Locadora do Paraná completa 32 anos de portas abertas e conta parte da história do “Brasil gamer” que jogava por um real a hora
A Cruel Games, locadora de Araucária, preserva fotos e memórias de 32 anos do Brasil gamer, das TVs de tubo às lan houses.
Uma locadora de Araucária, no Paraná, virou arquivo vivo da história dos games no Brasil. Felipe Pepe, editor do CRPG Book, encontrou e compartilhou no X um acervo da Cruel Games: décadas de fotos de gente pagando por hora para jogar, do Super Nintendo aos consoles atuais.
Felipe lembrou algo que fez parte da vida de muita gente que gostava de videogame no passado: console no Brasil era caro demais para a maior parte das famílias. Cartão de credito não era uma realidade para todas as famílias como é hoje, os videogames não estavam disponíveis de forma tão abrangente como hoje e, embora SEGA e Nintendo fossem representadas por aqui, o caminho mais acessível era sempre os consoles vindos do Paraguai. O PlayStation original que o diga.
Alugar o aparelho e o jogo por hora, muitas vezes sentado numa cadeira de plástico na frente de uma TV de tubo, era o jeito real de se jogar videogame. A Cruel Games começou por volta de 1994 e, segundo o próprio Pepe, completa cerca de 32 anos com as portas ainda abertas.
As imagens que ele espalhou no X mostram exatamente o que muita gente viveu e quase ninguém documentou naqueles dias. Fileira de TVs em cima de bancadas improvisadas. Caixas de PlayStation empilhadas sobre o aparelho. Garoto de chinelo no controle, adulto em pé atrás esperando a vez. Parede de azulejo, caixa de cerveja no fundo (criança podia comprar cerveja e cigarro pros pais no bar, lembra?), cartuchos e capas nas prateleiras. Mais adiante, um salão lotado, mural colorido com pôsteres variados e várias telas rodando games de futebol ao mesmo tempo.
Quem cresceu nisso reconhece perfeitamente o ambiente, que moldou a vida de muita gente que joga videogame até hoje, desde nós, que sempre fomos duros e economizávamos no lanche para jogar uma horinha de Street Fighter 2, ou para os mais endinheirados (os almofadinhas da nossa época), que até ficavam por lá, mas alugava vários jogos pra aproveitar em casa também.
Pepe lembra, muito bem, que esses espaços não eram só ponto de aluguel, também funcionando como ponto de encontro. Dava para ficar, conversar, marcar campeonato, conhecer gente, em um ambiente mais sadio do que os fliperamas cheios de gente que nossos pais ficavam sempre preocupados. E isso pesou no gosto do público. Jogos rápidos, “de dois”, como jogos de luta, esporte ou ports de fliperama circulavam melhor do que RPG longo e solitário, que pedia horas seguidas na mesma save. Esses ficavam com os “almofadinhas” que jogavam em casa e, dependendo da locadora, até conseguiam manter o save no mesmo cartucho, até zerar.
A origem da loja ajuda a entender o sua história. Numa entrevista de 2024, também trazida por Pepe, sobre os 30 anos da casa, o dono, conhecido como Boy, conta que o negócio nasceu dentro de casa, em Araucária. Ele economizou, importou um Super Nintendo do Paraguai e começou a alugar. No começo, a hora saía por 50 centavos. Chegou a ter vários Super Nintendos no mesmo espaço. Depois veio o PlayStation, as TVs maiores, os funcionários, o movimento de fim de semana e a rotina de loja aberta o maior número de horas possível.
Os jogos que aparecem na conversa são os que a memória brasileira realmente guardou daquele período: Street Fighter, Donkey Kong Country, Super Mario, e Top Gear, seguidos por Crash Bandicoot, Gran Turismo, Tony Hawk, Driver, ou Medal of Honor. Era senha anotada em caderno, revista para saber o que ia chegar e cliente que ficava até de madrugada. A loja também passou por uma fase de lan house, envolvendo campeonato de Counter-Strike (outro recorte das antigas que é a cara do Brasil que joga) e aquela venda paralela que sustentava o caixa: coxinha, refrigerante, e gente sentada esperando a máquina ficar disponível comendo um lanche.
Hoje a Cruel Games segue na Rua Alagoas, 384, bairro Iguaçu, em Araucária, só que mais como uma loja de games e informática do que como uma locadora lotada dos anos 90 e 2000. Entretanto, o Facebook e o Instagram da casa adoram celebrar sua história e ainda publicam fotos antigas, caixas guardadas e TBTs de PS2, TV de tubo e contras de KOF. O acervo que o Pepe viu está concentrado nas páginas da loja.
O gancho que ele traz vai muito além da saudade paranaense. Locadoras e lan houses com cobrança por hora existiram em boa parte da América Latina, da África, do Oriente Médio, da China e do Sudeste Asiático, algo não tão visto na América do Norte, Europa e Japão, mas que é a cara do Brasil dos anos 90. Eram tempos onde era preciso levar o próprio memory card para seguir o progresso no game favorito ou trazer sua escalação de futebol pronta, e o cardápio da casa girava em torno dos sucessos de cada época, indo de Sonic e Donkey Kong Country, para King of Fighters e Crash Bandicoot, até a era das lan-houses com Need for Speed Underground 2 ou GTA San Andreas.
Por isso o arquivo da Cruel Games rende mais do que um TBT que a loja adora postar. Ele mostra como funcionava o Brasil dos videogames dos anos 90, sem RGB, sem influenciadores, sem Metacritc e nada do que faz parte do nosso dia a dia hoje; era apenas os amigos, o Super Nintendo do Paraguai e a fila na frente da TV. Se é melhor ou não, isso fica pra você discutir e decidir, mas que foram anos incríveis pra quem viveu isso, com certeza foram. Ou continuam sendo, para uma loja que soube se reinventar e manter as portas abertas vivendo fases diferentes da história dos games em nosso país.
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- Plataformas
- PlayStation, Xbox, Nintendo, PC, Retrô
- Lançamento
- 9 de novembro de 2004
- Desenvolvedora
- EA Vancouver
- Publicadora
- Electronic Arts
- Gênero
- Corrida




