Análise Arkade: Keeper, o peculiar e belo “jogo do farol” da Double Fine, agora no PS5
Keeper, o esquisito e belo "jogo do farol" da Double Fine deixou de ser exclusivo e chegou recentemente ao PS5, confira nossas impressões!
Uma das coisas que mais aprecio na indústria dos games é quando um estúdio decide fazer algo realmente novo, experimental, com uma visão criativa que não parece preocupada em seguir tendências. Keeper, da Double Fine, é exatamente esse tipo de jogo.
Convenhamos: um jogo sobre um farol que ganha vida e, acompanhado por um pássaro estranho, sai para explorar um mundo que parece saído de um sonho psicodélico não é uma ideia que todos compram. Em muitos estúdios, esse proposta seria simplesmente descartada, sem pensar duas vezes. Mas não na Double Fine, que construiu sua reputação em cima de jogos criativamente ousados e propositalmente diferentes.

Só para constar: eu sei que Keeper não é novidade para muita gente, mas estamos aqui para falar da versão PlayStation 5, que chegou em setembro de 2026, pouco depois que a Double Fine deixou de fazer parte dos Xbox Game Studios e recuperou sua independência. E, ainda que ser independente traga seus riscos, a mudança abre a possibilidade de jogos que antes estavam restritos ao ecossistema Xbox alcançarem novos públicos.
Dito tudo isso, falemos de Keeper no PS5.
História
Em Keeper, controlamos um farol abandonado que desperta misteriosamente em uma ilha remota. Com pernas aracnídeas e movimentos trôpegos, ele começa uma jornada em direção a uma montanha distante, em um mundo que parece estar sendo consumido por alguma espécie de corrupção. No caminho, encontra uma ave marinha que passa a acompanhá-lo, dando início a uma amizade improvável.

O que tem na montanha? Por que o farol ganhou vida? o que está acontecendo com o mundo? Não espere respostas concretas ou uma narrativa tradicional, cheia de diálogos, explicações e cutscenes expositivas. Keeper conta sua história principalmente por meio das imagens, dos ambientes e das transformações pelas quais seus protagonistas passam.
É uma história que permite diferentes interpretações, com temas como companheirismo, transformação, perda e renovação. Tudo isso vai aparecendo ao longo da campanha sem que o jogo precise explicar diretamente. São “só” momentos de uma acidentada e peculiar jornada protagonizada por um farol que ganhou consciência.

É verdade que nem tudo funciona, narrativamente falando, e algumas ideias ficam propositalmente abertas ou são abstratas demais (afinal, não há sequer um rosto humano com o qual possamos nos conectar). Ainda assim, mesmo que não estejamos diante de algo da magnitude de Journey, aprecio a ousadia da Double Fine em contar essa história do seu jeito, e deixar que o jogador tire suas próprias conclusões.
Gameplay
Keeper é, essencialmente, uma aventura contemplativa que flerta bastante com o formato walking simulator. Não há combates tradicionais, inimigos para derrotar ou limite de tempo para avançar. Nosso objetivo é explorar sem pressa, observar o que acontece ao redor e descobrir como seguir adiante.

Isso não significa que o jogo seja completamente desprovido de desafios. Ao longo da jornada, encontramos puzzes ambientais, obstáculos naturais e situações que exigem focar a luz do farol para fazer algo acontecer, ou contar com a ajuda do pássaro para pegar alguma coisa.

As mecânicas são simples, sem nunca exigir perícia nos controles ou reflexos apurados. Os puzzles funcionam mais como pausas para observar o ambiente e entender suas regras do que verdadeiros testes de raciocínio. Os puzzles aqui são mais situacionais do que quebra-cabeças de fato. Então, não venha esperando algo da complexidade de um Order of the Sinking Star da vida.

