Call of Duty 2: Big Red One – a história real da 1ª Divisão de Infantaria e seus serviços na Segunda Guerra Mundial
Relembre Call of Duty 2: Big Red One e a trajetória real da 1ª Divisão de Infantaria dos EUA na Segunda Guerra Mundial.
Call of Duty 2: Big Red One acompanha a 1ª Divisão de Infantaria dos EUA da Argélia até a Linha Siegfried, mas nunca chega a Berlim, porque a própria divisão não chegou lá. Ela terminou a guerra na Tchecoslováquia, onde libertou o campo de concentração de Falkenau em 6 de maio de 1945.
Foram os primeiros conflitos de Call of Duty. Antes de a franquia se tornar a série multimilionária que visita não só o passado, mas também o presente e o futuro das guerras, seus jogos revisitavam os conflitos da Segunda Guerra Mundial. “Culpa” de obras como O Resgate do Soldado Ryan, Band of Brothers e, nos games, Medal of Honor, que resgataram o interesse pelo conflito no final dos anos 90 e no início dos anos 2000.
Assim, vamos revisitar não só o game clássico, como também conhecer melhor uma das unidades de combate mais importantes e condecoradas do Exército americano por seus feitos durante o conflito.
Não é o Call of Duty 2 de PC e Xbox 360

Muita gente mistura os dois jogos de 2005, então vale separar, antes de seguir em frente. Big Red One é um spin-off de console da Treyarch, publicado pela Activision para Xbox, PlayStation 2 e GameCube em 1º de novembro de 2005. Na Europa saiu em 18 de novembro daquele ano e, no Japão, só em 29 de junho de 2006, apenas para PS2. Era o segundo spin-off de console da franquia, depois de Call of Duty: Finest Hour (2004), e o primeiro a levar a assinatura da Treyarch, estúdio que depois assumiria Call of Duty 3 e a linha Black Ops. As versões de PS2 e Xbox tinham multijogador online, e havia uma edição de colecionador com DVD de bastidores e skins exclusivas.
O Call of Duty 2 principal, da Infinity Ward, alterna entre soldados americanos, britânicos e soviéticos, também durante a Segunda Guerra. Nesse game, quando joga com o soldado dos EUA, você é o cabo Bill Taylor, do 2º Batalhão Ranger, outra unidade de combate, que inclusive é a mesma do Capitão John H. Miller, o personagem de Tom Hanks em O Resgate do Soldado Ryan. E, entre suas missões, os Rangers lutaram no famoso Dia D.

Em Big Red One, a história fica presa a um único pelotão: o sargento Roland Roger e a 1ª Divisão de Infantaria. O apelido da unidade veio do distintivo em seu ombro: um grande número “1” vermelho sobre um fundo verde-oliva. O esquadrão é comandado pelo sargento Glenn Hawkins, dublado por Michael Cudlitz, o Sargento Denver “Bull” Randleman de Band of Brothers. Os vídeos de arquivo entre as missões vêm do Military Channel, com narração de Mark Hamill.
O elenco de vozes é, aliás, um capítulo à parte: além de Cudlitz, o jogo reuniu outros nomes de Band of Brothers, como Frank John Hughes (o soldado Alvin “Brooklyn” Bloomfield), Richard Speight Jr. (o soldado Stephen Kelly), James Madio, Ross McCall, Rick Gomez e Rene Moreno. A história e os personagens foram escritos por Aaron Ginsburg e Wade McIntyre.
Do deserto à Sicília: o que o jogo acerta e o que resume em nome do gameplay

A divisão foi criada em 1917, quando os EUA entraram na Primeira Guerra Mundial, e ganhou o distintivo com o numeral vermelho ainda no conflito. Foi a primeira divisão americana a desembarcar na Europa. Anos depois, na Segunda Guerra, entrou em combate na Operação Torch, em novembro de 1942, perto de Orã, na Argélia, onde desembarcou na região de Arzew. O jogo abre num prólogo em Maubeuge, na França, e volta para Orã num flashback chamado “Baptism By Fire”.
Na Operação Torch, os EUA e os britânicos desembarcaram no Marrocos e na Argélia com a missão principal de derrubar a resistência das forças da França de Vichy (o regime colaboracionista instalado após o armistício de 1940 e chefiado pelo marechal Pétain), para assumir o controle do Norte da África e chegar até os italianos e alemães, que estavam mais a leste, na Líbia e na Tunísia. Dali, os Aliados poderiam iniciar uma invasão da Itália, derrotar Mussolini e remover um dos grandes aliados de Hitler no conflito, enfraquecendo o Eixo. Orã caiu poucos dias depois do desembarque.
Conseguindo êxito na Argélia, chegou a vez de ir até a Tunísia. A missão de Kasserine Pass mostra a divisão avançando por um campo minado e retomando obuseiros americanos. Só que o desastre americano em Kasserine foi bem maior e envolveu principalmente outras unidades. O jogo transforma a Big Red One em protagonista de um episódio que, na história real, não foi só dela. A divisão teve, de fato, papel importante na campanha tunisiana, como em El Guettar, até a rendição do Eixo na região, em maio de 1943.

