Análise Arkade: Stupid Never Dies tem muito estilo, mas pouca substância
Stupid Never Dies esbanja estilo e criatividade em sua apresentação, mas a repetição inerente do gênero roguelite enfraquece a experiência.
Stupid Never Dies é um jogo que me chamou a atenção desde que foi anunciado. Sua estética pop-punk, e a simples ideia do protagonista ser um zumbi apaixonado pareciam muito promissoras.
E assim… o jogo de fato tem um visual super estiloso, um zumbi apaixonado e algumas boas ideias. Mas, tudo isso acaba encoberto pela repetição da estrutura roguelite.
Um zumbi apaixonado
Em Stupid Never Dies, controlamos Davy, um zumbi que, em pleno pós-apocalipse, se apaixonou por uma jovem humana que decidiu buscar abrigo em um freezer e… morreu congelada.

Movido pela força do amor (e por poderes recebidos após comer um ovo de fênix), Davy decide enfrentar KOM, o Rei dos Monstros, na esperança de trazê-la de volta à vida. Claro que esta não será uma tarefa fácil: ele terá que mergulhar em masmorras repletas de criaturas bizarras, abrindo caminho na base da porrada e devorando seus inimigos para adquirir novos poderes e ficar mais forte.
É uma premissa absurda — que escancara o que talvez seja uma das melhores qualidades do game. Já falei muito aqui sobre jogos que não se levam a sério, e o jogo da GPTRACK50 é desses. Ele abraça o exagero e o nonsense, é cheio de personagens esquisitos e piadas de qualidade questionável.

Some isso à sua apresentação pra lá de estilosa e temos aqui uma receita cheia de potencial… mas este potencial nunca é alcançado por conta de um loop de gameplay roguelite que é formulaico, repetitivo e sem graça.
Gameplay: devorar monstros para ficar mais forte
Na prática, Stupid Never Dies se apresenta como um RPG de ação com progressão roguelite. E a ação até que funciona. A pancadaria não é incrível, mas é funcional. E temos ainda as mordidas, que são o grande twist mecânico do jogo.

Explicando: ao derrotar determinados inimigos, podemos devorar seus núcleos (?!) que nos permitem assumir suas formas e habilidades. Isso inclui monstruosidades como lobisomens, harpias, vampiros e outras criaturas. Cada transformação oferece habilidades que ampliam as possibilidades de combate e exploração.
Personagens que devoram inimigos e adquirem suas habilidades não são nada originais (Kirby manda abraços), mas essa variedade torna as coisas mais dinâmicas. Algumas formas favorecem ataques à distância, enquanto outras permitem alcançar lugares elevados ou atravessar obstáculos. A possibilidade de combinar essas habilidades com equipamentos e melhorias permanentes abre espaço para diferentes configurações de personagem.

Além disso, Davy também pode substituir partes do próprio corpo por equipamentos tecnológicos, desbloqueando atributos, habilidades ativas e efeitos passivos. Para um jogo que nem tem um sistema de combate tão bom assim (tudo é um tanto desajeitado e a falta de uma trava de mira é criminosa, especialmente para as formas que atiram projéteis), há uma quantidade considerável de sistemas para descobrir.
Entre uma run e outra, voltamos ao nosso QG (um shopping center abandonado) para conversar com um time de personagens de suporte, no mínimo, excêntrico. Depois que passamos um tempinho no shopping (indo para lá e para cá montados sobre um aspirador robô), é hora de ir ao banheiro, sentar no vaso e dar a descarga: este é o nosso “meio de transporte” para a próxima run.

A pressão do cronômetro é outro elemento importante. Cada incursão tem tempo limitado, o que nos obriga a decidir se vale a pena enfrentar adversários opcionais, procurar recompensas ou avançar rapidamente — sem garantia de sucesso.
O fator roguelite
É aqui que Stupid Never Dies realmente se perde. A estrutura baseada em incursões, somada a um cronômetro implacável, nos obriga a explorar tudo muito rapidamente. Existe uma progressão constante e o jogo turbina os level ups depois das primeiras runs, mas, mesmo assim, a incômoda sensação de perda de tempo fazendo as mesmas coisas pesa bem cedo.

