Análise Arkade – Kusan: City of Wolves, um ótimo (e desafiador) “Hotline Miami-like” cyberpunk

9 de agosto de 2026

Hotline Miami foi um jogo muito importante e influente ali por 2012, mas nunca tornou-se realmente um subgênero. Vimos alguns jogos claramente influenciados por ele ao longo dos anos, mas poucos que fossem legítimo “Hotline Miami-likes”. Eis que, em pleno 2026, chega Kusan: City of Wolves.

Desenvolvido pela sul-coreana CIRCLEfromDOT, ele é um jogo de ação e tiro com visão superior que não apenas bebe, mas mergulha na fonte de Hotline Miami — tanto pela estética quanto pela hiperviolência exagerada e a dificuldade. Felizmente, ele também adiciona elementos suficientes para construir sua própria identidade cyberpunk noir antropomórfica em uma cidade tomada pelo caos.

Seguindo a premissa de “one hit kill” que vale tanto para você quanto para a maioria dos inimigos, a proposta é simples: adentrar um cenário, analisar a situação e eliminar todos os inimigos sem ser atingido. Morrer faz parte do processo, mas cada tentativa serve para nos ensinar os padrões dos adversários e encontrar a maneira mais eficiente de atravessar aquele ambiente.

É uma fórmula conhecida, mas executada com bastante competência, especialmente quando você encontra a “melhor rota” e a fase se transforma no palco de um sangrento balé coreografado.

Uma história de violência e redenção

Em Kusan: City of Wolves, controlamos Jin, um ex-soldado que abandonou a vida militar e passou a trabalhar como mercenário, mas sofre severas sequelas fruto de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Sua rotina muda quando ele recebe a missão de proteger Haru, uma garotinha misteriosa que detém um poder capaz de alterar o equilíbrio de forças da cidade.

O que inicialmente parece apenas mais um trabalho rapidamente se transforma em uma conspiração envolvendo diferentes grupos, interesses políticos e antigos companheiros de Jin. Conforme a história avança, o protagonista precisa confrontar o próprio passado e descobrir o que realmente está por trás da disputa envolvendo a pequena Haru.

Ainda que história não seja particularmente original, funciona bem dentro da proposta, e a forma como ela é contada — como uma história em quadrinhos cyberpunk — é bem estilosa, com enquadramentos dinâmicos e uma direção artística caprichada. O único porém é que, se você deixar o play automático nas cenas, vai acabar perdendo informações, pois a rolagem é muito acelerada.

Uma coisa legal de Kusan: City of Wolves é que seu mundo não é “preto no branco”, ou seja, não há uma divisão clara entre heróis e vilões. Ao longo da trama, vamos encontrar personagens que não são realmente maus, mas possuem seus próprios interesses e motivações. Isso torna as próprias ações de Jin dúbias, e sua jornada muito mais interessante.

Um quebra-cabeça de violência

A estrutura de Kusan: City of Wolves é muito familiar para qualquer um que jogou Hotline Miami: entramos em um ambiente (visto de cima, como uma planta baixa) repleto de inimigos e precisamos eliminar todos para podermos seguir adiante.

O detalhe é que um único golpe nos mata — mas também mata praticamente qualquer inimigo. Isso transforma cada fase em um pequeno quebra-cabeça de ação. Não basta simplesmente sair atacando: é preciso observar as posições dos inimigos, entender seus padrões, identificar quais estão armados e pensar na melhor ordem para “limpar” aquele cenário.

O arsenal ajuda bastante nessa dinâmica. Ao contrário de Hotline Miami, que era bastante focado em armas de fogo e armas brancas, Kusan se apoia muito mais nos punhos. Jin possui a War Hand, uma prótese cibernética em seu braço que permite executar ataques corpo a corpo rápidos e poderosos — e pode inclusive defletir tiros, com golpes bem calculados. Ele também carrega uma faca futurista — a Quantum Knife — e, ao longo do jogo, vai liberando diferentes armas de fogo. Como todas elas têm pouca munição, a ideia aqui é justamente combinar todas as ferramentas de formas criativas e funcionais.

Claro que entrar nesse flow do combate é uma questão de tentativa e erro — e cada nova fase representa um novo layout a ser aprendido. Ou seja, prepare-se para morrer muito (e rápido). Felizmente, o reinício é rápido, algo fundamental para que a dificuldade não se transforme em frustração. Você morre, entende o erro e imediatamente está pronto para tentar novamente. Depois de algumas tentativas, começamos a memorizar posições de inimigos e traçar estratégias mais eficientes até conseguir atravessar a arena em uma sequência quase coreografada de brutalidade.

