Análise Arkade: Skate Story, um game de skate psicodélico, surreal e diferenciado

18 de dezembro de 2025

Embora eu tenha pouquíssimas experiências sobre um skate na vida real, jogos de skate sempre me divertiram. Desde os mais arcade, como a série Tony Hawk’s Pro Skater, até os mais experimentais e diferentes, tipo SkateBIRD, é um nicho que eu gosto de acompanhar.

O skatista de vidro

Skate Story, por sua vez, me deixava curioso por sua proposta ousada: um jogo de skate com foco em narrativa. Aqui, vamos controlar uma entidade “feita de vidro e dor” que faz um acordo com o próprio demônio: chegar até a Lua e devorá-la, a fim de recebermos nossa alma de volta.

É uma trama abstrata, simbólica e deliberadamente ambígua. O jogo nem tenta explicar tudo de forma direta, deixando tudo sugerido e aberto às interpretações do jogador. Há personagens estranhos em todo canto, os diálogos soam quase filosóficos, e o próprio ato de andar de skate pelo submundo tem um peso metafórico.

Apesar do tom absurdo e propositalmente confuso de sua narrativa, Skate Story me lembrou um pouco outro jogo recente da Devolver Digitalo esquisito, porém fascinante, Baby Steps. Digo isso porque ele se torna mais interessante conforme você embarca em seus questionamentos filosóficos e busca interpretar suas metáforas e analogias.

A própria releitura do inferno que o jogo apresenta é diferenciada: sem fogo, tridentes e gritos, o que temos aqui é um grande espaço estilizado e escuro, quase contemplativo, repleto de vazios, estruturas impossíveis e ambientes que parecem saídos de um sonho psicodélico.

Manobras infernais

Em termos de jogabilidade, Skate Story exige um bocado de paciência. Embora esteja longe de ser um simulador realista do esporte, os controles são propositalmente técnicos e, em alguns momentos, propositalmente imprecisos. As manobras exigem precisão, leitura de terreno e um entendimento claro do peso e da inércia do personagem. Sem tornar a falha frustrante, logo fica claro que cair faz parte do processo.

As manobras clássicas do skate, como ollies e kickflips, não são exigidas de forma constante ou automática. Skate Story alterna sua dinâmica entre momentos mais lineares e outros mais abertos. Em alguns trechos, vamos seguir por caminhos claramente delimitados, quase como corredores, onde o objetivo é simplesmente alcançar o próximo portão. Em outros, o jogo se abre em áreas maiores, playgrounds infernais populados por NPCs excêntricos vão nos propor desafios e pedir tarefas que incentivam a exploração.

Essa variação se reflete também nos objetivos. Há portões que só se abrem ao executarmos uma manobra específica, enquanto outras situações exigem sequências bem definidas de tricks, exigindo um domínio maior dos comandos. Ainda que não sejam o foco do jogo, as manobras não estão aqui para acumular pontos, elas são parte estrutural da progressão, funcionando como linguagem mecânica do jogo.

Skate Story ainda encontra espaço para inserir batalhas contra chefes, em que as manobras funcionam como ataques. Nessas situações, vamos perseguir criaturas gigantescas e causar dano não por meio de golpes tradicionais, mas executando corretamente sequências de manobras. É um tipo de confronto indireto, estranho à primeira vista, mas que funciona surpreendentemente bem.

Tudo isso serve para evidenciar que Skate Story não é um jogo de skate tradicional, mas algo muito único e diferenciado. Há uma narrativa sendo construída, há situações peculiares e ambientes psicodélicos, e o skate em si deixa de ser um meio de locomoção e realização de manobras para se tornar a própria ferramenta que leva a história adiante.

Audiovisual

Ainda que claramente não seja um jogo de orçamento muito alto, Skate Story aposta em uma direção de arte inspirada para se apresentar ao jogador. A estética do jogo é única, onírica e estranha — e falo isso de um jeito positivo. A posição da câmera, mais baixa e mais para o canto, também contribui com a criação de uma identidade visual muito particular.

Personagens esquisitos, cenários minimalistas, cores saturadas contrastando com ambientes vazios e uma “sujeira” onipresente são elementos que fazem com que o jogo pareça parece saído de uma instalação artística underground. Tudo isso cria uma identidade visual marcante, que dificilmente se confunde com qualquer outro jogo — seja de skate ou não.

A trilha sonora é outro destaque. Ela mistura batidas eletrônicas, indie rocks experimentais e composições melancólicas que dialogam diretamente com o tom existencial da nossa jornada sobre rodas. A música não está ali apenas como pano de fundo, mas como parte ativa na criação da atmosfera, ajudando a ditar o clima de nosso passeio pelo inferno.

Os efeitos sonoros também cumprem bem seu papel. O som das rodas no chão, o som de vidro quebrado que acompanha as quedas, tudo isso tem muito peso, acrescenta uma fisicalidade muito tátil à experiência de ser um skatista de vidro em um submundo abstrato e sombrio.

Conclusão

Skate Story brilha por sua identidade. Poucos jogos se permitem ser tão estranhos, psicodélicos e coesos dentro de uma visão artística específica. A combinação de narrativa simbólica, estética única e gameplay desafiador (mas não punitivo) cria uma experiência memorável… desde que você esteja disposto a entrar no clima.

Digo isso porque Skate Story exige envolvimento. Ele não quer ser jogado de forma automática, nem consumido de forma descuidada. É uma experiência introspectiva, esquisita, por vezes até desconfortável, mas muito única e cativante. Um jogo que usa o skate para falar não sobre manobras e pontos, mas sobre esforço, persistência, identidade e propósito.

Skate Story não é para todo mundo, e isso não é um demérito. Pelo contrário: ele é o tipo de jogo que encontra seu público justamente por não tentar agradar a todos. Mas, se você gosta de jogos experimentais e abstratos que tem algo a dizer — ainda que de forma indireta e metafórica — suba no seu skate e encare esta fascinante jornada infernal.

Skate Story está disponível para PC, Playstation 5 e Nintendo Switch 2. O jogo possui menus e legendas em português brasileiro.


Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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