Na verdade, a missão e o evento histórico serviram para mostrar aos EUA que eles precisavam correr atrás dos seus rivais em combate. Como entraram “atrasados” no conflito, os então inexperientes soldados foram presas fáceis para as forças alemãs e italianas, lideradas pelo experiente e famoso Marechal de Campo Erwin Rommel (a “Raposa do Deserto”), que atacaram de surpresa as posições aliadas numa brecha na Cordilheira do Atlas. O episódio gerou mudanças na liderança dos EUA e, a partir dali, a luta americana no conflito se tornou mais eficiente.
Uma vez com a ponte para a Itália pronta, a Sicília se tornou o próximo desafio, e o roteiro fica mais fiel. O jogo mostra o desembarque em Gela, conta a história do resgate de paraquedistas da 82ª Aerotransportada (os famosos “All American”, ou AA) e o combate contra a Divisão Hermann Göring, uma unidade blindada de elite da Força Aérea alemã. Mas quando chegam a Troina, a campanha toma muitas liberdades poéticas e inventa muita coisa: a cidade vira cenário de combate urbano, mas, segundo a maioria dos relatos, a luta real se deu principalmente nas colinas ao redor.
A Batalha de Troina durou cerca de seis dias, de 31 de julho a 6 de agosto de 1943. Os alemães da 15ª Divisão Panzergrenadier e tropas italianas ocuparam posições fortificadas nas alturas e, de lá, tinham visão livre dos americanos que avançavam com pouca cobertura. Os primeiros ataques foram repelidos, e só depois de intensos bombardeios de artilharia e da aviação, e de manobras para flanquear a cidade pelas montanhas, os alemães se retiraram, e Troina foi tomada no fim. A luta real foi menos “jogável”: envolveu desgaste, avanços por colinas e resistência de retaguarda, mais do que combate de rua. Pouco depois, o comandante da divisão, general Terry Allen, foi substituído por Clarence Huebner, que lideraria a Big Red One na Normandia.
Omaha Beach: o Dia D chegou

Com a experiência adquirida na África e na Itália, chegaria o dia mais caótico do lado ocidental da guerra: 6 de junho de 1944. No famoso Dia D, os homens da Big Red One desembarcaram nos setores Easy Red e Fox Green de Omaha. Ali estava a 352ª Divisão alemã, e a primeira onda enfrentou fogo de metralhadora em terreno aberto. O sargento Ted Lombarski, sobrevivente do regimento, disse depois que estar naquela primeira onda era como cometer suicídio: descer daqueles barcos no meio de um tiroteio incessante, sem falar das minas, do caos do desembarque e dos soldados afogados pelo peso do equipamento, era uma “amostra grátis” do Inferno na Terra. O regimento teve quase mil baixas (entre mortos, feridos e desaparecidos) no dia, cerca de um terço do seu efetivo, segundo o historiador Joseph Carpenter, da Universidade do Texas em Arlington.
Para a divisão inteira, os números do dia, confirmados posteriormente, envolvem 186 mortos, 358 desaparecidos e 620 feridos. Foi o coronel George A. Taylor, comandante do 16º, quem reorganizou os grupos presos na areia. Ele avisou que só havia dois tipos de homem ficando naquela praia, “os mortos e os que estavam prestes a morrer”, e mandou todos saírem dali.

Pelo menos quatro Medalhas de Honra saíram do Dia D, e três foram para a Big Red One: o tenente Jimmie W. Monteith Jr. e o técnico John J. Pinder Jr., ambos do 16º, e o soldado Carlton W. Barrett, do 18º Regimento. Monteith ajudou a levar homens e tanques pela praia entre minas e fogo pesado e morreu durante o combate. Pinder morreu na praia depois de ser ferido várias vezes tentando manter o rádio funcionando. Barrett sobreviveu e ficou conhecido por levar feridos até um barco de evacuação.
No jogo, a missão de Omaha coloca você com a infantaria regular, e não com os Rangers, o que muda a história do game em comparação a outras apresentações do desembarque em Omaha nos videogames (ou em O Resgate do Soldado Ryan). Em compensação, a praia jogável é curta e todo o combate pesado contra a 352ª Divisão fica um pouco mais “tranquilo”. Mas não deveria ser, pois a infantaria foi lançada de peito aberto no meio do caos.
Os Rangers tinham outra missão: o 2º Batalhão Ranger devia escalar os penhascos de Pointe du Hoc, a oeste de Omaha, e destruir a bateria de canhões que ameaçava as praias. Eles cumpriram a escalada, mas descobriram que os canhões já tinham sido removidos do local. Já o 5º Batalhão Ranger, reserva do plano, acabou desviado para Omaha e precisou se reorganizar no meio do fogo cruzado, que é o que o filme de Spielberg apresenta nas cenas iniciais.
Depois da praia: Aachen, Ardenas e o fim da jornada

