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Como a crise de mísseis de Cuba inspirou Batman a ter o famoso telefone vermelho em suas aventuras

Entenda como a crise dos mísseis de Cuba e a linha direta da Guerra Fria inspiraram o famoso telefone vermelho do Batman.

Junior Candido
Como a crise de mísseis de Cuba inspirou Batman a ter o famoso telefone vermelho em suas aventuras

A grande sacada por trás do telefone vermelho do Batman não nasceu na imaginação dos roteiristas da DC. Ela veio direto da vida real, mais especificamente, dos dias mais tensos da Guerra Fria, quando o mundo chegou perto demais de uma guerra nuclear.

A crise que quase gerou a III Guerra Mundial

Como a crise de mísseis de Cuba inspirou Batman a ter o famoso telefone vermelho em suas aventuras (imagem 2)
Adlai Stevenson II mostra as imagens dos mísseis soviéticos em Cuba ao Congresso dos EUA – Domínio Público

Em outubro de 1962, os Estados Unidos descobriram que a União Soviética havia instalado mísseis capazes de carregar ogivas nucleares em Cuba, a poucos quilômetros da costa americana. Por conta disso, os Estados Unidos e a União Soviética chegaram perigosamente perto de uma guerra nuclear total durante os treze dias da crise. O problema é que, no auge da tensão, não existia uma forma rápida de o presidente John F. Kennedy falar diretamente com o líder soviético Nikita Khrushchev.

A troca de mensagens era, sem exagero, quase medieval para os padrões da época. Para enviar uma mensagem, o texto era literalmente despachado pela Western Union: Kennedy mandava a nota para a embaixada soviética em Washington, onde era transcrita, e então um mensageiro de bicicleta (isso, de bicicleta, e já nos anos 60) a levava até uma agência dos Correios. Esse processo levava horas. Em um momento em que cada minuto contava, isso era um problema seríssimo.

A situação ficou tão delicada que, em determinado ponto, Khrushchev abandonou o canal formal e decidiu transmitir pelo rádio a mensagem que resolvia a crise, com a retirada dos mísseis, temendo que a via da Western Union atrasasse demais a resposta e levasse Kennedy a mandar navios para Cuba.

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Um breve resumo da Crise dos Mísseis

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Presidente Kennedy fala aos EUA sobre a questão dos mísseis em Cuba – Reprodução/Youtube

Aqui vai um resumo rápido, focado só nos pontos que mais importam para entender a crise:

O início (14 de outubro de 1962) Um avião espião americano U-2, pilotado pelo major Richard Heyser, fotografou instalações de mísseis soviéticos em construção em Cuba, a cerca de 145 km da costa dos Estados Unidos. Era a resposta soviética a dois fatores: a tentativa fracassada de invasão dos EUA da Baía dos Porcos em 1961 para remover Fidel Castro do poder, além da descoberta da presença de mísseis americanos na Turquia e na Itália, apontados contra o território da URSS.

Kennedy monta seu comitê de crise (16 de outubro) Informado das fotos, o presidente John F. Kennedy criou o ExComm, um comitê de emergência do Conselho de Segurança Nacional, para avaliar as opções: um ataque aéreo direto na URSS, a invasão de Cuba ou um bloqueio naval.

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O submarino soviético B-59 emerge após quase disparar seu torpedo nuclear contra o bloqueio dos Estados Unidos – Domínio Público

O discurso que revelou tudo ao mundo (22 de outubro) Kennedy foi à TV nacional para anunciar publicamente a existência dos mísseis e decretou um “bloqueio naval”, que chamado oficialmente de “quarentena” para evitar o peso jurídico de um ato de guerra, para impedir a chegada de novos carregamentos soviéticos à ilha.

O impasse no mar (24 de outubro) Navios soviéticos se aproximaram da linha de bloqueio no Atlântico. No último instante, deram meia-volta, evitando um confronto direto, mas mantendo o mundo em suspenso. Nessa altura do campeonato, os americanos já estavam vivendo dias quase que de paranóia, se preparando de verdade para uma guerra nuclear.

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Os Estados Unidos apresentam provas da presença de mísseis R-12 em Cuba ao Conselho de Segurança das Nações Unidas – Domínio Público

“Sábado Negro” (27 de outubro) O dia mais perigoso de toda a crise. Um U-2 americano foi abatido sobre Cuba, matando o piloto major Rudolf Anderson, e um destróier americano lançou cargas de profundidade contra um submarino soviético armado com um torpedo nuclear, em um episódio que quase levou à ativação das armas. Ainda assim, os dois lados escolheram não escalar o confronto. À noite, Robert Kennedy, irmão do presidente, se reuniu secretamente com o embaixador soviético Anatoly Dobrynin para sinalizar que os EUA aceitariam remover seus mísseis da Turquia em troca da saída dos soviéticos de Cuba, em um acordo mantido em sigilo por anos.

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O desfecho (28 de outubro) Khrushchev anunciou publicamente que a União Soviética desmontaria as instalações em Cuba, em troca do compromisso americano de não invadir a ilha. Foi esse susto (os treze dias em que o mundo esteve mais perto do que nunca de uma guerra nuclear), somada a falta de comunicação direta entre EUA e URSS, que convenceu as duas superpotências a criar, no ano seguinte, a linha direta de comunicação que inspirou o telefone vermelho do Batman.

