Análise Arkade: entre a diversão e a burocracia em Revenge of the Savage Planet

13 de maio de 2025

Na semana passada, foi lançado Revenge of the Savage Planet, sequência direta de Journey to the Savage Planet, uma grata surpresa de 2020 que analisamos aqui na Arkade na época.

Desenvolvido pela Raccoon Logic, o jogo mantém o tom de ficção científica satírica do original e, em boa parte segue a mesma fórmula, mas traz mudanças significativas, a começar pela nova perspectiva — o jogo agora é em terceira pessoa.

Mas, antes de falarmos sobre o jogo em si, é interessante trazermos uma história dos bastidores da sua produção:

Uma crítica disfarçada de jogo

Talvez você se lembre (ou não) que o primeiro título, Journey to the Savage Planet, foi desenvolvido pelo Typhoon Studios. Esta sequência, no entanto, chega pelas mãos do estúdio Raccoon Logic. O que justifica esta mudança?

O novo jogo é em terceira pessoa

Na verdade, a própria trama do jogo funciona como uma crítica/resposta à forma como o Google tratou o estúdio original. O que rolou nos bastidores foi o seguinte: o Typhoon Studios foi comprado pelo Google, na época em que a empresa estava empolgada com seu flopado console de jogos por streaming, o Stadia.

Os desenvolvedores comeram o pão que o diabo amassou: foram submetidos a expectativas irreais, pressionados a desenvolver um jogo de grande escala com recursos limitados — para uma plataforma que simplesmente não tinha futuro.

Quando o Google decidiu reconhecer seu erro e encerrar abruptamente o Stadia (e sua participação no mercado de games), os estúdios adquiridos foram simplesmente fechados e desmantelados — sem nem concluírem os projetos nos quais estavam trabalhando.

Foi aí que o pessoal da Typhoon Studios, liderados por Alex Hutchinson, fundaram a Raccoon Logic e readquiriram os direitos da franquia. E é por isso que, a campanha de Revenge of the Savage Planet aborda (de forma totalmente intencional) essa questão, e injeta comentários nada fictícios sobre os horrores do capitalismo corporativo e a falta de humanidade das megacorporações globais.

Demitido no espaço

Digo isso porque, no universo de Revenge of the Savage Planet, nosso intrépido explorador espacial é um funcionário da Kindred Aerospace, nossa empregadora do primeiro game, que aqui foi comprada por uma corporação ainda maior, a Alta Interglobal.

Passamos dezenas de anos em sono criogênico, viajando para um novo conjunto de planetas a ser colonizado. Porém, durante essa viagem, as coisas mudaram na empresa, de modo que, quando chegamos ao nosso destino, já fomos previamente demitidos (?!).

O que fazer quando se é demitido sendo um colonizador espacial, em um planeta não-colonizado? O primeiro passo é garantir a própria sobrevivência, claro. Depois disso, vamos planejar nossa vingança contra a empresa!

E é assim, misturando humor ácido com “crítica social f*da” e nem tão sutis cutucadas às gigantes do mundo corporativo, que realidade e ficção se misturam em tom de sátira na trama de Revenge of the Savage Planet.

Que fique claro que toda a treta envolvendo o Google e o Stadia que descrevi acima nunca é mencionada, e sem dúvida vai passar batida por muita gente. E tá tudo bem. O lance é que videogames não são feitos no vácuo: sempre há um contexto.

A estética retro-futurista lembra Fallout

Como eu conheço esse background, achei de bom tom trazê-lo para cá, em caráter informativo. Mas, se você quiser ignorar tudo isso e curtir o jogo apenas como uma obra de ficção, pode fazer isso sem problema nenhum.

Jogabilidade e Mecânicas

Apesar da mudança de perspectiva — de primeira para terceira pessoa –, mecanicamente, Revenge of the Savage Planet ainda é bem similar ao primeiro jogo. Temos muita liberdade de exploração, tanto horizontal e vertical, e boa parte do nosso trabalho é sair pelo mundo catalogando coisas e coletando recursos.

Escaneando e catalogando

Conforme avançamos, vamos poder criar novos equipamentos e ferramentas — que por sua vez vão nos permitir acessar novos lugares. Isso cria uma rotina que recompensa a exploração e a curiosidade do jogador.

Sem contar que também dá ao jogo um gostinho leve de MetroidVania: você vai estar o tempo todo encontrando lugares que não pode acessarpelo menos não até desbloquear uma habilidade ou ferramenta específica. Paredes de cristal, teias de aranha e a falta de equipamentos para mergulhar são apenas exemplos básicos de limitações que você vai ter que contornar.

Como destruir isso?

E a forma de contornar isso é encontrando diagramas para criação de novas ferramentas de exploração — como jetpacks, ganchos e armas elementais — e, claro, a matéria-prima para poder criar tudo isso. Explorar incentiva o jogador a explorar ainda mais, a fim de desbloquear mais caminhos e segredos.

Entre a diversão e a burocracia

Jogar Revenge of the Savage Planet é divertido. O mundo do jogo é vívido e colorido, e há muitas formas divertidas de interagir com ele. O problema é que esta diversão acaba soterrada por uma montanha de atividades burocráticas que tiram o foco do jogo daquilo que ele faz de melhor.

Há mais de um planeta explorável

Explicando com exemplos: praticamente tudo o que formos criar é impresso em uma impressora 3D, que fica na nossa base, na área inicial do jogo. Assim, ir e voltar para a base torna-se uma tarefa recorrente, pois estaremos sempre precisando retornar lá para usar a impressora.

