Análise Arkade: Grim Trials, um brutal e divertido roguelite (com algumas burocracias)
Grim Trials é um roguelite de ação que mistura hack and slash, builds, crafting eheavy metal em uma aventura com erros e acertos no pós-vida.
Grim Trials, da desenvolvedora indonésia Glory Jam acerta por ser um Hades-like bem executado, mas peca pelo excesso de burocracias em alguns de seus sistemas. Saiba mais em nossa análise completa!
A fórmula de Grim Trials é bastante familiar para quem já jogou Hades — de fato, morrer, voltar, aprender com os erros e tentar novamente faz parte tanto da mecânica quanto da própria história. Aqui, porém, temos uma ambientação de fantasia sombria com uma forte inspiração em heavy metal.
Uma Ceifadora tentando reencontrar seu passado
A história acompanha Avelin, uma jovem que teve uma morte prematura e acabou recrutada como uma espécie de aprendiz de Ceifadora. Para se tornar uma Reaper de verdade, ela precisa passar pelo ritual de Purificação e derrotar Almas Pecaminosas, entidades que representam acontecimentos e traumas relacionados à sua vida anterior.

A ideia é interessante porque dá um significado narrativo às próprias runs. Cada tentativa não representa apenas mais uma incursão aleatória por um calabouço: Avelin está literalmente enfrentando os próprios demônios e tentando superar aquilo que ficou para trás. Ao mesmo tempo, existe uma motivação bastante pessoal para sua jornada: Avelin deseja reencontrar Timmy, o amor de sua vida, que continua no mundo dos vivos.
É uma estrutura que lembra bastante Hades, uma vez que a repetição inerente ao gênero também serve para desenvolver a história e aprofundar os relacionamentos. Entre uma incursão e outra, voltamos para a Academia, onde encontramos outros personagens que ajudam a revelar mais sobre aquele universo e sobre o passado de Avelin.

A diferença mais notória é que Grim Trials não tem a mesma qualidade narrativa, nem o valor de produção do hit da Supergiant Games. Não há, por exemplo, nenhuma voz para conceder personalidade aos coadjuvantes, e ainda que o visual de alguns personagens seja interessante — é bacana o fato do tecelão ser uma aranha — , nem de longe há o mesmo carisma e capricho nas ilustrações.
Enfim, a história aqui funciona principalmente como combustível para o loop de gameplay. Diferentemente de Hades, em que os diálogos e as relações são quase tão importantes quanto o combate, aqui a narrativa parece mais um complemento do que um dos pilares da experiência.
Combate rápido e cheio de possibilidades
É no gameplay que Grim Trials encontra seu maior acerto. O jogo coloca Avelin em arenas hexagonais, onde precisamos enfrentar grupos de monstros, almas pecaminosas e armadilhas antes de escolher o próximo caminho. Essa estrutura ajuda a criar uma progressão relativamente simples, mas com espaço suficiente para decisões durante cada tentativa.

Avelin utiliza principalmente dois tipos de armas: foices e bestas. A foice permite partir para cima dos adversários e causar dano rapidamente, enquanto a besta oferece uma alternativa para controlar a distância e atacar inimigos mais perigosos de longe. A possibilidade de alternar entre ataques corpo a corpo e à distância é fundamental para o sucesso.
O combate é rápido, mas não chega a ser um button masher sem profundidade. Posicionamento, esquiva e timing são fundamentais, principalmente porque as arenas podem reunir vários inimigos simultaneamente — com comportamentos e padrões de ataque distintos — e ainda adicionar armadilhas para complicar. Apesar de compactas, as arenas hexagonais oferecem alguma mobilidade, o que é ótimo para escapar de ataques e se manter atento ao posicionamento.

Se, em Hades, cada arma possui uma identidade muito própria e muda radicalmente a forma de jogar, em Grim Trials as mudanças são mais sutis. Existem armas focadas em ataques rápidos, outras com padrões mais lentos e poderosos. A variedade está mais ligada às melhorias, bênçãos e equipamentos encontrados ao longo de cada run.
Builds & Chefes
Como todo bom roguelite, Grim Trials ganha boa parte de sua graça na construção de builds. Ao avançar pelas arenas, Avelin encontra diferentes bênçãos — concedidas pelas divindades da Morte — que modificam suas habilidades e equipamentos.

