Análise Arkade – Hell Clock: Guerra Maldita expande sua lore com o passado de Pajeú na Guerra do Paraguai

30 de julho de 2026

Lembra de Hell Clock, o ótimo roguelite brasileiro lançado em 2025? Pois bem, ele está de volta! O pessoal da Rogue Snail celebrou o primeiro ano de lançamento com um lançamento do game para consoles, junto de uma expansão/DLC chamada Hell Clock: Guerra Maldita. E claro que não deixaríamos de conferir essa novidade de um título tão querido, não é mesmo?

A expansão traz consigo o quarto ato da campanha de Pajeú em Hell Clock, podendo ser jogada em continuidade ao progresso que o jogador fez no jogo base de forma direta. Porém, sua história não se trata de uma sequência, mas sim de uma prequel, se passando em outro grande evento da história brasileira que antecedeu a Guerra de Canudos: Hell Clock agora nos leva diretamente para a Guerra do Paraguai, a verdadeira Guerra Maldita.

Hell Clock na Guerra do Paraguai

Antes de falar propriamente da história de Hell Clock: Guerra Maldita, vale a pena lembrar que já falamos do jogo base aqui no Arkade no ano passado, na época de seu lançamento. Além de também termos listado o título como um dos melhores lançamentos de 2025 aqui no site. Por isso, caso queira saber mais detalhes a respeito da história principal ou de mecânicas do jogo base, vale a pena dar uma conferida nesses textos.

Além do DLC, também tivemos a chance de experimentar o jogo no PS5, e o resultado foi nada menos que excelente: o jogo foi muito bem adaptado para o console, com boa experiência de navegação pelos menus e jogatina rolando a 60fps de forma fluida, com todo o espetáculo visual que já tínhamos visto no PC.

Como a experiência de jogo não muda muito nas novas plataformas, vamos focar está análise na expansão Guerra Maldita. Mas, fica a dica: se você não é PC gamer, ou simplesmente estava esperando a chegada de Hell Clock aos consoles, pode comprar sem medo, pois o port foi feito com o carinho e cuidado que o jogo merece.

A história da Guerra Maldita (ou Cursed War, em inglês), acompanha nosso personagem principal logo após a conclusão do jogo base, quando temos contato com um novo espírito que remete ao passado de Pajeú — um passado sombrio e traumático, que ocorreu antes dos acontecimentos de Canudos.

Assim, somos levados ao início do quarto ato da aventura: um pântano venenoso e sombrio repleto de seres repugnantes, representando as doenças que se espalharam pelo conflito. Mas a expansão não se resume por aí, já que temos nada menos que dez novos biomas no decorrer de toda a Guerra Maldita.

Se você gostou do tom crítico e denso da história do jogo base, Guerra Maldita não vai deixar absolutamente nada a desejar. Dando ainda mais profundidade a Pajeú, o enredo mostra duras críticas à máquina da guerra que utiliza soldados como recurso e torna a vida humana um mero instrumento tático ou recurso a ser utilizado de forma descartável.

Em meio a tudo isso, somos confrontados com um Pajeú bem diferente do “espírito de vingança” que vemos em Canudos, já que confrontamos constantemente ex-aliados e espíritos em sofrimento de soldados que também sofreram na guerra, mas que foram deixados para trás. No fim, este ato consegue reforçar ainda mais algumas relações que vemos Pajeú administrando em Canudos, o que enriquece ainda mais a atmosfera e a lore do jogo como um todo.

Novas habilidades, mais dificuldades

Com um novo ato a ser explorado, veio junto um novo círculo de habilidades para Pajeú, bem no mesmo ritmo que víamos no jogo base. Junto com esse novo círculo, temos também novos itens e equipamentos para melhorar cada uma das habilidades. São inúmeras relíquias, equipamentos, bençãos e constelações que se somam às novas habilidades para potencializar ainda mais aquela sensação gostosa de criar builds combinando diversos fatores diferentes.

Mas todo esse acréscimo não torna nem de longe o jogo mais fácil ou seu personagem necessariamente mais poderoso. Isso porque as criaturas do quarto ato, principalmente os chefões, podem se mostrar verdadeiramente mortais. Então não subestime esse novo território, pois você vai morrer inúmeras vezes até pegar o jeito da coisa. Eu mesmo passei bastante dificuldade ao relegar as novas habilidades inicialmente, acreditando que minha build antiga daria conta pelo menos das primeiras fases do quarto ato.

Spoiler: não deu conta.

