Análise Arkade: Orbitals, uma bela aventura cooperativa que transforma anime em videogame
Orbitals é uma divertida aventura cooperativa que combina puzzles, plataforma e ficção científica com uma belíssima estética de anime clássico.
É impossível jogar Orbitals sem pensar nos trabalhos de Josef Fares e seu Hazelight Studios. Desde que It Takes Two e Split Fiction se transformaram em parâmetros modernos para a jogatina cooperativa em tela dividida, as comparações tornam-se inevitáveis.
Orbitals, afinal, também é uma aventura exclusivamente cooperativa, construída para que duas pessoas avancem juntas, dividindo ferramentas, resolvendo problemas e viajando por um universo de ficção científica com uma fantástica estética de anime das décadas de 1980 e 1990. O resultado é um jogo belíssimo, que parece ter escapado de uma fita VHS e ganhado vida dentro do Switch 2.
Dois amigos contra uma tempestade cósmica
Orbitals acompanha Maki e Omura, dois jovens exploradores espaciais que precisam trabalhar juntos para recuperar recursos e proteger sua estação espacial de uma misteriosa tempestade cósmica.

A trama começa apresentando um acontecimento traumático no passado dos protagonistas, mas logo avança alguns anos para mostrar os dois já jovens, trabalhando como exploradores. A partir daí, a dupla embarca em uma missão que envolve recuperar núcleos de energia e descobrir mais sobre os acontecimentos que colocaram sua estação em perigo.
A personalidade dos protagonistas é o primeiro acerto do game: a dupla possui uma relação bastante leve e divertida, e as interações entre eles e outros coadjuvantes ajuda a sustentar uma narrativa que, embora não seja particularmente profunda, funciona bem dentro da proposta de uma aventura espacial com clima de desenho animado.
O jogo possui momentos interessantes e uma boa dinâmica entre os heróis, mas a trama serve basicamente como fio condutor para levar os dois de uma situação cooperativa para outra. O que está longe de ser um problema: Orbitals é uma experiência compartilhada e, como tal, espera que os jogadores discutam o que fazer, como fazer e quem deve carregar determinada ferramenta em prol do trabalho em equipe.
Trabalho em equipe é obrigatório
Tal qual os jogos de Josef Fares, o principal mérito de Orbitals está em compreender que um bom jogo cooperativo não deve simplesmente permitir que duas pessoas joguem juntas fazendo as mesmas coisas: o game design precisa criar situações que façam a presença de outro jogador — e a sinergia entre ambos — seja indispensável.

Maki e Omura têm acesso às mesmas ferramentas, mas cada um deles pode carregar somente um gadget de cada vez. E, claro, as ferramentas precisam ser utilizadas de maneira cooperativa solucionar problemas e abrir caminhos. Tipo, um jogador pode ter uma arma que atira água e enche reservatórios, enquanto o outro carrega um rifle que dispara raios e energiza equipamentos. É comum que as habilidades precisem ser combinadas, ou que um jogador precise criar um caminho para o outro.
Isso gera situações bastante divertidas, que tiram proveito da tela dividida — que se mantém ativa mesmo no coop de sofá. A divisão faz sentido: ao mesmo tempo que cada jogador tem suas próprias atribuições, é preciso olhar para a tela do outro jogador, e pensar em conjunto para entender o que precisa ser feito, de modo que ambos possam avançar.

Há também momentos em que os papéis são mais claramente divididos. Nosso meio de transporte entre as missões é uma nave espacial e, quando estamos a bordo dela, um jogador assume a pilotagem enquanto o outro cuida das armas e defesas. Você e seu player 2 decidem quem faz o quê, e inverter os papeis torna a jornada mais variada para ambos.
Os puzzles, em geral, não são particularmente complexos. O desafio está justamente na comunicação dos jogadores, e na capacidade deles trabalharem juntos para progredir. E, às vezes, isso demanda não só comunicação, mas também timing, pois certas ações exigem que os dois jogadores estejam perfeitamente sincronizados.
Orbitals não é um novo Split Fiction (e tá tudo bem)
Split Fiction ainda é uma das melhores experiências totalmente cooperativas que eu tive o prazer de jogar nos últimos anos. Ele não é apenas um bom jogo, mas um jogo que se reinventa o tempo todo, concedendo ferramentas e habilidades únicas para cada jogador, apresentando e descartando mecânicas completas de gameplay a cada meia hora sem nunca perder o foco na cooperação e no trabalho em equipe.

