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Análise Arkade: a crueza filosófica e brutal de Virtue and a Sledgehammer

Virtue and a Sledgehammer combina uma estética crua e um gameplay simples com uma narrativa densa sobre trauma, preconceito e humanidade.

Rodrigo Pscheidt
Análise Arkade: Virtue and a Sledgehammer

Embora muitas vezes sejam tratados como entretenimento e diversão, videogames também são arte. E a arte, ocasionalmente, é criada para incomodar. Virtue and a Sledgehammer é esse tipo de jogo (e de arte).

O título, que poderia ser traduzido como algo tipo “Virtude e uma Marreta” ou “A Virtude é uma Marreta”, é evocativo, mas talvez não seja de fácil compreensão. Porém, uma das primeiras telas que vemos ao abrir o jogo é uma repleta de “alertas de gatilho”:

Análise Arkade: Virtue and a Sledgehammer (imagem 2)

Ao nos depararmos com isso, fica claro que vem pedrada — ou melhor, marretada — por aí.

Uma viagem dolorosa de volta para casa

Em Virtue and a Sledgehammer, acompanhamos Pratelle, uma jovem que retorna à sua cidade natal carregando uma marreta e uma enorme bagagem emocional. O lugar em que ela nasceu e cresceu foi transformado: seus antigos habitantes agora vivem em corpos robóticos — resultado de uma tecnologia criada por ela e sua irmã, Nina, capaz de transferir memórias e consciência humana para máquinas.

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Análise Arkade: Virtue and a Sledgehammer (imagem 4)

Apesar dessa premissa de ficção científica, o jogo trata de temas bastante mundanos e próximos da realidade de muita gente: relações familiares abusivas, homofobia, preconceito, luto e a dificuldade de lidar com experiências traumáticas.

Amargurada por estes e tantos outros problemas pessoais que floresceram naquele lugar, Pratelle decide destruir tudo o que encontra pelo caminho — incluindo construções e os próprios habitantes-robôs. É um exercício que combina catarse e brutalidade, ao mesmo tempo em que levanta questões bastante profundas sobre o que nos torna humanos.

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Não espere respostas mastigadinhas, ou mesmo uma narrativa linear: o jogo levanta muitos questionamentos, mas deixa espaço para a reflexão do jogador. E, que fique claro: conforme a tela de gatilhos sugere, os assuntos abordados não são tratados de maneira confortável, e algumas situações podem ser difíceis de acompanhar.

É uma narrativa crua, ríspida, que não tenta transformar traumas em algo bonito ou fácil de digerir. Existe uma mensagem importante por trás de toda a destruição, e ela vai muito além de simplesmente descontar a raiva em um cenário virtual. Mas você precisa entender o que o jogo espera de você para se envolver com a trama.

Quebrando tudo na marretada

Virtue and a Sledgehammer tem basicamente uma mecânica: a marretada. No controle de Pratelle, vamos caminhar por cenários parcialmente destruíveis, utilizando sua marreta para quebrar paredes, derrubar estruturas e destruir os robôs que encontra pelo caminho.

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Ou seja, além do direcional para caminhar, vamos usar basicamente um único botão para desferir golpes com a marreta com três intensidades — fraco, médio e forte — conforme o tempo que a gente segura o botão apertado.

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Entre uma parede destruída e outra, vamos encontrar elementos que destoam da paisagem: eles são fragmentos da memória da protagonista, que trazem um pouco de contexto e ajudam a reconstruir sua história.

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Na prática, a ideia de descer a marretada em tudo é bastante catártica, e funciona como uma metáfora para a jornada da protagonista. Cada golpe pode ser encarado como uma tentativa de romper com o passado, e o exército der robôs (alguns agressivos, outros não) revela que não é tão fácil escapar das experiências que nos moldaram.

Profundo, mas lento

Virtue and a Sledgehammer é profundo, é filosófico… mas, mecanicamente, é bastante limitado. Não há uma grande variedade de movimentos ou muitas alternativas para lidar com os obstáculos. A marreta resolve praticamente tudo, de modo que a jornada acaba seguindo uma dinâmica muito monocórdica do início ao fim. “Quebrar tudo” pode ser satisfatório no início, mas a novidade perde força depois de uns 20 minutos.

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A movimentação lenta da protagonista também interfere no ritmo. Sem a possibilidade de correr, explorar a cidade e atravessar determinadas áreas pode se tornar cansativo, especialmente quando precisamos percorrer novamente espaços já conhecidos. Entendo que a lentidão contribui para criar uma atmosfera contemplativa e dar tempo do jogador refletir… mas ela também prolonga o simples ato de ir e vir pelo mundo do game.