Mas aqui vem um fator que julgo importante de ser mencionado também: a Guerra Maldita não é uma expansão focada no jogador que ficou muito tempo sem revisitar Hell Clock, ou que gostaria de iniciar direto a partir dela. Digo isso porque, para além das novidades, temos um considerável leque de mecânicas, habilidades e constelações que podem deixar os recém-chegados um tanto perdidos. Leva um tempinho para a gente se aclimatar à matança.

Por isso, é recomendável recomeçar o game, para ir pegando cada sistema novamente aos poucos, facilitando a curva de aprendizagem para chegar à expansão afiado como uma boa peixeira. Afinal, ainda que narrativamente ela se encaixe antes, em termos de gameplay, a gente joga como uma continuação da campanha principal.

Entendo que muita gene pode torcer o nariz para isso, mas é fato que a curva de (re)aprendizagem de Hell Clock pode ser um tanto íngrime. O que é bom para a galera dos consoles, que recebeu o jogo completinho e pode mergulhar de cabeça na campanha principal antes de adentrar a expansão.

Audiovisual impecável

Seguindo o que vimos no jogo base, Hell Clock: Guerra Maldita traz uma combinação impecável entre escolhas visuais e trilha sonora. As referências aos games clássicos de Diablo permanecem, assim como as óbvias semelhanças com Hades. Mas aqui o jogo consegue ter ainda mais identidade própria que em sua jornada principal, com músicas incríveis que ditam o tom da matança ao mesmo tempo que trazem um pesar e assombro constantes.

Visualmente conseguimos ter paletas de cores ainda mais variadas do que nos atos anteriores, com cenários que variam do verde e roxo, para o cinza azulado chegando ao vermelho sangue literal. Mas, embora tenhamos mais cores vivas aqui, nem de longe o título se torna menos sombrio por causa disso. Na verdade, parece que cada escolha de cores conversa muito bem com a história que está sendo contada, o que acrescenta ainda mais camadas de interpretação para a experiência como um todo.

No fim do dia, Hell Clock: Guerra Maldita consegue, ao mesmo tempo, traduzir a ação frenética e cíclica característica de bons roguelites (como o já citado Hades) ao mesmo tempo em que carrega um peso mórbido em cada um de seus cenários e enredos. É como se toda a diversão proporcionada pelas mecânicas do jogo viesse com uma carga dramática que deixa tudo com um tom… diferente.

Nós matamos aos montes, trucidamos inimigos com poderes espalhafatosos e curtimos cada degrauzinho de progressão que conseguimos avançar. Mas pelo menos na minha percepção, não largamos mão do peso que a história que está sendo contada carrega. Afinal, ao contrário de Hades e outros jogos mais fantasiosos, aqui estamos revisitando episódios reais (e sombrios) da nossa história nem tão distante.

É um equilíbrio que só se faz possível, ao meu ver, pelas escolhas estéticas e narrativas mais uma vez muito bem acertadas aqui, algo dificílimo de se encontrar em qualquer jogo por aí. É videogame, é colorido, tem “poderzinho”, mas também é factual e doloroso de um jeito muito particular.

Um excelente acréscimo

Para quem curtiu Hell Clock, Guerra Maldita pode ser uma excelente desculpa para revisitar o título. Não é uma expansão que reformula completamente a experiência de jogo, mas nem de longe temos a sensação de “mais do mesmo” por aqui. E talvez isso se dá pela genialidade em contar uma história de peso que realmente acrescenta algo a experiência do jogo base. Não são só mais números, mais inimigos e mais itens. É também mais profundidade e peso a uma jogatina que já era repleta disso.

O ponto mais negativo (ainda que muito subjetivo), acaba sendo o atrito que a curva de (re)aprendizagem gera para jogadores que pretendem retornar ao título, o que pode gerar alguma. Cabe a você decidir se vale o esforço de recomeçar a jornada para conhecer um pouco mais desse universo. Ao meu ver, é um preço baixo a se pagar pela jornada como um todo.

E, para a turma dos consoles, que não teve a chance de experimentar Hell Clock no ano passado, nem tem o que comentar: este pacote completo é uma baita experiência, que agrega ainda mais valor (e conteúdo) a um dos melhores jogos brasileiros dos últimos anos.

Hell Clock foi lançado inicialmente para PCs em 22 de julho de 2025, chegando para Playstation 5 e Xbox Series no dia 9 de julho — mesmo dia do lançamento da expansão Hell Clock: Guerra Maldita. O game está 100% localizado para o nosso idioma — com excelentes dublagens e regionalismos.

Gilson Peres

Gilson Peres é Psicólogo, Mestre em Comunicação e aqui no Arkade fala principalmente sobre Realidade Virtual, jogos de PC e novas tecnologias desde 2019.

Mais Matérias de Gilson

Leia Também:

Digite sua busca e pressione enter