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The Evil That Men Do: A inspiração do Iron Maiden em Shakespeare e na Bíblia para falar “sobre o mal que vive”

Entenda como Shakespeare, a Bíblia e a história do Iron Maiden inspiraram The Evil That Men Do, faixa central do álbum Seventh Son of a Seventh Son.

Junior Candido
The Evil That Men Do: A inspiração do Iron Maiden em Shakespeare e na Bíblia para falar “sobre o mal que vive”

A música The Evil That Men Do, do Iron Maiden, saiu como single em 1º de agosto de 1988 e se tornou a segunda faixa de trabalho do álbum Seventh Son of a Seventh Son.

Gravada no Musicland Studios, em Munique, com produção de Martin Birch, a faixa tem 4 minutos e 33 segundos, com vocais de Bruce Dickinson, guitarras de Dave Murray e Adrian Smith (responsável pelo solo principal), baixo e sintetizador de Steve Harris e bateria de Nicko McBrain. No Reino Unido, o single chegou à quinta posição da parada de singles.

É uma música querida até hoje, inclusive por membros da banda. Steve Harris já disse em entrevista que esta era uma das músicas que ele queria voltar a tocar em shows, já que a banda não a toca desde 2019.

O título vem de uma fala clássica da peça Julius Caesar, de William Shakespeare. Na cena 2 do Ato 3, Marco Antônio se dirige à multidão romana após o assassinato de César e diz: “O mal que os homens fazem vive depois deles; o bem é muitas vezes enterrado com seus ossos”.

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Bruce Dickinson costuma recitar uma versão invertida dessa frase antes de tocar a música ao vivo, como aconteceu no histórico show do Rock in Rio 2001.

A letra em si não conta a história da peça, mas explora a ideia de que ações ruins tendem a marcar a memória por mais tempo que as boas.

Adrian Smith, Bruce Dickinson e Steve Harris assinaram a composição. A faixa se encaixa no conceito do álbum inteiro, que acompanha o sétimo filho de um sétimo filho, uma figura profética cercada por forças do bem e do mal. Aqui, o narrador vive um conflito interno que mistura tentação, culpa e busca por redenção.

O que a letra realmente diz

A música começa com uma imagem bem interessante: “Love is a razor and I walked the line on that silver blade”. O amor aparece como uma lâmina afiada, ás vezes perigosa. Em seguida vem “Slept in the dust with his daughter / Eyes red with the slaughter of innocence”.

Bruce Dickinson explicou em uma entrevista, sobre este momento, que o protagonista perde a virgindade com a filha do diabo, que seria uma tentadora enviada por Lúcifer disfarçada de mulher. O ato deixa marcas que não somem.

O refrão repete o título como um eco: “The evil that men do lives on and on”. O refrão se repete como um lembrete constante de em nossa sociedade, são as escolhas ruins que continuam repercutindo.

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Depois, aparecem elementos bíblicos e apocalípticos: “Circle of fire, my baptism of joy / At an end, it seems / The seventh lamb slain / The book of life opens before me”. O “círculo de fogo” marca o fim de uma iniciação falsa.

O “sétimo cordeiro” morto e o “livro da vida” que se abre remetem de forma direta ao Apocalipse e ao julgamento final. O narrador pede para não chorarem por ele e diz que “beyond is where I learn”, uma ideia de que o aprendizado continua depois da morte.

O solo de guitarra de Adrian Smith reforça a tensão, e o baixo marcante de Steve Harris sustenta a urgência da narrativa. Tudo isso forma um quadro de alguém preso entre o desejo, a culpa e a esperança de algo maior.

Análise teológica dos elementos bíblicos na letra

A letra traz referências claras ao imaginário cristão, em especial do Livro do Apocalipse, que também foram usadas em The Number of the Beast. O “círculo de fogo” e o “baptism of joy” que aparecem no fim sugerem uma iniciação que começa parecendo positiva, mas termina em julgamento ou purificação pelo fogo, algo que remete ao significado bíblico de que o fogo é um instrumento de prova, purificação ou condenação.