No geral, o que vamos fazer em Keeper é seguir em frente, interagir com pontos de interesse e encontrar formas de abrir caminhos e contornar obstáculos. Focar a luz do farol pode fazer coisas acontecerem pelos cenários, mas nunca é algo particularmente desafiador — é mais um exercício de observação.
Uma jornada que tem seu próprio ritmo
O ritmo é parte fundamental da experiência. Até pelo peso/instabilidade do protagonista, Keeper quer que o jogador explore sem pressa, contemple os cenários e tente interpretar aquelas paisagens surrealistas. Há muito o que observar: criaturas de pedra que parecem saídas de Project: Hail Mary, estruturas onde ruínas e organismos vivos se misturam em uma simbiose maluca e paisagens que hora parecem de sonho, hora de pesado.

Em certos momentos, o jogo abandona qualquer indício de normalidade e mergulha de cabeça em sequências psicodélicas nas quais cores, formas e proporções tornam-se totalmente abstratas, sem obedecer a qualquer lógica que não seja a do próprio jogo.
Entendo que essa abordagem pode não agradar a todos. Quem procura mecânicas mais desafiadoras ou uma narrativa mais tradicional talvez encontre pouco para se envolver. E tá tudo bem. Nenhum jogo é para todo mundo, e Keeper é único à sua maneira, imprecisa e experimental.

É um jogo que tem um ritmo a ser respeitado, e uma jornada que talvez seja mais abstrata do que precisaria ser, mas, repito: eu quero viver em um mundo que jogos como Keeper tenham espaço para existir. Nem tudo precisa ser GaaS, Soulslike ou roguelite.
Audiovisual
Por mais divisivo que possa ser em termos de narrativa e gameplay, Keeper é unânime quando o assunto é direção de arte. O jogo parece uma pintura surrealista em movimento, combinando cores vibrantes, construções retorcidas e criaturas improváveis para criar cenários belíssimos. O jogo comprova que mesmo ambientes melancólicos e totalmente abstratos também podem ser belos.

Mesmo que um farol não seja necessariamente carismático, a Double Fine consegue injetar personalidade em seus protagonistas, especialmente por conta dos movimentos desajeitados e erráticos do farol e do companheirismo do pássaro. E o mais legal: ela faz isso sem antropomorfizar tais criaturas, sem torná-las fofinhas estilo Pixar. O farol é torto, irregular, bizarro — e tá tudo bem.
A ausência de diálogos concede espaço para que a trilha sonora e os efeitos sonoros se destaquem na ambientação, na imersão e na construção da narrativa. E nisso o jogo acerta a mão, sempre de forma experimental. Como experiência audiovisual, Keeper constrói um mundo riquíssimo, que funciona muito bem sem palavras.

No Playstation 5, Keeper roda suave e fluido. É interessante ver que o jogo arruma um espacinho para explorar (ainda que de forma tímida) recursos do DualSense — como os sons emitidos pelo pássaro, que saem diretamente do alto-falante do controle, criando a sensação de que ele está mais próximo de nós. São elementos que reforçam o vínculo entre o jogador e os protagonistas e tornam a experiência mais imersiva.
Conclusão
Keeper não é um jogo para todo mundo, e nem tenta esconder isso. Sua jogabilidade é simples, os desafios não são particularmente difíceis e a narrativa é altamente interpretativa, de modo que que o jogador deve preencher lacunas e encontrar seus próprios significados. Mas existe algo muito especial nessa jornada, justamente por ela ser fora dos padrões.

A Double Fine sempre teve uma identidade criativa muito própria, e aqui entrega uma experiência particularmente peculiar. Um jogo diferente, surrealista e cheio de beleza, mesmo quando nem sempre conseguimos explicar exatamente o que estamos vendo na tela.
A independência recuperada pelo estúdio recentemente me deixa esperançoso — e, ao mesmo tempo, preocupado. Espero que a Double Fine continue tendo condições de produzir obras tão excêntricas quanto significativas — mesmo sabendo que estes jogos geralmente não trazem o retorno financeiro que lhes é merecido.

A indústria precisa de jogos como Keeper: que não têm medo de ser esquisitos, experimentar e seguir uma visão artística própria. Keeper é estranho, contemplativo e, em vários momentos, difícil de explicar. E é ótimo que ainda existam estúdios dispostos a fazer jogos assim e sair da mesmice.
Keeper foi lançado para PC e Xbox em outubro de 2025. Em setembro deste ano, ele chegou ao PS5 (versão analisada), com menus e legendas em PT-BR.




