agradáveis e contribuem para o clima leve e acolhedor do jogo.

Falando de performance: testamos o jogo no Playstation 5, onde ele roda bem, sem travamentos ou bugs graves, com desempenho estável. O máximo que percebemos foram alguns pop-ins e carregamentos de textura em cima da hora — especialmente ao se aproximar de áreas escuras, como entradas de cavernas, onde de repente tudo “popa” na sua frente. Nada que atrapalhe seriamente, mas vale a menção. Há relatos de que a versão de Nintendo Switch sofre com problemas de performance, mas como não foi a que joguei, não posso opinar.
Vale destacar também que o jogo está localizado em português brasileiro, com uma tradução de qualidade. As piadas e os trocadilhos foram bem adaptados, o que é essencial num jogo que aposta tanto no humor e na simpatia dos personagens.
Conclusão
Ruffy and the Riverside é um jogo extremamente carismático e agradável: é um verdadeiro prazer simplesmente passear por Riverside, conversar com personagens e descobrir segredos escondidos. A mecânica de swap é o coração da experiência e se revela não apenas engenhosa, mas muito bem integrada ao design dos puzzles. Mesmo que algumas situações se repitam, o conceito em si é muito bom, e foi aplicado em uma aventura divertida e inventiva.

É um jogo facilmente recomendável para quem curte jogos com uma pegada “Zelda das antigas”, ou seja, mais uma grande aventura do que um RPG cabeçudo. A proposta é clara: exploração leve, puzzles criativos e muito foco na mecânica de troca.
O jogo tem seus deslizes — excesso de etapas para tarefas simples, algumas burocracias enfadonhas e alguns probleminhas de performance –, mas no geral entrega uma experiência bastante satisfatória, apoiada por um audiovisual impecável e uma jogabilidade envolvente.

Considerando que a história deixa um gancho para uma sequência — e que tudo o que foi construído aqui esbanja potencial — espero de coração que a equipe da Zockrates Games tenha boas vendas e consiga viabilizar o próximo jogo, expandindo e refinando este universo numa experiência ainda mais polida, divertida e cativante.
Ruffy and the Riverside chega hoje, 26 de junho, para várias plataformas: PC, PlayStation 5 (versão analisada), Xbox Series X|S, Xbox One e Nintendo Switch