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Ainda assim, seria injusto avaliar o jogo como se ele precisasse oferecer gameplay mais elaborado ou ágil. A marreta não existe para transformar Pratelle em uma heroína de um jogo de ação: sua função é expressar a fúria da personagem e o confrontamento com seu passado. A simplicidade faz sentido dentro da proposta, mesmo quando cobra seu preço no quesito diversão.

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O problema, na verdade, não é a ausência de mecânicas, mas a pouca variação encontrada ao longo da experiência. Uma maior diversidade de situações e interações envolvendo os robôs, por exemplo, é algo que poderia preservar a intenção artística sem tornar a jornada tão morosa.

Cru, mas estiloso

Se o gameplay é um tanto limitado, a direção de arte é um dos elementos que mais contribuem para a identidade do jogo. Virtue and a Sledgehammer adota uma estética estilizada retrô um tanto rústica, com personagens e construções de aparência simplificada. Ele remete a algo saído de gerações anteriores sem parecer uma limitação técnica ou uma tentativa de reproduzir um período específico.

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A simplicidade visual combina com a vibe de uma cidade decadente e com a abordagem direta da destruição — convenhamos: ambientes ultrarrealistas criados apenas para serem totalmente destruídos traria uma camada extra de custo e complexidade que não agregaria valor à experiência narrativa que o jogo propõe. A estética mais poligonal reforça o estranhamento de uma cidade que parece familiar e, ao mesmo tempo, irreconhecível.

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Mesmo com este visual um tanto grosseiro, a direção de arte sabe trabalhar com contrastes impactantes. A aparência artificial dos robôs não elimina completamente os traços de humanidade que ainda existem neles, criando situações que nos fazem questionar se estamos realmente fazendo o certo. Alguns vão nos atacar, mas outros vão fugir, se encolher, ou agir feito crianças. Até que ponto eles ainda carregam algo das pessoas que costumavam ser?

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O áudio complementa essa atmosfera com sons contundentes de impactos, estruturas se partindo e confrontos. A trilha sonora minimalista e um tanto incômoda em alguns momentos contribui para a tensão, sem transformar a jornada em uma aventura convencional de ação.

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Toda essa crueza faz parte do encanto. Virtue and a Sledgehammer não precisa de ray tracing ou gráficos fotorrealistas para contar sua história. Seu maior triunfo está na maneira como combina a apresentação visual, a destruição e os temas que deseja discutir. Ah, e tudo isso chega legendado em PT-BR, com um excelente trabalho de localização.

Conclusão

Virtue and a Sledgehammer é aquele tipo de jogo que vai aborrecer todo mundo que crucifica a famigerada “agenda woke” nos videogames. Afinal, é um jogo que traz uma mulher nem tão feminina, abertamente homossexual — o jogo até usa o termo “sapatona” (como insulto, claro) em algum momento. Mas, este não é o público dele. Afinal, apesar da marreta e da destruição, ele busca provocar sentimentos e reflexões que vão além do simples entretenimento.

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Seu ritmo lento, a movimentação pouco ágil e o gameplay repetitivo podem não engrandecer a jornada, que em alguns momentos parece se estender mais do que deveria. Porém, a história é tão desconfortável e ríspida que a gente releva estes pontos simplesmente para saber mais sobre a vida e o passado de Pratelle.

Pratelle não é a protagonista f*dona e atraente típica dos videogames. É uma personagem com dores, traumas e dilemas muito reais, que teve relações familiares complicadas e tem dificuldade em encontrar seu lugar no mundo com tantos conflitos e questões mal resolvidas na sua vida.

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Mais do que oferecer respostas simples, o jogo nos convida a pensar sobre o que significa ser humano, sobre como lidamos com nossas dores e traumas dor e sobre os limites entre buscar alívio e apagar partes fundamentais de quem nós somos.

Em resumo, Virtue and a Sledgehammer não é uma experiência perfeita — nem precisa ser para transmitir sua mensagem. É um jogo rústico e limitado em sua jogabilidade, mas também profundo e cheio de significado em sua narrativa. Uma obra crua, densa e emocionalmente exigente, que não vai agradar a todos, mas que, tal como certas obras de arte, foi deliberadamente criada com o intuito de incomodar.

Virtue and a Sledgehammer está disponível para PC.

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Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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