Análise Arkade – Kusan: City of Wolves, um ótimo (e desafiador) “Hotline Miami-like” cyberpunk
Kusan: City of Wolves é um jogo de ação com visão de cima que não tenta esconder suas inspirações em Hotline Miami, mas tem qualidade para caminhar com as próprias pernas.
Hotline Miami foi um jogo muito importante e influente ali por 2012, mas nunca tornou-se realmente um subgênero. Vimos alguns jogos claramente influenciados por ele ao longo dos anos, mas poucos que fossem legítimo “Hotline Miami-likes”. Eis que, em pleno 2026, chega Kusan: City of Wolves.
Desenvolvido pela sul-coreana CIRCLEfromDOT, ele é um jogo de ação e tiro com visão superior que não apenas bebe, mas mergulha na fonte de Hotline Miami — tanto pela estética quanto pela hiperviolência exagerada e a dificuldade. Felizmente, ele também adiciona elementos suficientes para construir sua própria identidade cyberpunk noir antropomórfica em uma cidade tomada pelo caos.

Seguindo a premissa de “one hit kill” que vale tanto para você quanto para a maioria dos inimigos, a proposta é simples: adentrar um cenário, analisar a situação e eliminar todos os inimigos sem ser atingido. Morrer faz parte do processo, mas cada tentativa serve para nos ensinar os padrões dos adversários e encontrar a maneira mais eficiente de atravessar aquele ambiente.
É uma fórmula conhecida, mas executada com bastante competência, especialmente quando você encontra a “melhor rota” e a fase se transforma no palco de um sangrento balé coreografado.
Uma história de violência e redenção
Em Kusan: City of Wolves, controlamos Jin, um ex-soldado que abandonou a vida militar e passou a trabalhar como mercenário, mas sofre severas sequelas fruto de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Sua rotina muda quando ele recebe a missão de proteger Haru, uma garotinha misteriosa que detém um poder capaz de alterar o equilíbrio de forças da cidade.

O que inicialmente parece apenas mais um trabalho rapidamente se transforma em uma conspiração envolvendo diferentes grupos, interesses políticos e antigos companheiros de Jin. Conforme a história avança, o protagonista precisa confrontar o próprio passado e descobrir o que realmente está por trás da disputa envolvendo a pequena Haru.
Ainda que história não seja particularmente original, funciona bem dentro da proposta, e a forma como ela é contada — como uma história em quadrinhos cyberpunk — é bem estilosa, com enquadramentos dinâmicos e uma direção artística caprichada. O único porém é que, se você deixar o play automático nas cenas, vai acabar perdendo informações, pois a rolagem é muito acelerada.

Uma coisa legal de Kusan: City of Wolves é que seu mundo não é “preto no branco”, ou seja, não há uma divisão clara entre heróis e vilões. Ao longo da trama, vamos encontrar personagens que não são realmente maus, mas possuem seus próprios interesses e motivações. Isso torna as próprias ações de Jin dúbias, e sua jornada muito mais interessante.
Um quebra-cabeça de violência
A estrutura de Kusan: City of Wolves é muito familiar para qualquer um que jogou Hotline Miami: entramos em um ambiente (visto de cima, como uma planta baixa) repleto de inimigos e precisamos eliminar todos para podermos seguir adiante.

O detalhe é que um único golpe nos mata — mas também mata praticamente qualquer inimigo. Isso transforma cada fase em um pequeno quebra-cabeça de ação. Não basta simplesmente sair atacando: é preciso observar as posições dos inimigos, entender seus padrões, identificar quais estão armados e pensar na melhor ordem para “limpar” aquele cenário.
O arsenal ajuda bastante nessa dinâmica. Ao contrário de Hotline Miami, que era bastante focado em armas de fogo e armas brancas, Kusan se apoia muito mais nos punhos. Jin possui a War Hand, uma prótese cibernética em seu braço que permite executar ataques corpo a corpo rápidos e poderosos — e pode inclusive defletir tiros, com golpes bem calculados. Ele também carrega uma faca futurista — a Quantum Knife — e, ao longo do jogo, vai liberando diferentes armas de fogo. Como todas elas têm pouca munição, a ideia aqui é justamente combinar todas as ferramentas de formas criativas e funcionais.

