Análise Arkade: Rhythm Heaven Groove pode até ser feinho, mas entrega muita diversão (e ritmo) para todas as idades

20 de julho de 2026

Poucas franquias da Nintendo conseguem ser tão peculiares quanto Rhythm Heaven. E, mesmo após um hiato de mais de uma década, a franquia ressurge com Rhythm Heaven Groove, jogo que oferece uma experiência rítmica mais maluca do que nunca!

Rhythm Heaven Groove é um jodo que definitivamente não deixa uma primeira impressão muito positiva. Seu menu inicial parece uma tela de marcação que esqueceram de trocar, e a experiência passa a impressão de ter o orçamento de R$ 20 e uma coxinha — especialmente quando comparado aos outros exclusivos da Nintendo.

Sim, esse é o menu inicial do jogo

Felizmente, bastam alguns minutos de jogo para perceber que essa simplicidade não tem importância: o verdadeiro espetáculo acontece quando a música começa e os mini-games mostram toda a criatividade que não só tornou a franquia Rhythm Heaven um clássico cult, como também a colocou entre os melhores jogos de ritmo já feitos.

Uma coletânea de absurdos rítmicos

Rhythm Heaven Groove não possui uma história, nem uma campanha. O que temos aqui é uma enorme coletânea de desafios musicais independentes, cada um apresentando personagens, situações e regras completamente diferentes.

Em um momento estamos ajudando uma mulher a cortar legumes. Em outro, estamos nos comunicando com um alienígena, amassando latas com uma marreta, participando de uma coreografia em grupo, evitando o olhar da lua (?!) ou pegando um frisbee com um cãozinho.

Isso para não mencionar os desafios multiplayer, que podem ser ainda mais malucos, e envolvem depilar uma cebola (?!), participar de uma corrida de luchadores bombados, salvar o reino com um time de jogadores de badminton ou encarar uma tensa disputa por um pedaço de bolo.

Essa variedade é justamente o grande charme da franquia. Nenhum mini-game permanece tempo suficiente para se tornar repetitivo. Quando você sente que dominou determinada mecânica, o jogo já apresenta outra completamente diferente, mantendo a sensação constante de descoberta durante toda a jogatina. E, mesmo quando ele “reaproveita” algum mini-game, é com algum twist ou variação de dificuldade que não deixa a coisa ficar na mesmice.

E ainda tem as fases Remix, que para muita gente são é a cereja do bolo: depois de encararmos uma coluna com 4 fases diferentes, a quinta fase pega todas elas e mistura tudo, em um desafio capaz de dar um nó no seu cérebro! É simples, viciante e muito divertido!

Além dos mini-games principais — que correspondem ao que seria a campanha do jogo — Rhythm Heaven Groove ainda traz alguns conteúdos extras muito interessantes. Existe o Beatspell (imagem acima), um RPG baseado em ritmo bem completo — com exploração de dungeons e magias que demandam combinações específicas de botões — e um modo Toybox para quem quer brincar de DJ e testar outras brincadeiras musicais.

Simples de aprender, difícil de dominar

A filosofia de gameplay minimalista continua praticamente a mesma dos Rhythm Heaven anteriores. Os controles são extremamente simples, normalmente utilizando apenas um ou dois botões. O desafio nunca está na complexidade dos comandos, mas sim na nossa capacidade de sincronizar o apertar dos botões com o ritmo da música.

Na teoria, o jogo é extremamente acessível: qualquer pessoa consegue entender rapidamente o que precisa fazer, e como envolve poucos botões, não há barreira de entrada. Porém, alcançar pontuações perfeitas exige atenção, agilidade nos dedos e, principalmente, uma boa noção de ritmo.

Outro detalhe interessante é que o jogo raramente depende de indicadores visuais. Em muitos desafios, confiar apenas no que aparece na tela pode até atrapalhar — e o jogo constantemente vai colocar coisas na sua frente, ou aplicar um zoom maldoso, só para te ferrar. A ideia é “sentir a música”, internalizar o compasso e deixar que o ritmo conduza naturalmente seus comandos.