Mesmo que o sistema de transformações ofereça alguma variedade mecânica — e o jogo alterne entre meia dúzia de biomas bem exóticos para não deixar cada reinício igual –, isso não é o suficiente para tornar cada nova incursão realmente diferente da anterior. Boa parte do tempo é dedicada a enfrentar grupos de inimigos semelhantes, repetir trechos de exploração e reunir recursos para comprar melhorias.
A estrutura também interfere no ritmo narrativo. A história tem situações absurdas e personagens interessantes, mas a progressão roguelite interrompe a aventura com frequência para nos levar de volta à base. O resultado é uma experiência que demora a encontrar seu ritmo — e, mesmo quando encontra, é vítima de um ciclo desinteressante.

Stupid Never Dies tem personagens carismáticos e um universo interessante, e isso poderia render um jogo de ação acima da média, com situações criativas, uma história linear e uma progressão bem definida. As transformações, por exemplo, poderiam fomentar fases com level design pensado para elas, incentivando a exploração e oferecendo confrontos pensados para cada conjunto de habilidades.
Mas isso é o que eu queria que ele fosse, não o que ele é de fato. O Stupid Never Dies que existe de fato coloca muitas ideias interessantes na mesa, mas escolhe organizá-las em um formato que, além de saturado, enfraquece todas as partes que compõem o jogo.
Audiovisual
Se a estrutura roguelite é o maior problema, a apresentação é o grande trunfo de Stupid Never Dies. O game aposta em uma estética que mistura cultura pop, referências punk, desenhos rabiscados, cores intensas, colagens e intervenções gráficas que parecem saídas de um fanzine. É mais ou menos o que Lollipop Chaisaw fez, mas de forma mais rica e criativa.

As cutscenes também brincam com diferentes estilos de animação, enquadramentos e recursos gráficos para reforçar o humor, transformando cada diálogo e encontro com chefe em uma situação absurda e cheia de identidade. Some isso a um character design inspirado, e o que temos é um jogo que claramente está se divertindo com a própria maluquice.
É verdade que nem todas as piadas funcionam (escrever comédia não é coisa fácil, e o jogo pesa a mão em tiradas de humor um tanto juvenil), mas sua disposição para abraçar o ridículo ajuda a diferenciar o jogo de tantas outras produções sisudas e sem personalidade. As dublagens complementam a proposta, com interpretações exageradas e divertidas.

A trilha sonora conversa diretamente com o espírito punk/rebelde da aventura, e é outro ponto de destaque. O conjunto audiovisual de Stupid Never Dies demonstra um nível de cuidado e criatividade que, infelizmente, não foi aplicado à jogabilidade.
Conclusão
Stupid Never Dies é um jogo que deixa uma ótima primeira impressão por sua apresentação estilosa, seu humor absurdo e sua disposição de não se levar a sério. A possibilidade de devorar monstros, assumir diferentes formas e montar builds de habilidades bastante diferentes tem potencial, e a qualidade da direção de arte é difícil de ignorar.

Infelizmente, a fórmula roguelite acaba afundando o jogo. A repetição das incursões, a necessidade de “grindar” com inimigos fracos e o ritmo irregular da jornada são problemas que fazem com que o jogo se torne maçante e sem inspiração. O resultado é um simulador de perda de tempo que só se salva pela apresentação.

Stupid Never Dies é vítima de indústria que parece mais propensa a buscar jogos “infinitos” do que jogos bons com começo, meio e fim. Ele poderia ser um ótimo jogo de fases — ou talvez algo com uma estrutura de Dead Rising — mas como roguelite, ele é medíocre. Uma pena. Todo seu estilo e sua atitude mereciam uma experiência à altura.
Stupid Never Dies está disponível para PC e Playstation 5 (versão analisada). O jogo possui menus e legendas em português brasileiro.