Se isso não lhe parece tão grave, lembre-se que aqui não vamos ficar presos a um só planeta: há outros 3 planetas para explorarmos… mas, inicialmente só teremos uma base estabelecida no primeiro. Assim, conforme exploramos e coletamos recursos nos outros, vamos precisar ficar voltando ao primeiro mundo para acessar a impressora. Até existem pontos de fast travel, mas cada região tem o seu, que precisa ser encontrado e ligado para funcionar.

Esse backtracking forçado torna as primeiras horas de jogo especialmente morosas, pois a exploração (que é a parte legal) está o tempo todo sendo interrompida pela necessidade de voltar à base para imprimir coisas, assistir vídeos institucionais ou algo do tipo.

Mesmo depois que avançamos bastante e não precisamos mais de upgrades o tempo todo, o jogo ainda estimula o retorno esporádico à base: existe todo um mini-game de coleta de espécimes para criar uma espécie de zoológico e também um profundo sistema de decoração da base, que pode ser mobiliada e equipada com uma tonelada de itens e equipamentos diferentes, no melhor estilo The Sims.

Decorando a base com coisas inúteis, tipo uma “Máquina de Toca Aqui”

Confesso que eu não engajo muito com esse tipo de mecânica, mas para quem gosta de “brincar de casinha”, é um prato cheio. Os preços das coisas são super inflacionados (e ironicamente não valem nada, já que só tem você ali). Felizmente, os tickets de compra são abundantes — mas fique avisado que a maior parte da mobília ou não serve para nada, ou só está ali pela piada.

Melhor jogar acompanhado

Considerando estes elementos “chatos”, que deixam a jogatina menos divertida, é fácil perceber que Revenge of the Savage Planet fica melhor se jogado em modo cooperativo. E o jogo permite a jogatina em dupla tanto localmente, em tela dividida, quanto online.

Coop local em tela dividida

Testei das duas formas, e ambas funcionam bem. Quer dizer, conseguir colocar o Renan — que estava online, com o jogo rodando — no meu jogo foi um trabalho árduo (por algum motivo que foge à minha compreensão), mas depois que conseguimos nos conectar, o jogo fluiu sem maiores incidentes.

Jogar com algum amigo é recomendável especialmente porque o loop de gameplay de Revenge of the Savage Planet envolve um bocado de repetição. Seja pelo foco em catalogar e coletar recursos que já descrevi, seja pelo cumprimento de objetivos protocolares — tipo “faça tal coisa x vezes”, ou “use tal arma em x criaturas” — atividades que acabam sendo realizadas mais rapidamente em dupla.

O modo cooperativo acaba servindo para o jogador agilizar as partes chatas e curtir as partes legais na companhia de outro player. E, para que vocês não fiquem parecendo um par de vasos, o jogo tem um bom punhado de trajes e adereços para você personalizar seu explorador — incluindo itens que são collabs com outros jogos e trajes que homenageiam figuras conhecidas da cultura pop.

Audiovisual e Humor

Em uma época marcada por jogos cinzentos e marrons, sempre é bom apreciarmos jogos que não tem vergonha de serem coloridos e vibrantes. A temática “planeta alienígena” concede total liberdade criativa e artística para os designers, que entregam paisagens exóticas, com fauna esquisita e flora exuberante.

Olha que visual incrível

Os ambientes são muito coloridos e as criaturas tem um design que vai do fofo ao bizarro, reforçando o tom humorístico que é marca registrada do game. A mudança para a perspectiva em terceira pessoa nos permite admirar as ótimas animações dos personagens, exageradas e caricatas de um jeito que parecem saídas de um desenho dos Looney Tunes.

Eu já falei em diversas ocasiões como eu gosto de jogos que não se levam a sério, e a série Savage Planet talvez seja uma das melhores nisso. Os textos são engraçadíssimos, e esse tom de sátira corporativista espacial parece muito algo saído diretamente do Guia do Mochileiro das Galáxias.

A trilha sonora e os efeitos, complementam a atmosfera cômica e irreverente do título. Para ninguém perder a piada, o jogo chega totalmente legendado em português brasileiro, e o trabalho de localização foi feito com esmero, “abrasileirando” nomes e expressões com muita criatividade.

Conclusão

Revenge of the Savage Planet é aquele tipo de sequência que expande e aprimora os elementos de seu antecessor. Porém, isso acaba sendo uma faca de dois gumes. Por um lado, potencializa o humor e a diversão que foram tão marcantes no jogo original. Por outro, extrapola na repetição e nas questões burocráticas que tiram o brilho da experiência.

Tipo ficar vendo e-mails corporativos

O cooperativo minimiza um poucos os problemas, tornando a jornada mais palatável — até porque, esse é aquele tipo de jogo ótimo para jogar batendo papo. Isso me faz pensar que este é o tipo de game que se beneficiaria muito de um Passe de Amigo, para facilitar a jogatina cooperativa online, como vemos nos jogos da Hazelight.

Apesar de seu andamento um tanto burocrático, ainda acho que o jogo é super recomendável, pela liberdade de exploração que ele oferece, mas principalmente por seu humor característico — e pelo teor “autobiográfico” de sua produção (que eu acho incrível, mas pode ser totalmente ignorado). O fato dele ter entrado direto no catálogo do Game Pass no dia de seu lançamento só torna esta recomendação ainda mais fácil.

Revenge of the Savage Planet está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada) e Xbox Series X|S. O game possui menus e legendas totalmente localizadas em PT-BR.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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