Passado o Dia D, era hora de atravessar a França, rumo à Alemanha. A divisão atravessou o bocage, participou da ruptura em Saint-Lô, chegou à fronteira alemã em setembro de 1944 e tomou Aachen em outubro, a primeira grande cidade alemã a cair, após semanas de combates ferozes, literalmente casa a casa. Depois, foi pela Floresta de Hürtgen e segurou o flanco norte durante a famosa Batalha do Bulge, na região de Bütgenbach, na Bélgica. Diante de uma ofensiva alemã feroz, a resistência impressionante dos americanos, num frio de rachar, impediu o avanço dos blindados alemães naquele setor.
Fontenot, no livro No Sacrifice Too Great: The 1st Infantry Division in World War II, apresenta a divisão como uma força que mudava a tática depois de cada batalha. A obra, publicada pela University of Missouri Press, ganhou em 2023 o prêmio de melhor história de unidade (Distinguished Writing Award for Unit History) da Army Historical Foundation. Nem o autor nem os soldados imaginariam que essa variação tática funcionaria tão bem em um videogame.

O jogo tem treze missões e termina nos “dentes de dragão” da Linha Siegfried, sem passar por Remagen, pelo Ruhr ou pela Tchecoslováquia. Segundo o histórico da divisão, ela somou cerca de 20.659 baixas de combate na guerra, com 3.616 mortos em ação.
O que o jogo não mostra

Depois da Linha Siegfried, a divisão ainda enfrentou a Floresta de Hürtgen, atravessou o Reno na região de Remagen, participou do cerco ao bolsão do Ruhr e avançou até a Tchecoslováquia. Ali, em 6 de maio de 1945, soldados da divisão chegaram ao campo de Falkenau. Um deles era o cineasta Samuel Fuller, que serviu na Big Red One e filmou o que viu em 16 mm. Décadas depois, ele transformaria a experiência da guerra no filme The Big Red One (1980), com Lee Marvin, no qual, curiosamente, também atuou Mark Hamill, o narrador dos vídeos de arquivo do game.
Foi uma história e tanto para os soldados da Big Red One, que combateram no Norte da África, na Sicília e na Europa Ocidental, muitas vezes ao lado de aliados como os britânicos, os franceses e os paraquedistas da 82ª Aerotransportada. Eles não estavam em Berlim quando o regime nazista caiu, mas contribuíram de forma decisiva para o fim de um dos regimes mais cruéis e nefastos da história da humanidade. E você pode jogar, quando quiser, para conhecer mais esse conflito e essa unidade, sabendo que o game é um ponto de partida: a história real é ainda mais complexa do que qualquer missão.
Fontes Consultadas
Jogo, elenco e lançamento
• IMDb Pro, Call of Duty 2: Big Red One: https://pro.imdb.com/title/tt1039601
• Giant Bomb, Call of Duty 2: Big Red One: https://www.giantbomb.com/wd/3030-16711/
• Nintendo World Report, “Activision Gets Call of Duty 2 Voice Talent” (29/8/2005): https://www.nintendoworldreport.com/pr/10760/activision-gets-call-of-duty-2-voice-talent
Livro de Fontenot
• Gregory Fontenot, No Sacrifice Too Great: The 1st Infantry Division in World War II (University of Missouri Press, 2023), Project MUSE: https://muse.jhu.edu/book/109431
• Army Historical Foundation, palestra com o autor (menciona o prêmio de 2023): https://washington.org/event/no-sacrifice-too-great-colonel-greg-fontenot
Sicília e Troina
• Wikipedia, Battle of Troina: https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Troina
• U.S. Army Center of Military History, Sicily and the Surrender of Italy, cap. XVII: https://ibiblio.org/hyperwar/USA/USA-MTO-Sicily/USA-MTO-Sicily-17.html
Dia D e 16º Regimento
• The Conversation, “The first wave went through hell”: https://theconversation.com/the-first-wave-went-through-hell-how-the-16th-infantry-regiments-heroism-helped-bring-victory-on-d-day-229448
• O Dia D: A Batalha pela Normandia – Anthony Beevor
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