O jogo tapando sua visão só de zoas

Essa internalização das mecânicas é essencial, pois os desafios vão aumentando de dificuldade aos poucos. De fato, os primeiros mini-games funcionam quase como um tutorial, enquanto os mais avançados exigem precisão quase cirúrgica para conquistar as cobiçadas medalhas.

Multiplayer caótico e divertido

Embora a campanha para um jogador continue vasta e de extrema qualidade, é no multiplayer que Rhythm Heaven Groove apresenta sua maior novidade. O jogo traz uma seleção de mini-games exclusivos para partidas multiplayer, o que por si só já é muito legal: ao invés de simplesmente reciclar as fases para um jogador, as atividades multiplayer foram pensadas para gerar cooperação, competição… e muitas risadas.

Alguns desafios exigem que todos os participantes mantenham exatamente o mesmo ritmo, enquanto outros dividem funções entre os jogadores, criando situações em que um pequeno erro individual pode comprometer o desempenho de todos. O resultado é uma experiência caótica e divertida, perfeita para entreter tanto jogadores experientes quanto reuniões casuais de amigos e familiares.

O multiplayer é uma adição extremamente bem-vinda, principalmente porque amplia bastante a longevidade do pacote e torna o novo jogo mais family friendly do que os capítulos anteriores da franquia.

Simplicidade cheia de personalidade

Visualmente, Rhythm Heaven Groove não pode ser chamado de bonito… porém, é um jogo que, apesar de não deixar uma boa impressão, sem dúvida é cheio de estilo e personalidade.

A direção de arte aposta em ilustrações básicas, animações simples e personagens com um visual bastante cartunesco. Em alguns momentos, o jogo realmente parece um projeto indie de baixo orçamento, não um exclusivo da Nintendo.

Mas, não dá para negar que esse estilo faz parte da proposta. Apesar do visual simples, as animações são incrivelmente expressivas, e cada mini-game apresenta uma identidade visual completamente diferente do anterior. Essa simplicidade permite que toda a atenção permaneça no que realmente importa: o ritmo.

Justamente por isso, a trilha sonora é o grande destaque do pacote. As músicas passeiam por diferentes estilos, do pop ao jazz, passando por música eletrônica, rock e até composições mais experimentais e faixas cantadas. As músicas são excelentes e boa parte delas consegue ser muito grudenta e ficar na cabeça.

O design de som também merece elogios. Além de divertidos, os efeitos sonoros reforçam a marcação rítmica das músicas, ajudando na percepção do jogador e tornando o aprendizado mais intuitivo — acredite: é perfeitamente possível jogar de olhos fechados, confiando apenas no áudio.

Conclusão

Depois de tantos anos de silêncio, seria fácil imaginar que Rhythm Heaven pudesse retornar preso ao passado, apostando apenas na nostalgia. Felizmente, não é isso o que Rhythm Heaven Groove oferece. Ele preserva tudo aquilo que sempre fez a franquia funcionar — controles simples e gameplay rítmico — mas a criatividade absurda e a grande quantidade de mini-games mantém o senso de descoberta e a diversão em alta do começo ao fim.

É verdade que, visualmente, ele dificilmente será lembrado como um dos jogos mais impressionantes do Switch. Também é possível que sua apresentação modesta faça muita gente subestimá-lo à primeira vista. Mas basta jogar algumas partidas para perceber que estamos diante de um daqueles casos em que diversão e criatividade são muito mais importantes do que gráficos bonitos e alto orçamento.

Se você já era fã da série, encontrará aqui exatamente o retorno que esperava. E, se nunca teve contato com Rhythm Heaven, talvez esta seja a melhor porta de entrada para descobrir uma das franquias mais divertidas e viciantes da Nintendo.

Rhythm Heaven Groove está disponível para Nintendo Switch — e é compatível com o Nintendo Switch 2. Infelizmente, o jogo não recebeu localização para o nosso idioma.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

Mais Matérias de Rodrigo