A simplicidade dos controles esconde uma boa quantidade de possibilidades. O sistema de combate não é extremamente complexo, mas o jogo consegue criar profundidade por meio de situações diferentes, layout criativos para os ambientes e outros subterfúgios que obrigam o jogador não a dominar dezenas de comandos complicados, mas sim descobrir como utilizar da forma mais eficaz aquilo que tem à disposição.

Dificuldade

Kusan é um jogo difícil. A possibilidade de morrer com um único golpe torna qualquer erro bastante punitivo, especialmente quando morremos para o último capanga de uma fase, depois de limpar toda uma arena com perfeição calculada.

Em tempos dominados por roguelikes/roguelites, acredito que a média do público está calejada por ciclos de repetição até mais hostis… mas, quem não está acostumado com jogos baseados em tentativa e erro pode achar a experiência de Kusan: City of Wolves bastante agressiva.

O labo bom é que a estrutura das fases trabalha a favor da dificuldade. Os cenários são relativamente compactos e os reinícios acontecem rapidamente. Depois que você entende uma fase, passa por ela em menos de 1 minuto… o lance é que esse “1 minuto perfeito” vem depois de muitos minutos de tentativa, erro e repetição. Quando você finalmente consegue executar aquela run que antes parecia impossível, a sensação de recompensa é bastante satisfatória — mas o sabor pode ser agridoce.

E o jogo, obviamente, pontua sua performance

Não ajuda muito o fato de que o jogo nem sempre explica direito como tudo funciona. Algumas habilidades são apresentadas de forma superficial (a faca, por exemplo), e podem exigir um pouco de experimentação até que a gente compreenda exatamente como utilizá-las. Nada de dojo ou tutorial por aqui, temos que aprender como tudo funciona no calor do combate, de modo que, em algumas situações, a dificuldade parece vir mais da falta de informação do que do desafio em si.

Audiovisual

Este é mais um tópico difícil de abordar sem citar Hotline Miami, mas a verdade é que, apesar de visualmente derivativo, Kusan: City of Wolves consegue construir sua personalidade graças à sua pegada mais futurista cyberpunk.

Kusan é uma metrópole cyberpunk decadente, iluminada por placas de neón e habitada por animais antropomórficos. Só isso já cria uma atmosfera bastante diferente do estilo urbano lisérgico criado pela Dennaton Games.

A pixel art é bastante detalhada e, quando temos a chance de ver os personagens de perto (nas cutscenes em quadrinhos) todos possuem designs marcantes e estilosos. Jin consegue transmitir a imagem de um mercenário endurecido mesmo sendo uma pantera negra antropomórfica, enquanto Haru e todo o elenco de apoio ajudam a tornar o universo mais vivo e interessante.

O contraste entre a violência exagerada da ação e o visual estilizado funciona muito bem. O sangue forma piscinas nada realistas ao redor dos inimigos caídos, e a potência dos golpes — e o estrago causado por eles — é absurda. É uma violência puramente arcade, que não foi pensada para chocar ninguém.

A trilha sonora — assinada pelo produtor e artista de hip-hop sul-coreano Loptimist — também é ótima, com batidas que combinam muito com a vibe do jogo. Os efeitos sonoros elevam a experiência, acrescentando muito impacto de cada golpe, cada tiro.

Conclusão

Kusan: City of Wolves não revoluciona nem tenta esconder suas inspirações. As comparações com Hotline Miami são inevitáveis, mas isso não significa que ele seja apenas uma cópia. Acho que é mais justo dizer que ele utiliza a fórmula do jogo da Devolver Digital como base para construir sua própria experiência, com suas próprias mecânicas e particularidades.

É um jogo de ação frenético, com uma camada de quebra-cabeça em que precisamos conhecer e estudar o mapa de cada fase para poder fazer a run infalível. É preciso ter reflexos rápidos e saber improvisar, mas, principalmente, aprender com os erros.

Somado a isso, temos um sistema de combate excelente: a combinação entre ataques corpo a corpo, armas e habilidades é muito bem calibrada, e torna o loop de gameplay viciante — ainda que a repetição exija paciência e determinação.

Kusan: City of Wolves não reinventa a roda, mas sabe fazê-la girar muito bem. E quando você flui por uma fase sem que um único inimigo consiga encostar em você, varrendo os ambientes como um furacão sanguinário, sente aquela satisfação regada à dopamina que só esse tipo de game consegue entregar.

Kusan: City of Wolves está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada), Xbox Series e Nintendo Switch. O game possui menus e legendas em PT-BR.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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