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Análise Arkade: Mind Diver, um mergulho por uma mente fragmentada que conta uma bela história

Mind Diver mergulha no abstrato mundo do subconsciente e da memória para contar uma bela história sobre as alegrias e tristezas do amor.

Rodrigo Pscheidt
Análise Arkade: Mind Diver

Poucas coisas na experiência humana são tão complexas, voláteis e difíceis de decifrar quanto a memória. Lembramos de cheiros, de palavras soltas e de olhares, mas os fatos exatos de momentos traumáticos frequentemente se perdem na névoa do nosso subconsciente. É através desta névoa que Mind Diver decide mergulhar.

Descrito pelos próprios criadores (o estúdio dinamarquês Indoor Sunglasses) como “um romance policial onde a vítima é o amor”, o título chamou a atenção da comunidade indie e recebeu elogios de figuras influentes como Lucas Pope (criador de Return of the Obra Dinn). Muito se deve à sua premissa ousada: em vez de nos colocar em delegacias ou becos escuros, Mind Diver nos coloca dentro de um traje de mergulho psíquico, e nos convida a descer até o fundo do subconsciente de uma mulher desesperada para descobrir o que aconteceu com o amor da sua vida.

Mergulho no oceano do subconsciente

A narrativa acompanha Lina Kukanová, uma jovem que vive em Copenhague e procura a polícia após o desaparecimento repentino de seu namorado, Sebastian Klausen.

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O problema é que as memórias de Lina sobre a fatídica noite do desaparecimento — envolvendo uma legítima “festa estranha, com gente esquisita” — estão se deteriorando rapidamente: incapaz até de explicar como chegou à delegacia, ela é encaminhada para a startup que desenvolveu a tecnologia de mergulho mental que vamos experimentar.

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Na pele desse investigador psíquico, guiado apenas pela voz de uma auxiliar remota, somos lançados no “Oceano da Mente” de Lina. Brincando com a temática, o deslocamento entre memórias é feito como se estivéssemos nadando, e vamos passar por trechos vazios e escuros, pontuados por feixes de luz e estruturas que remetem a sinapses cerebrais.

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Ao alcançar um bolsão de memória, deixamos de nadar para explorar um diorama tridimensional congelado no tempo. Cada cena representa um instante da vida do casal: uma calçada movimentada em frente à festa, uma oficina de conserto de bicicletas, uma noite chuvosa em um apartamento, ou um piquenique em um parque.

É com base nestes fragmentos de memórias que vamos tentar dar algum sentido à perda de Lina e ao sumiço de Sebastian, coletando partes de memórias que nos ajudarão a montar este quebra-cabeças mental.

Reconstruindo lacunas e memórias perdidas

A mecânica central de Mind Diver gira em torno de identificar e preencher os chamados “buracos de memória” — esferas escuras que representam elementos que Lina apagou ou reprimiu daquela cena.

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Utilizando um dispositivo que parece uma pistola futurista (mas que na verdade funciona como uma espécie de scanner), vamos apontar para objetos ou pessoas que estejam emitindo uma aura rosada para escutar ecos de conversas passadas. Ao ouvir os diálogos, podemos deduzir o que está “faltando” naquela cena — podendo ser desde um par de fones de ouvido até uma pessoa que participava daquele momento.

Nosso papel é encontrar o elemento correto pelo cenário, absorvê-lo com esta pistola e então encaixá-lo no buraco correspondente. Quando a peça certa é inserida, a memória se completa, destravando novos diálogos e abrindo passagem para a próxima área fragmentada.

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Embora mecanicamente tudo seja simples, conforme avançamos, as deduções vão ficando mais intrincadas. Em vez de resolver cenas isoladas, vamos navegar entre três ou quatro memórias conectadas simultaneamente, transportando pistas e objetos de uma memória à outra para montar uma espécie de linha do tempo daqueles acontecimentos.

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Mesmo exigindo algum raciocínio do jogador, é fato que Mind Diver está muito mais para uma aventura narrativa com um pouquinho de dedução do que para um legítimo quebra-cabeça investigativo nos moldes de Obra Dinn ou The Case of the Golden Idol.

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Digo isso porque quase todas as soluções estão explicitamente amarradas às falas dos personagens, ou seja, é mais uma questão de atenção do que um teste de sagacidade lógica. Inclusive, há momentos em que a ordem de algumas combinações beira a arbitrariedade, exigindo um exercício de tentativa e erro que destoa do ritmo contemplativo da jornada.

Surrealismo audiovisual

Onde Mind Diver realmente clareia as águas é na sua direção de arte e na sensibilidade de sua escrita. O visual do jogo aposta em uma técnica fascinante: atores reais, objetos cotidianos e cenários de Copenhague foram digitalizados via fotogrametria para, em seguida, serem simplificados para modelos low-poly borrados e imperfeitos — algo coerente com a proposta de mostrar memórias imprecisas.

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O resultado visual é desconcertante: uma representação distorcida e surrealista de lembranças que escapam da mente e composições de rostos sem contornos nítidos, expressões que se dissolvem e ambientes que parecem pinturas submersas se desfazendo.

Essa estética onírica ganha vida graças a um trabalho de atuação de voz de alto nível. Os atores Erika Havasi (Lina) e Sebastian Alstrup (Sebastian) entregam interpretações repletas de naturalidade, candura, dor e desconforto. Como Lina é uma imigrante eslovaca e Sebastian é dinamarquês, até as barreiras linguísticas ganham destaque em meio a pequenos desentendimentos e a intimidade genuína que é construída entre os dois. Tudo soa muito autêntico.

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A trilha sonora acompanha perfeitamente a proposta, com melodias sutis ao piano e cordas solitárias que sabem a hora de silenciar para deixar o texto ganhar peso. E por falar em texto, sempre bom valorizar jogos narrativos que apresentam um bom trabalho de localização para o nosso PT-BR.

Conclusão

Mind Diver é uma daquelas experiências autorais que compensam a falta de escopo (e talvez até de orçamento) com uma história cheia de significado e uma apresentação marcante.

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Que fique claro que ele não vai satisfazer quem busca puzzles super cabeçudos, nem entregar uma trama de ficção científica revolucionária (apesar das tecnologias malucas envolvidas), mas triunfa ao retratar as alegrias e tristezas do amor com uma sensibilidade raras vezes vista nos videogames.

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Ao cruzar os oceanos da memória de Lina, não estamos apenas desvendando o paradeiro de um namorado desaparecido: estamos testemunhando como as conexões humanas mais profundas são construídas — e desconstruídas.

Uma jornada curta, melancólica e arrebatadora que merece a atenção de qualquer um que aprecie boas histórias (seja nos videogames ou em qualquer outra mídia).

Mind Diver chegou aos PCs em setembro do ano passado. Mais recentemente, em agosto deste ano, o jogo chegou ao PS5 e Nintendo Switch 2 (versão analisada).

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Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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