Nasce a linha direta (que nunca foi um telefone vermelho)

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A “real” primeira linha quente Moscou – Washington: um teletipo – Jim Kuhn

Passado o susto, veio a lição de casa. A ideia de uma linha direta entre Washington e Moscou já havia sido levantada nos anos 1950, ainda no clima de pós-II Guerra, mas só ganhou força depois da crise dos mísseis, quando ficou claro que as mensagens diplomáticas demoravam horas demais para chegar ao destino, quando a humanidade já estava trabalhando na exploração do espaço, mas transportava mensagens confidenciais de bicicleta. No ano seguinte, os dois países se reuniram em Genebra e assinaram o acordo que criava oficialmente essa comunicação direta.

Mas apesar de se chamar extra-oficialmente de “linha vermelha” e de ter a ideia do imaginário popular de um telefone (o meio de comunicação mais utilizado e popular da época), nunca ouve telefone nenhum. O link foi estabelecido em 20 de junho de 1963 e usava tecnologia de teletipo, sendo depois substituído foi substituído por telecopiadora e, mais tarde, por e-mails. O sistema entrou oficialmente em operação em 30 de agosto de 1963, e o primeiro teste, de acordo com registros da época, foi tão prosaico quanto poderia ser: a frase-padrão usada para testar máquinas de escrever, “the quick brown fox jumped over the lazy dog’s back”, seguida de uma sequência numérica.

Mesmo sem telefone algum, o apelido pegou. Ficou conhecido popularmente como “linha vermelha” ou “telefone vermelho”, e assim entrou para o imaginário do cinema e da TV em obras como Dr. Fantástico (1964), que ajudaram a fixar essa imagem — mesmo sendo, na prática, pura ficção.

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Quando a Batcaverna ganhou sua própria linha direta

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O primeiro toque do “Bat-Phone”, que ainda não era vermelho – Reprodução/DC Comics

Foi exatamente esse clima de Guerra Fria, com a ideia de uma comunicação de emergência entre duas potências, que inspirou os quadrinhos do Batman. O conceito do que ficaria conhecido como Bat-Phone foi criado pelo roteirista Bill Finger e apareceu pela primeira vez em Detective Comics #328, publicada em junho de 1964, dois anos antes da estreia da série de TV do Batman.

Na estreia, o aparelho nem tinha nome oficial. Ele surgiu como um objeto sem identificação sendo usado pelo Comissário Gordon para contatar a Dupla Dinâmica, como parte do “New Look”, o pacote de mudanças determinado pelo editor Julius Schwartz para renovar a linha editorial do personagem. Antes de ganhar o nome de “Bat-Phone”, o aparelho aparecia nos quadrinhos apenas como “Hot-Line”, numa referência direta e pouco disfarçada à linha direta Moscou-Washington, chamada pela imprensa da época de “telefone vermelho”.

Vale reforçar: a origem soviética não é especulação de fãs. É, na verdade, a explicação mais aceita entre pesquisadores e fontes especializadas em história dos quadrinhos para o surgimento do gadget, sendo um reflexo direto da ansiedade real que dominava o mundo naqueles anos.

Adam West transforma o telefone em ícone pop

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“Quero falar com a tia do Bátima” – Reprodução

A criação de Finger circulava havia dois anos nas páginas da DC quando a produção da série live-action de 1966, estrelada por Adam West como Batman, decidiu não só usar o aparelho, mas batizá-lo oficialmente. A mudança parece ter sido pensada, assim como a criação de Barbara Gordon, para atender às necessidades do produtor William Dozier na nova série de TV, que necessitaria de elementos marcantes para manter os espectadores conectados com as aventuras.

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Foi ali que o telefone ganhou a estética que o público reconhece até hoje. O aparelho era vermelho, com um botão preto no centro no lugar do disco de discagem, e ficava guardado sob uma redoma de acrílico transparente em cima de uma mesa especial. Havia unidades no escritório de Bruce Wayne em Mansão Wayne, na Batcaverna e uma versão móvel dentro do Batmóvel, sem falar da linha instalada diretamente na sala do Comissário Gordon na sede da polícia de Gotham.

Um detalhe: a linha da Batcaverna estava conectada a um gravador de rolo com respostas pré-gravadas, para o caso de Batman não poder atender, sem correr o risco de expor sua identidade secreta. Era normalmente o mordomo Alfred quem respondia, embora nem o Comissário Gordon nem o Chefe O’Hara soubessem quem estava do outro lado da linha.

O termo “Bat-Phone” pegou tão forte que extrapolou os quadrinhos e a TV. Hoje, “bat phone” virou até jargão popular para se referir a um número de telefone reservado para ligações de alta prioridade, uma expressão usada em contextos totalmente fora do universo Batman.

Um símbolo que sobreviveu às décadas

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Os Bat-Trecos sempre se atualizam – Reprodução/DC Comics

O aparelho passou por atualizações ao longo dos anos. Em The Joker (Volume 2) #2, ele foi reimaginado como um smartphone vermelho que permite a James Gordon acessar arquivos selecionados do Batcomputador, interligado ao sistema de satélites particular de Batman, mas a essência permanece a mesma criada por Bill Finger em 1964: uma linha direta e restrita entre duas figuras de autoridade em momentos de crise.

É um exemplo raro de como um evento histórico real, carregado de tensão e risco de catástrofe, pode se transformar em um dos objetos mais lembrados da cultura pop, sem perder a referência à origem que o inspirou.

Fontes consultadas

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