O “seventh lamb slain” remete ao Cordeiro de Deus (símbolo de Jesus no Apocalipse) e ao número sete, que na tradição bíblica representa completude, ou o “número de Deus”. Já “the book of life opens before me” é uma alusão direta ao Livro da Vida mencionado no Apocalipse (capítulo 20), que será aberto no Dia do Juízo Final.

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Nele estão os nomes dos salvos que estarão com Deus pela eternidade; quem não tem o nome escrito nele viverá uma separação eterna. No contexto da música, o narrador parece estar diante desse momento de prestação de contas após a tentação e a queda, o que reforça a ideia de que o mal cometido tem consequências que vão além da vida terrena.

Esses elementos não transformam a faixa em um sermão ou em algo “evangelístico”, mas usam a teologia cristã, assim como em outras canções da banda, para ilustrar de forma mais pratica e fácil de assimilar, o peso da tentação e da responsabilidade pessoal. O mal que “lives on and on” ganha, assim, um tom de eco eterno, semelhante à visão bíblica de que o pecado deixa rastros que só o julgamento final resolve.

Como a música se encaixa no conceito completo do disco

Seventh Son of a Seventh Son conta, através de suas músicas que podem ser ouvidas separadamente mas que seguem um mesmo objetivo, a história de um sétimo filho de um sétimo filho – figura da tradição popular que nasce com poderes de clarividência e cura.

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A ideia partiu de Steve Harris, que se inspirou na morte da vidente britânica Doris Stokes e no romance Seventh Son, de Orson Scott Card. Bruce Dickinson ajudou a desenvolver o enredo, que gira em torno da luta entre forças do bem e do mal pelo controle dessa criança profética.

A faixa The Evil That Men Do entra como um capítulo dessa jornada. Ela mostra o protagonista já crescido, exposto à tentação direta do mal (a filha de Lúcifer), cometendo um erro que mancha sua inocência e o leva ao confronto final com o julgamento.

Enquanto outras músicas do disco falam do nascimento, dos sonhos proféticos ou da loucura que acompanha o dom, esta destaca o momento em que o bem e o mal disputam a alma do herói. O refrão sobre o mal que permanece funciona como fio condutor: mesmo quem tem poderes especiais não escapa das consequências das próprias escolhas.

O álbum não segue uma linha rígida de história, mas as faixas se complementam para criar um quadro maior sobre profecia, tentação, culpa e o que vem depois da morte. The Evil That Men Do ganha peso extra quando ouvida na sequência do disco, logo depois de “Can I Play with Madness” e antes das faixas que fecham o conflito.

Aspectos filosóficos presentes na canção

A conexão com Shakespeare traz uma reflexão antiga sobre como a humanidade registra o passado. O mal costuma ficar mais visível porque causa impacto duradouro. No contexto do álbum, isso se mistura à luta entre forças opostas pelo destino do sétimo filho. A letra sugere que até quem busca o bem pode cair em armadilhas, e as consequências acompanham para sempre. Não há julgamento simples; há um equilíbrio precário “on a razor’s edge”, como diz o pré-refrão.

A música vem com um questionamento sutil sobre fé, tentação e a nossa responsabilidade com cada escolha e cada forma de lidar com tudoI “baptism of joy” que termina em fogo pode representar ilusões que parecem certas no momento, mas cobram preço alto depois. É um tema que aparece em várias músicas do Iron Maiden, que sempre recorrem a livros, história e mitologia para falar de dilemas humanos.

Uma das clássicas do Maiden

The Evil That Men Do não depende só do título famoso para se destacar. A melodia direta e veloz, o refrão forte e a narrativa que avança junto com o disco inteiro fazem dela uma das faixas mais consistentes de Seventh Son of a Seventh Son. Foi, inclusive, um dos muitos momentos únicos do já mencionado show que a banda fez no Rock in Rio de 2001, considerados por muitos como um dos maiores shows da história do rock.

Se você escuta o álbum na ordem, a canção ganha ainda mais peso: ela chega logo depois de “Can I Play with Madness”, música que lida com a busca por respostas mesmo em contextos considerados “loucos”, e antes de faixas que aprofundam o conflito do protagonista. Quem gosta de heavy metal com camadas literárias costuma voltar a ela justamente por isso.

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