Claro que entrar nesse flow do combate é uma questão de tentativa e erro — e cada nova fase representa um novo layout a ser aprendido. Ou seja, prepare-se para morrer muito (e rápido). Felizmente, o reinício é rápido, algo fundamental para que a dificuldade não se transforme em frustração. Você morre, entende o erro e imediatamente está pronto para tentar novamente. Depois de algumas tentativas, começamos a memorizar posições de inimigos e traçar estratégias mais eficientes até conseguir atravessar a arena em uma sequência quase coreografada de brutalidade.
A simplicidade dos controles esconde uma boa quantidade de possibilidades. O sistema de combate não é extremamente complexo, mas o jogo consegue criar profundidade por meio de situações diferentes, layout criativos para os ambientes e outros subterfúgios que obrigam o jogador não a dominar dezenas de comandos complicados, mas sim descobrir como utilizar da forma mais eficaz aquilo que tem à disposição.
Dificuldade
Kusan é um jogo difícil. A possibilidade de morrer com um único golpe torna qualquer erro bastante punitivo, especialmente quando morremos para o último capanga de uma fase, depois de limpar toda uma arena com perfeição calculada.

Em tempos dominados por roguelikes/roguelites, acredito que a média do público está calejada por ciclos de repetição até mais hostis… mas, quem não está acostumado com jogos baseados em tentativa e erro pode achar a experiência de Kusan: City of Wolves bastante agressiva.
O labo bom é que a estrutura das fases trabalha a favor da dificuldade. Os cenários são relativamente compactos e os reinícios acontecem rapidamente. Depois que você entende uma fase, passa por ela em menos de 1 minuto… o lance é que esse “1 minuto perfeito” vem depois de muitos minutos de tentativa, erro e repetição. Quando você finalmente consegue executar aquela run que antes parecia impossível, a sensação de recompensa é bastante satisfatória — mas o sabor pode ser agridoce.

Não ajuda muito o fato de que o jogo nem sempre explica direito como tudo funciona. Algumas habilidades são apresentadas de forma superficial (a faca, por exemplo), e podem exigir um pouco de experimentação até que a gente compreenda exatamente como utilizá-las. Nada de dojo ou tutorial por aqui, temos que aprender como tudo funciona no calor do combate, de modo que, em algumas situações, a dificuldade parece vir mais da falta de informação do que do desafio em si.
Audiovisual
Este é mais um tópico difícil de abordar sem citar Hotline Miami, mas a verdade é que, apesar de visualmente derivativo, Kusan: City of Wolves consegue construir sua personalidade graças à sua pegada mais futurista cyberpunk.

Kusan é uma metrópole cyberpunk decadente, iluminada por placas de neón e habitada por animais antropomórficos. Só isso já cria uma atmosfera bastante diferente do estilo urbano lisérgico criado pela Dennaton Games.
A pixel art é bastante detalhada e, quando temos a chance de ver os personagens de perto (nas cutscenes em quadrinhos) todos possuem designs marcantes e estilosos. Jin consegue transmitir a imagem de um mercenário endurecido mesmo sendo uma pantera negra antropomórfica, enquanto Haru e todo o elenco de apoio ajudam a tornar o universo mais vivo e interessante.

O contraste entre a violência exagerada da ação e o visual estilizado funciona muito bem. O sangue forma piscinas nada realistas ao redor dos inimigos caídos, e a potência dos golpes — e o estrago causado por eles — é absurda. É uma violência puramente arcade, que não foi pensada para chocar ninguém.
A trilha sonora — assinada pelo produtor e artista de hip-hop sul-coreano Loptimist — também é ótima, com batidas que combinam muito com a vibe do jogo. Os efeitos sonoros elevam a experiência, acrescentando muito impacto de cada golpe, cada tiro.
Conclusão
Kusan: City of Wolves não revoluciona nem tenta esconder suas inspirações. As comparações com Hotline Miami são inevitáveis, mas isso não significa que ele seja apenas uma cópia. Acho que é mais justo dizer que ele utiliza a fórmula do jogo da Devolver Digital como base para construir sua própria experiência, com suas próprias mecânicas e particularidades.

É um jogo de ação frenético, com uma camada de quebra-cabeça em que precisamos conhecer e estudar o mapa de cada fase para poder fazer a run infalível. É preciso ter reflexos rápidos e saber improvisar, mas, principalmente, aprender com os erros.
Somado a isso, temos um sistema de combate excelente: a combinação entre ataques corpo a corpo, armas e habilidades é muito bem calibrada, e torna o loop de gameplay viciante — ainda que a repetição exija paciência e determinação.

Kusan: City of Wolves não reinventa a roda, mas sabe fazê-la girar muito bem. E quando você flui por uma fase sem que um único inimigo consiga encostar em você, varrendo os ambientes como um furacão sanguinário, sente aquela satisfação regada à dopamina que só esse tipo de game consegue entregar.
Kusan: City of Wolves está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada), Xbox Series e Nintendo Switch. O game possui menus e legendas em PT-BR.