Se compararmos Orbitals com Split Fiction, fica evidente que a Shapefarm ainda está alguns degraus abaixo da Hazelight, e nem falo em termos técnicos. É fato, porém, que Orbitals é menos expansivo, e trabalha com um conjunto mais limitado de ferramentas e situações.
Novamente, isso não é um demérito… e a comparação nem chega a ser justa, uma vez que a Hazelight vem aprimorando sua própria fórmula de jogatina cooperativa há mais de uma década — começando com Brothers, lá em 2013, passando por A Way Out em 2018 e levando o GOTY com It Takes Two, em 2021, até chegar à excelência de Split Fiction em 2025.

O que fica claro na comparação é que Orbitals é um jogo cooperativo mais enxuto e menos ambicioso, que prefere manter e evoluir suas mecânicas de maneira gradual ao invés de apresentar uma sucessão ininterrupta de novidades.
Como eu disse, a comparação nem é justa. Meu ponto aqui é simplesmente ajudar você a nivelar suas expectativas. Orbitals pode ser menos criativo e ambicioso do que Split Fiction — e tá tudo bem. Até onde pude descobrir, este é o primeiro trabalho da Shapefarm, e para o primeiro jogo de um estúdio, Orbitals é excelente.
Um anime jogável
E digo mais: sua direção de arte é responsável por muito do que faz ele ser excelente. Jogos com cara de anime não são novidade, mas aqui temos um nível ímpar de qualidade, que consegue reproduzir de maneira impressionante a estética dos animes de ficção científica das décadas de 1980 e 1990.

Não se trata apenas de aplicar cel shading ao mundo do jogo: a composição de cenas, as animações, os enquadramentos, tudo parece pensado para remeter a animes antigos e criar a sensação de que estamos assistindo (e jogando) a um anime old school.
Os personagens são expressivos, os cenários são cheios de detalhes e as transições entre cutscenes e gameplay contribuem muito bem para passar essa ideia de um “anime jogável”. É uma direção de arte charmosa, nostálgica e consistente, e sem dúvida o que mais se destaca em Orbitals.

Mais impressionante do que tudo isso são as animações. Orbitals tem animações naquele estilo Aranhaverso — que parece que faltam alguns frames –, mas é um recurso estilístico, não uma limitação. Existem cenários com diversos elementos de interação, e cada um deles é animado com esmero. O mesmo vale para aos emotes de comunicação (as ações são as mesmas para ambos, mas cada personagem tem suas próprias animações).
A trilha sonora segue a mesma proposta, trazendo composições que evocam a ficção científica japonesa clássica e ajudam a construir esse clima muito particular de de aventura espacial retrô. É o tipo de música que não está ali apenas para preencher o silêncio, mas que faz parte da identidade do jogo.

E existe ainda um ponto que merece destaque especial para nós: a dublagem em português brasileiro é excelente. Curtir o jogo dublado em nosso idioma deixa tudo mais legal, e a direção de dublagem faz um excelente trabalho ao emular aquela interpretação mais expressiva e teatral típica das animações japonesas que a gente assistia na Rede Manchete.
Confira abaixo um trailer dublado em português brasileiro:
Nem todo jogo fica melhor quando jogado em PT-BR, mas Orbitals é um desses jogos: parece que ele é um jogo feito por brasileiros e para brasileiros. O fato da Shapefarm ser um estúdio japonês só comprova que houve muito carinho na tradução e na adaptação do jogo para o nosso país.
Conclusão
Orbitals é uma ótima experiência para dois jogadores, que constrói uma aventura de ficção científica muito engajante enquanto nos apresenta a lugares únicos, puzzles bem sacados e um punhado de ferramentas que exigem comunicação constante entre os jogadores.

Há momentos em que você e seu parceiro realmente precisam parar, conversar, olhar para a tela um do outro e descobrir juntos como uma determinada situação deve ser resolvida. E estas são as melhores partes dos jogos cooperativos. A ideia de que você não chega a lugar nenhum sozinho, e de cada jogador contribui à sua maneira para a resolução de uma situação provoca momentos quase catárticos — a vida meio que também é assim, afinal.
Dito isso, acredito que a maior qualidade do jogo está na sua apresentação: Orbitals é visualmente belíssimo, e a estética caprichada de anime clássico concede ao jogo uma personalidade muito própria. É um jogo tão bom de se assistir quanto de se jogar — e as ótimas dublagens brasileiras tornam o “assistir” ainda mais interessante.

Não é como se existissem tantos jogos obrigatoriamente cooperativos no mundo. Neste cenário, os games da Hazelight ainda estão no topo deste tipo de experiência. Mas, Orbitals chega como uma ótima opção — exclusiva para o Switch 2 — para quem busca mais opções de jogos para curtir com um amigo, parceiro ou familiar.
Orbitals está disponível exclusivamente para Nintendo Switch 2. O game está 100% localizado em PT-BR.
- Plataformas
- Nintendo
- Lançamento
- 3 de setembro de 2026
- Publicadora
- Kepler Interactive