Essas recompensas são escolhidas entre opções aleatórias, o que significa que cada run pode levar a uma combinação diferente de poderes. E é aí que entra o interessante sistema de builds personalizáveis. Você pode favorecer ataques de foice, ou então potencializar os tiros da besta, ou mesmo as habilidades especiais. Identificar quais bônus combinam entre si e tentar construir, ao longo daquela run, a melhor build possível, é parte da graça.
Esta construção de uma build consistente tem seu valor nas arenas comuns, mas se mostra realmente necessária nas batalhas contra os chefes — que são manifestações dos pecados da protagonista.

Apelões e repletos de ataques que varrem a tela, eles servem como testes de tudo o que foi aprendido ao longo da run. Eles são tematicamente interessantes e concedem à jornada uma sensação de propósito — representam marcos de progressão e impedem que a experiência se transforme em uma sequência de arenas.
Crafting & Evolução
Existe ainda uma árvore de habilidades que pode ser configurada no início de cada tentativa, além de um complexo sistema de crafting. Os materiais obtidos durante as batalhas podem ser utilizados para criar armas, armaduras e consumíveis cada vez melhores. Mesmo quando uma run termina em derrota, parte do que foi conquistado permanece, permitindo que Avelin volte mais preparada para a próxima tentativa.

A parte de crafting de Grim Trials não é tão agradável quanto o combate. A coleta e a fabricação de recursos pode se tornar um processo burocrático, especialmente quando o jogador precisa reunir materiais específicos, navegar por menus, falar com determinados NPCs e administrar diferentes componentes para produzir melhorias que nem sempre parecem imediatamente significativas.
Em vez de funcionar como uma extensão natural da aventura, o crafting muitas vezes passa a sensação de uma tarefa burocrática entre uma run e outra. Existem muitas etapas entre coletar os recursos, realizar eventuais processamentos (para torná-los utilizáveis), conversar com o NPC responsável e só então confeccionar o item. É um processo moroso e pouco interessante.

Isso não torna o sistema inútil: fabricar equipamentos e melhorar a personagem ajuda a criar uma sensação de evolução, e algumas escolhas podem fazer grande diferença na próxima run. O lance é que a parte de craftar recursos parece mais burocrática do que estratégica, tornando este momento entre runs um tanto mais chatinhos do que precisavam ser.
Audiovisual
Visualmente, Grim Trials não tenta impressionar pelo realismo ou por uma produção gigantesca. Ele aposta em uma direção de arte 2D desenhada à mão, com muita influência de heavy metal. Talvez por eu simpatizar com o gênero musical, no geral gostei muito da apresentação e da estética do jogo.

Ainda que não tenha o valor de produção de um Hades, Grim Trials tem boas animações de combate e consegue se manter inteligível mesmo durante as batalhas mais caóticas. Ainda que as arenas em si não sejam particularmente criativas, há uma variação de biomas ao longo da campanha que mantém as coisas frescas.
A trilha sonora é outro acerto, pois abraça completamente esta proposta heavy metal. Riffs pesados e solos de guitarra melodiosos acompanham as batalhas e concedem muita energia às incursões. A temática heavy metal não é inédita no mundo dos games, mas forma um conjunto audiovisual bastante coerente e estiloso. Por fim, sempre bom ressaltar a presença do português brasileiro na interface e nas legendas.
Conclusão
Grim Trials segue uma fórmula que já conhecemos e suas principais referências são imediatamente familiares. E isso não é um demérito: estamos diante de um Hades-like muito competente, com mecânicas de combate dinâmicas e divertidas, um robusto sistema de criação de builds e um mundo interessante a ser explorado.

É verdade que toda a parte de crafting é um pouco pentelha, mas não chega a arruinar a experiência de jogo. É só uma camada de burocracia que poderia ser mais simples, mais direta ou melhor integrada ao restante da progressão.
No fim, Grim Trials é mais um daqueles jogos que demonstram como a fórmula dos roguelites ainda tem espaço para entregar variações competentes e viciantes. Ele não apresenta uma revolução, mas entrega um combate sólido, boas possibilidades de personalização e uma ambientação suficientemente particular para não parecer apenas uma cópia de Hades.
Grim Trials está disponível para PC, Playstation 5, Xbox Series, Nintendo Switch e Switch 2 (versão analisada).




